E todo carnaval tem sua quarta-feira…

20 de Fevereiro de 2008 @ 19:10 por Rafael Rezende

Parte 2- Domingo

698242 9817 ga - 698242 9817 ga

Foi um dos domingos de carnaval mais esquisito que já se viu. Desfiles fracos, muito fracos. Desde o início, quando saiu o sorteio, já se esperava isso, e a chuva ainda piorou a situação. Era previsível que Porto da Pedra e São Clemente figurariam nas piores colocações. Depois disso, a noite seria chamada de “a noite da emoção”, pela impressionante seqüência de Salgueiro, Portela e Mangueira. E, para arrebatar o primeiro dia, Viradouro, e seu polêmico carnavalesco, que mal chegou e já é comparado com João Trinta.
Acontece que estrangeiro mal consegue citar o nomes das escolas, vai lá saber a importância delas para o carnaval. Fora os brasileiros, que preferiam se divertir nos camarotes ao som do “Crééééu”. Sendo assim, nem a emoção rolou como se esperava. Salgueiro com um samba apenas razoável, Viradouro com um samba horrível, e Mangueira em crise contribuíram para uma noite morna. Parece que somente a grande torcida da Portela conseguiu garantir um momento mais animado na primeira noite.

São Clemente abriu a noite de forma bem correta. Em outros anos, certamente mereceria continuar no Grupo Especial. Mas com o alto nível técnico das escolas, acabou faltando um pouco a mais para a agremiação de Botafogo se firmar no Especial. O chamado estilo “clean” do Mauro Quintaes acaba dando uma idéia de pobreza e de acabamento simples demais. Os delírios de D. Maria, a louca, foram bastante comportados, devido aos olhares vigilantes do prefeito César Maia. O que sobrou de São Clemente nessa história foi o refrão do samba, e o baile dos frangos em uma das alegorias. E só. Foi um desfile sem grandes problemas, mas que também não conseguiu nenhum grande destaque.

A Porto da Pedra melhorou sua apresentação, se comparado aos últimos dois anos. Para uma escola com dificuldade para competir de igual para igual com as grandes agremiações, tanto em termos de tradição, quanto financeiramente, ela se saiu bem. O carnavalesco Mario Borrielo fez um desfile acima da média que ele costuma fazer, reflexo direto da liberdade que ele teve na escolha e realização do enredo. Destaque para o carro representando o navio Kasato-Maru, todo em bambu. O samba foi um dos mais controversos do ano, alguns o consideraram um dos melhores do ano, outros um dos piores. Mas o fato é que ele foi o suficiente para a agremiação fazer um bom desfile, bem alegre. Destaque para o casal de mestre-sala e porta-bandeira importados do Império, Robson e a Estandarte de Ouro Ana Paula, além da bateria do guerreiro Louro, que mesmo passando mal conseguiu acompanhar a bateria até o fim do desfile, ganhando o Estandarte de Personalidade.

A competitividade começou a crescer quando o Salgueiro entrou na avenida. O enredo sobre o Rio de Janeiro gerou uma expectativa muito boa, pois ele poderia render um dos melhores momentos do ano. De fato, rendeu, mas ainda assim abaixo do esperado. Em outros tempos, este desfile poderia ser um verdadeiro sacode, hoje não mais. O samba morno chega a ser uma decepção, para um enredo tão maravilhoso. Cantar o Rio de Janeiro de uma forma tão leve e colorida é a cara do Salgueiro, e a cara do carnaval. Coisas do carnavalesco Renato Lage, sua companheira Márcia Lávia, e a perceptível sensibilidade deles ao construir os carnavais. Mesmo assim, desapontaram-me um pouco. Está certo que o Salgueiro não teve muita verba para este desfile, e o casal até operou alguns milagres. Mas o nível das alegorias oscilou bastante. A alegoria que representava o Maracanã - que poderia ser uma grande sensação – ficou sem graça, mal lembrava o Renato Lage do início dos anos 90 na Mocidade. A utilização de roupas comuns nos carros da favela e da praia também foi um descuido incomum no trabalho dos carnavalescos. O resto do visual foi agradável. Destaque também para a comissão de frente, muito boa. No final das contas, um bom desfile, que acabou levando um inesperado vice em um ano sem grandes apresentações.

A Portela honrou as expectativas de sua torcida e fez um bom carnaval. Deu uma melhorada na estética, sobretudo nas alegorias, e continuou mantendo a boa qualidade dos demais quesitos, como samba, bateria, harmonia, evolução. Foi um desfile com vários pequenos pontos falhos, que retiraram décimos aqui e ali, mas no final foi um saldo positivo, sobretudo para uma agremiação que estava há 10 anos fora do Sábado das Campeãs. Interessante é o nível crescente da escola, de 2006 pra cá, depois do tombo em 2005. Espera-se, portanto, que 2009 seja melhor ainda.

Quando a Mangueira entrou na avenida, as tradicionais bandeirinhas se agitaram, não dando a noção se seria um desfile apoteótico, ou se a escola iria em breve murchar na avenida. Minutos depois, deu pra perceber que estava mais para a segunda opção. A chuva só veio para “coroar” a má fase da Mangueira. A escola acabou sentindo mais do que se poderia prever a falta do enredo sobre Cartola. O enredo foi mal desenvolvido, o samba foi o pior da década apresentado pela agremiação, Max Lopes se mostrou repetitivo, Carlinhos de Jesus não conseguiu impressionar, além de que um dos componentes estava com um guarda-chuva normal. Faltou à escola mais dinheiro também, a mídia negativa certamente repercutiu na perda de uma parte do patrocínio. A saída de Ivo Meireles faltando poucos meses para o carnaval prejudicou o desempenho da bateria. A chuva prejudicou as fantasias, que ainda tiveram o erro de serem muito parecidas dentro de alguns setores, dando a sensação de haver apenas uma ala no setor inteiro. O que segurou a Mangueira foi a força da escola mesmo, a tradição e a raça de alguns componentes. Que a décima colocação seja o suficiente para a escola acordar. Será necessário renovar, e ao mesmo tempo voltar a valorizar a tradição.

Viradouro terminou a noite de carnaval embalada pelas polêmicas do carnavalesco. Paulo Barros: ame-o ou o odeie. Entre erros e acertos, e opiniões das mais divergentes, foi um desfile que, na hora, prevaleceu a impressão de que “aconteceu”, mas que na apuração se mostrou verdadeiramente deficiente. O samba, o pior do ano, na avenida ficou até aceitável, ainda que bem longe dos 39,8 que recebeu. Mérito da bateria da Viradouro, do intérprete Nêgo, e do bom chão da escola. A comissão de frente seguiu a tendência de espetáculo, e nesse sentido funcionou muito bem, ainda que muita gente não tenha gostado. O enredo foi, em minha opinião, um dos piores do ano. É um tema muito subjetivo, e que permitiu momentos nada carnavalescos na avenida. As fantasias e alegorias variavam bastante. Algumas eram muito simples, e feias. A criatividade compensava, mas não o suficiente para merecer a nota máxima. E encher uma alegoria de seis mil bebês de plástico não tem nada de interessante. A verdade é que ou o Paulo Barros se ajusta ao regulamento, ou ele vai continuar dando murro em ponta de faca. O desfile que ele está fazendo não cabe no regulamento. Como que se analisa a alegoria censurada?

Desfile acabando 05:30 horas é tão esquisito. Passa rápido demais. Sinto falta da sétima escola, desfilando ao amanhecer…

Carnaval Virtual, “O maior espetáculo da tela”

20 de Fevereiro de 2008 @ 13:43 por Afonso Fonseca

Caros leitores, re-inauguramos nossa participação, trazendo um tema interessante, instigante para muitos e ao mesmo tempo, inédito, para a maioria dos foliões de todo País. O Carnaval Virtual, que teve seu prelúdio no ano de 2002, com a criação da LIESV - Liga das Escolas de Samba Virtuais, e que teve seu primeiro carnaval oficial acontecendo no ano seguinte. Esta nova forma de se cultuar o carnaval partira da iniciativa de alguns jovens internautas, aficionados por samba e carnaval, em exercer funções semelhantes ao carnaval real, ou seja: carnavalescos, compositores, intérpretes, figurinistas, aderecistas, que juntos, em suas respectivas agremiações, fazem do CV, “o maior espetáculo da tela”. Atualmente há cerca de meia dúzia de Ligas Virtuais, em plena atividade. Elas promovem seus desfiles em datas distintas e passa automaticamente a ser um passatempo agradável àqueles que de fato simpatizam e gostam do carnaval arte.
Para uma maior compreensão sobre o assunto, entrevistamos João Marcos, que atualmente exerce o cargo de Vice-Presidente da entidade:

“João Marcos, gostaria que nos relatasse em breves palavras sobre o Carnaval Virtual. Como surgiu esta idéia? Quais foram os mentores desta modalidade de entretenimento? Como funcionam os desfiles?

JM - O Carnaval Virtual nasceu em 2002, idéia do Miguel Paul, que hoje é diretor na Estácio. Em 2003, tivemos o nosso primeiro desfile, sendo que três das seis escolas que desfilaram; a Imperiais, a Império do Vale e a Colibris; existem até hoje. A idéia é muito simples – são confeccionados protótipos de fantasias e alegorias, iguais aos que são feitos pelas escolas de samba reais. Esses protótipos são montados de forma a parecer um desfile e são exibidos na página da liga, ao som do samba-enredo da escola. E é muito interessante como a coisa ocorre – como temos chats com o público e narração, você sente um clima de desfile mesmo, a reação das “arquibancadas”, a empolgação dos componentes da escola. É uma experiência interessantíssima, que deixou de ser brincadeira para se tornar vitrine de talentos e futuros profissionais de carnaval.

Quando se deu o primeiro desfile virtual e quantas escolas o compuseram? Como foi essa experiência de ver na tela um desfile de carnaval?

JM - Foi em 2003. Desde lá, a LIESV já teve cinco carnavais. Eram seis escolas no primeiro desfile. Hoje temos vinte e duas, dividas em Grupo Especial e de Acesso - sem contar o desfile de avaliação, onde pessoas que pretendem ter escola na LIESV submetem seu trabalho e são avaliados por um júri rigoroso. Para 2008, mais de 40 escolas se inscreveram neste grupo de avaliação. A procura está sendo tão grande que, dependendo da qualidade dos trabalhos, poderemos até montar um Grupo de Acesso B.

Sabe-se que hoje a LIESV é um celeiro de bambas. Fale-nos de pessoas que viram revelado seus potenciais e que hoje atuam simultaneamente no Carnaval Real, salvo engano, não somente no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas também no sul do País:

JM - A LIESV formou inúmeros compositores. Vários deles que passaram por aqui, começaram a vencer em escolas nos Grupo de Acesso no Rio, estão em diretorias e etc. Mas a LIESV, pelo seu espírito democrático, acaba tendo gente do Brasil todo, do Maranhão ao Rio Grande do Sul. E o bacana é que há um intercâmbio. O William Tadeu, presidente da ala de compositores da tradicional Consulado do Samba, de Florianópolis, e o carnavalesco da escola, o Rapha Soares, participam da LIESV. Eles são modelos para os mais novos, passando experiência. Outro exemplo é o Imperial, compositor de sambas clássicos do carnaval paulista, em especial da Mocidade Alegre (inclusive, o samba do penúltimo título da escola), e que este ano é compositor do samba da Mancha Verde. Ele é um professor para a garotada. Além disso, a LIESV acaba sendo uma vitrine - muita gente importante acompanha o nosso trabalho. P.ex., uma das revelações da LIESV, o intérprete James Bernardes, que é do interior do Rio, do município de Vassouras, foi convidado para integrar o carro de som da Tradição este ano. E os frutos disso tudo começam a aparecer – tivemos compositor ganhando no carnaval de Uruguaiana, no ABC paulista, em Guaratinguetá, em Niterói, interior de Minas, Porto Alegre, Florianópolis, em blocos no Rio, em escolas mirins, etc. É tanto samba, em tanto lugar, que é difícil até enumerar. Inclusive, lançamos uma série de CDs, chamados “Do Virtual ao Real”, só com sambas enredos da garotada que foram concorrentes em escolas reais – vários deles, campeões. Já lançamos três volumes e estamos preparando o quarto. Quem quiser baixar os CD da LIESV, é só acessar aqui: http://www.liesv.com/portal/downloads.html. E não é só compositor que nós formamos- temos carnavalescos que começaram aqui e que brilham em Porto Alegre, interior do Rio Grande do Sul, Florianópolis e São Paulo. Além disso, formamos conhecedores de carnaval. Basta dizer que o comentarista dos desfiles do carnaval de Vitória por uma rádio de apelo nacional, este ano, foi o Lucas, presidente da Império do Vale. Enfim, quem ama carnaval, principalmente pelo seu lado mais artístico, encontra na LIESV o ambiente ideal para se desenvolver.

Exponha ao leitor como se dá o ciclo do carnaval virtual, se é similar ao Carnaval? (Da divulgação de sinopses, ao resultado final do concurso); Quantos grupos existem e quantas Escolas compõem?

JM - É bastante similar ao carnaval real, só que ocorre numa época diferente, inclusive para não atrapalhar o pessoal que participa de eliminatórias de samba em escolas reais. As datas são fixadas no calendário. Os desfiles ocorrem entre Junho e Julho. Por exemplo, enquanto no carnaval real, está chegando a hora dos desfiles, aqui na LIESV estão começando as eliminatórias. Várias escolas já lançaram sinopses, algumas, inclusive, já começaram a fazer os “terríveis” cortes. Se você quiser concorrer, as sinopses estão na página inicial do site da Liga (http://www.liesv.com/portal/index2.html). Basta gravar, mesmo sem instrumentos musicais, só com a voz mesmo, e mandar a gravação e a letra para o email da liga, liesv_carnavalvirtual@yahoo.com.br, que você participará dos concursos. E somos 22 escolas – 12 no Grupo Especial, 10 no Acesso. São escolas bem organizadas, algumas com quatro ou cinco desfiles na sua história. É um carnaval virtual realmente levado a sério.

O Carnaval Virtual de 2007 correspondeu às expectativas da Equipe organizadora da LIESV? O que você destacaria? E o Carnaval Virtual de 2008, como estão os preparativos? O que se pode esperar deste evento?

JM - Sim. Conseguimos grandes vitórias – para se ter idéia, o nosso CD foi gravado no mesmo estúdio que produz o CD de Acesso do Rio. Com relação ao desfile, o interesse do público superou, absurdamente, as expectativas da organização, a ponto de termos até problemas de estrutura para exibir o desfile. Para se ter uma idéia, contratamos uma webrádio para transmitir o áudio dos nossos desfiles, com capacidade para 1000 pessoas conectadas simultaneamente e com qualidade digital. Teve momentos em que essa capacidade não foi suficiente. Foi um aumento de quase 500% no público do desfile em relação ao ano anterior. Durante a noite do grupo de acesso, foi 22 mil conexões ao streaming da rádio durante toda a noite, um número que assustou a organização da liga. Nós deixamos uma faixa do CD da LIESV, o samba da Imperatriz Paulista, cantado pelo excelente Anderson Paz, intérprete da Acadêmicos da Rocinha, armazenado no Mp3tube. (http://www.mp3tube.net/br/musics/Carnaval-Virtual-Samba-Enredo-Imperatriz-Paulista-2007-LIESV/14612/). Lá, consta que a faixa teve mais de sete mil exibições – isso sem a gente fazer nenhuma propaganda e sequer ter avisado alguém de que colocaríamos o samba lá. Agora, para mim, o mais importante foi o salto de qualidade artístico. As escolas, em 2007, mostraram desejo de fazer algo de qualidade. A renovação do pessoal foi extremamente saudável, injetou um sangue novo que me deixou muito feliz. E o que esperamos, para 2008, é melhorar o que já temos de bom e, principalmente, revelar mais talentos e fazermos novos amigos.

Existe um portal denominado CAESV- Comissão de avaliação das Escolas de Sambas Virtuais; qual o objetivo do mesmo? E se houver interesse momentaneamente, como se faz para inscrever uma Escola para disputar uma vaga na LIESV para o carnaval de 2009?

JM - A CAESV é o órgão da LIESV responsável pelo desfile de avaliação. Quem quiser montar uma escola, é pegar o formulário que consta lá, mandar para a liga e preparar o carnaval. A inscrição, em si, é bem simples – basta acessar http://www.liesv.com/portal/caesv/inscricao.html, e seguir o passo a passo. O mais importante, no entanto, não é criar uma escola, mas tentar participar de uma e, conseqüentemente, fazer amigos. Este intercâmbio é o principal porque é assim que quem vem para cá consegue aprender e, também, ensinar. Tem escolas que precisam de carnavalescos e intérpretes. Se você tem boas idéias para enredo, gosta de cantar ou desenhar, procure a nossa comunidade no Orkut, ou fale comigo pelo MSN Messenger (meu id é joaomarcos8762004@hotmail.com) ou pelo Yahoo (joaomarcos876@yahoo.com.br)

João Marcos deixe uma mensagem aos leitores do Tradição do Samba:

JM - Que todos vivam o carnaval o ano todo, seja real, seja virtual. Que amem não só a dança, a cerveja, as mulheres, mas, principalmente, que se interessem pelo lado artístico. O carnaval é a arte do povo. É a nossa arte, a nossa cara. Sempre busquem a arte. Exijam que ela esteja presente sempre. Para o pessoal que quer participar das escolas reais, não deixem se levar pelas politicagens e não busquem a fama pela fama. Revolucionem como o pessoal das comissões do Pamplona, que, de alunos, passaram a mestres. Não aceitem as sacanagens. Não sigam fórmulas. Busquem serem os melhores, mesmo que não sejam os vencedores. Divirtam-se, mas levem tudo a sério. Tudo gera uma conseqüência, uma marca na sua alma. Lembrem-se: água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E o furo é permanente. Que a vitória de vocês seja uma vitória de verdade. Só assim, ninguém tirará de você essa conquista.

Abraço a todos.

Em breve mais informes sobre o Carnaval Virtual!

Deixem seus comentários.

E todo carnaval tem sua quarta-feira…

16 de Fevereiro de 2008 @ 11:41 por Rafael Rezende

690322 5199 ga 1 - 690322 5199 ga 1
Mais um carnaval passou, e dá sempre certo desânimo quando passa esses dias tão intensos e esperados. Imaginar que virá mais um ano inteiro de expectativas dá uma preguiça… Mas acho que nós, apaixonados pelo carnaval, não sabemos fazer diferente. Enquanto fevereiro de 2009 não chega, a solução é repensar no carnaval que passou, e começar a imaginar o carnaval futuro. Sendo assim, nos próximos dias escreverei minha impressão sobre o carnaval 2008, e o pontapé inicial para os desfiles de 2009.

Sexta e sábado

Ainda que este site se preze mais a falar sobre o carnaval carioca, devem-se ressaltar alguns pontos do carnaval paulista.

O Sambódromo paulista é superior ao do Rio. Permite alegorias maiores, não tem o paredão de camarotes que há no Rio, as arquibancadas ficam mais próximas da avenida, o recuo da bateria é mais largo, facilitando a perigosa manobra de entrada no recuo, possui estacionamento para as alegorias, tanto na concentração quanto na dispersão, e as alegorias entram na avenida sem dificuldades, diferente do Rio, em que a curva para a entrada na avenida é sempre um perigo para as agremiações. O fator negativo é a iluminação do sambódromo paulista, que é muito clara.

Outro detalhe negativo do carnaval de São Paulo é o excesso de puxadores que passam os desfiles gritando coisas do tipo “tira o pé do chão”, numa influência direta do axé baiano. Definitivamente, samba é para sambar, e não para pular. E quem no Rio tem aderido à moda é Tinga, na Vila Isabel.

Houve uma boa evolução da estética. O Luxo, antes restrito à Império de Casa Verde, se espalhou por algumas escolas. Aconteceu uma melhoria geral na qualidade das fantasias, além de carros cada vez maiores e mais bem feitos. Considerando que ainda há escolas construindo alegorias debaixo da ponte, não poderia estar melhor.

As comissões de frente também melhoraram. Estão investindo mais na criatividade, em coreografias interessantes, substituindo assim a antiga mania de coreografias simples, e fantasias gratuitamente luxuosas.

Já os casais de mestre-sala e porta-bandeira ainda apresentam um excesso de luxo, deixando as fantasias pesadas, e gerando por conseqüência apresentações menos graciosas.

Para quem gosta de espetáculo, as baterias paulistanas têm proporcionado bons momentos. Elas fazem de tudo para contagiar o público: elementos que soltam fogos, fumaças coloridas, entram e logo em seguida saem do recuo, dividem-se ao meio para a passagem do casal de mestre-sala e porta-bandeira, formam a bandeira do Japão (Vila Maria), e outras tantas ousadas coreografias.

Quanto aos enredos, variou do céu ao inferno. Duas escolas pegaram um patrocínio e a porta do “inferno” ao falar sobre o sorvete, em tema bem fraco. Com isso, a Tucuruvi acabou em 12º, não sendo rebaixada por pouco, mas a Águia de Ouro não teve a mesma sorte, tendo que visitar o acesso em 2009, após a 13ª colocação. Prova de que nem todo patrocínio compensa.
Da outra ponta, a Vai-Vai se destacou com um enredo de crítica social, “VAI-VAI ACORDA BRASIL”, apontando a educação e arte como formas de solucionar os problemas sociais. O desfile ainda alertou para o cinismo dos políticos brasileiros, e suas promessas de campanha não cumpridas. Foi um enredo inteligente, criativo e com a crítica típica dos bons carnavais, e que não aparece mais no grupo especial do carnaval carioca já há algum tempo.

Outro ponto alto do desfile da Vai-Vai foi a empolgação da arquibancada, que criou uma coreografia com as bandeirinhas, formando uma bonita imagem. Foi de todo o carnaval, incluindo o carioca, o desfile que teve maior interação com a arquibancada. Aliás, geralmente os desfiles paulistas contam com maior reação do público, pelo ingresso ser mais barato, permitindo que pessoas que realmente acompanham o carnaval durante todo o ano estejam na avenida, enquanto o povão carioca se aglomera no Setor 0, no Viaduto, nas árvores da área de concentração das agremiações, para dar lugar aos turistas na avenida. São as pessoas que fazem o carnaval, mas não podem acompanhá-lo em seus dias de glória.

Por fim, deve-se lembrar também de Mocidade Alegre, Vila Maria e Rosas de Ouro que, junto com a campeã Vai-Vai, fizeram os melhores desfiles do ano. Entre essas quatro agremiações houve muito equilíbrio, todas com desfiles dignos de campeonato, e o resultado oficial confirmou o que se viu na avenida, já que elas preencheram as primeiras colocações.

O carnaval paulista cresce a passos largos, e agora com a construção da Cidade do Samba o evento dará mais um grande salto de qualidade.

Da Folia sou um Rei

2 de Fevereiro de 2008 @ 17:59 por Philip Nascimento

paulo barros - paulo barros

Em uma das temporadas de pré-carnaval mais conturbadas da história, fomos saracoteados pela Operação Furacão, entramos no inferno astral da Mangueira, passando ainda por Cartola e desembocando no Führer e no holocausto atroz, mas, entre mortos e feridos, o carnaval finalmente dobra a esquina e será lá na avenida o momento de as escolas superarem suas adversidades e espantarem os ratos e urubus de suas fantasias. É bem verdade que muito se questiona, após os últimos acontecimentos, a respeito da liberdade de expressão, todavia quem de fato vem sendo amordaçado constantemente é o povo, que perde sua importância dentro dos desfiles cada vez mais direcionados para outros fins. E certamente nada daquilo que é exposto aos olhos do mundo seria possível se não fossem os reais reis da folia, pessoas que dedicam parte de suas vidas em prol da cristalização de um sonho de poucos minutos… A plebe não se torna capa de revista, tampouco é procurada pelas câmeras ou pelos fotógrafos, mas nada do que se vê, ouve ou sente naquele palco coruscaria ou reluziria sem os pés, as mãos e a dedicação dos ferreiros, carpinteiros, pintores, aderecistas, escultores, compositores, enfim; pessoas que merecem todo o nosso respeito, o nosso samba no pé e a nossa reverência, pois são a verdadeira essência do carnaval em suas múltiplas origens,cores e crenças…

Bom Carnaval!

A Ditadura no Carnaval: Justiça proíbe Viradouro de Levar Carro do Holocausto para Avenida

31 de Janeiro de 2008 @ 14:02 por Ricardo Almeida

A atitude de entrar na justiça para proibir qualquer forma de expressão é repugnante e lamentável. Cercear a liberdade de expressão nos remete aos sombrios anos de ditadura, e mostra novamente a hipocrisia da sociedade em que vivemos. A dúvida que fica é se fossemos inverter a situação, e alguma escola de samba entrasse na justiça para proibir quem quer que seja de denegrir a imagem do carnaval, se algum juiz teria o mesmo posicionamento. Vamos falar a verdade: O holocausto foi retratado de forma cristalina e cruel no filme “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, e é considerado um clássico no cinema, aclamado pela crítica. Participaram inúmeros judeus deste filme. Como Paulo Barros, o intuito era causar impacto e mostrar todo o horror que aquelas pessoas viveram em razão de uma mente doentia para que, no futuro, não aconteça mais.

O que está em jogo é como abordar assuntos tão delicados. O fato de levar o holocausto para o carnaval de forma tão explícita com o pretexto de que causa arrepio é, sem dúvida, de um mau gosto e falta de sensibilidade sem precedentes, por se tratar de uma festa onde se misturam corpos seminus e batuques como forma de alegria.

Há na história do carnaval inúmeros enredos falando de colonização, astecas, índios, negros, escravidão e etc., que nenhum juiz proibiu. É bom lembrar e refrescar a memória de que aqui no Brasil, aldeias e povos indígenas inteiros foram dizimados do mapa. No México, os Incas e os Maias foram igualmente dizimados e roubados pelos espanhóis. Os negros africanos foram feitos escravos pelos portugueses em uma das mais cruéis atitudes na história da humanidade. Fatos históricos são o que não faltam para exemplificar que não somente o holocausto tem importância.

Mas torcíamos para que este carro fosse levado à avenida, mesmo sendo contrário a ele. A resposta que a Viradouro e seu carnavalesco teriam que ter seria a indignação e repúdio do público, a enxurrada de protestos e conseqüentemente notas compatíveis com o horror que é este carro. Teríamos então, democraticamente, a forma mais correta de se penalizar aqueles que acham que tudo podem em forma de arte.

Podemos então acreditar que a Viradouro, caso não obtenha uma boa colocação, use este fato como desculpa, o que, sem dúvida, é lamentável.

De cara, a escola irá perder pontos em alegorias e adereços, conjunto, harmonia e talvez enredo, porque obviamente estará faltando parte do contexto.

Estamos na quinta-feira, 31 de janeiro de 2008. Até domingo, quando a Viradouro se apresenta, podem ainda acontecer fatos novos, como a escola cassar esta liminar e colocar o carro no desfile. Não há mais o que fazer senão aguardar.

A disputa vai ser acirrada!!

30 de Janeiro de 2008 @ 16:15 por Ricardo Almeida

Então, foram-se os ensaios técnicos, e o que as escolas tinham para acertar e melhorar também. Agora é segurar a ansiedade e aguardar o desfile.

Depois que todas as escolas fizeram seus ensaios, dá para ter uma noção de como elas vão se portar, e quais as chances que tem. O dito popular fala que treino é treino, jogo é jogo. Mas não acredito que haverá grandes surpresas no resultado final, se nada sair errado. Acidentes acontecem e mudam o rumo da história.

Este ano, sem dúvida, é um dos anos mais concorridos, e arriscar um campeão seria loucura. Algumas se sobressaíram mais que outras, mas por muito pouco. As escolas estão cada vez mais organizadas e o resultado final agora é quem errar menos, leva. Baseado no que vimos, segue abaixo as impressões de cada escola:

- SÃO CLEMENTE

A simpática escola da Zona Sul mostrou em seus dois ensaios que não estava preparada para subir para o Grupo Especial. Faltam diretores de harmonia capazes de conter as alas, que se misturaram nos ensaios, canto fraco e samba idem. Não funcionou na avenida durante os ensaios e dificilmente irá acontecer. Em um enredo histórico, colocar gíria na letra do samba é dispensável, visto que a língua portuguesa é riquíssima e alternativa não falta. Tem na bateria seu ponto forte, mas só ela não resolve.

Tem a dura e incômoda missão de abrir os desfiles no domingo, e terá que se superar, esquecer os erros dos ensaios e fazer uma apresentação digna de quem está no grupo de elite do carnaval carioca.

- UNIDOS DO VIRADOURO

A escola de Niterói é uma incógnita para este carnaval. Com um enredo polêmico e subjetivo, o carnavalesco Paulo Barros pode com este desfile ir aos céus tão rápido quanto ir ao inferno. Fez um dos melhores ensaios da temporada, tem um chão excelente e uma bateria segura.

Mas esta mesma bateria está à procura de uma coisa que perdeu nos últimos anos que foi a unanimidade. Não obtém quatro notas dez há algum tempo e está em cheque. Como diz o regular samba da escola, o show da bateria alucina, sim, mas não os jurados. Então seria melhor dar show e obter a nota máxima.

Quanto ao enredo, é interessante, mas como disse, é muito subjetivo. O que te causa arrepio pode nem fazer cócegas em mim. E falar de holocausto em carnaval não me parece uma boa idéia. Em vez de causar arrepio, pode causar indignação. Mexer com uma tragédia tão recente na história é reviver um episódio que todos querem esquecer. Havia e há muitas outras coisas que causam arrepio.

Depois de passar por alguns problemas internos, como a saída de Dominguinhos do Estácio e do compositor com mais vitórias na história da escola, Gusttavo Clarão, e, mais recentemente ter seu presidente baleado, a escola parece ter assimilado bem e vem para tentar ficar entre os seis primeiros colocados.

- PORTELA

Não será surpresa nenhuma se a escola de Oswaldo Cruz e Madureira finalmente voltar ao grupo de elite das escolas de samba do grupo especial. Depois de carnavais sofríveis nos últimos anos, a Portela parece que desta vez vai fazer jus ao nome que tem na história do carnaval carioca.

Os ensaios foram corretíssimos, alegres e com cara de Portela. Tem, de longe, o melhor samba desta safra, com uma letra e melodia perfeita, além do enredo pertinente e atual.

A bateria de mestre Nilo Sérgio está dando aula de ritmo. Cadenciada e segura, com bossas e paradinhas de tirar o chapéu. Nilo confessou que está à procura de prêmios e obviamente de notas máximas, e parece que está no caminho certo.

Se a escola vir com o contingente que informou, ou seja, 4500 componentes, ela fará um bom desfile. O barracão da escola está bonito e as fantasias bem coloridas. Enfim, virá para tentar ficar entre as seis.

- MANGUEIRA

A escola mais querida do Rio de Janeiro, e não do planeta, como diz o intérprete Luizito, vem atraindo as atenções mais pelos negativos acontecimentos do que propriamente o carnaval. As confusões começaram já no desfile de 2007, com a estapafúrdia e incorreta decisão de negar que Beth Carvalho desfilasse pela escola. Seria o mesmo que negar que Dona Zica desfilasse pela escola há 20 anos, por exemplo. Depois desse, vários outros problemas surgiram inclusive policiais, e a escola perdeu o rumo da situação por um momento. Isso ficou claro nos dois primeiros ensaios técnicos, onde a escola se mostrou nitidamente sem direção. Mas conseguiu se levantar no terceiro ensaio e mostrar que tinha assimilado o golpe e deu a volta por cima.

Essa é a Mangueira que todos nós queremos ver. Valente, guerreira e imponente. Tem em sua comunidade seu ponto forte, além de sua bateria com seus surdos sem resposta. O samba, é verdade, não é nenhuma maravilha, tem um refrão de gosto duvidoso, mas levanta a avenida e funcionou no último ensaio. É isso que importa. Se os componentes estão cantando é meio caminho andado. O barracão está belíssimo e as fantasias um pouco pesadas a meu ver. Na apresentação das mesmas, cheguei a comentar com um companheiro que estava ao meu lado que tinha resplendores com quase 1,30 metros de largura. Então, temo que as alas tenham dificuldade em evoluir. Mas a composição geral está belíssima, na há duvida.

A Mangueira quando entra na avenida é capaz de mudar seu próprio rumo e nunca podemos dizer que ela não vem para disputar. Nestes últimos dias o astral na escola melhorou muito e pode ser um sinal de que podemos ter surpresas.

- SALGUEIRO

O Rio de Janeiro continua sendo. E o Salgueiro também. Depois de um injusto sétimo lugar no ano passado, a escola é outra que tenta voltar às primeiras colocações.

Fez bons ensaios, mas o canto só melhorou no último. A bateria está num ritmo muito acelerado e volto a questionar por que mestre Marcão colocou a ala de tamborins na cozinha, no final da bateria. O som fica abafado.

Tem um bom samba, com a cara da escola e um intérprete que não é uma unanimidade, que ainda apresenta problemas de dicção, mas sem dúvida, anima e levanta qualquer samba e quem estiver na avenida com seus cacos e sua agitação costumeira.

A escola investiu em mais alas da comunidade para melhorar o desempenho, já que é conhecida pelas alas comerciais que nada cantam e nada sabem. Não é uma crítica, mas uma constatação de quem já desfilou na escola por dois anos.

Com um bonito barracão e fantasias luxuosas, com mais alas de comunidade, deve fazer bonito no domingo de carnaval.

- PORTO DA PEDRA

A escola de São Gonçalo vai tentar mostrar pra todo mundo que está mais madura. Vem amargando colocações baixas, e em 2006 só não caiu por milagre. Em 2007 fez outro desfile sofrível e ficou na décima colocação.

Mas os ensaios mostraram que a escola ainda tem problemas quase que crônicos. Conjunto e evolução são os que mais preocupam. Em alguns momentos a escola se arrasta na avenida. O samba é bom, mas o canto da escola não se mostrou a contento nos ensaios. Além do canto regular, os componentes insistiram em bater palmas no refrão, recurso dispensável e que os jurados não vêem com bons olhos. Esta manifestação deve vir do público. O barracão está bonito, e conta bem o enredo sobre os 100 anos da imigração japonesa.

Acredito que fará um bom desfile, mas não me pareceu com espírito de brigar pelo título.

- MOCIDADE INDEPENDENTE

A verde e branca da Zona Oeste vem para tentar dar uma virada na sua história recente. Com carnavais sofríveis, vem amargando as últimas colocações ou intermediárias, que não retratam nem de longe a Mocidade dos anos 80 e 90.

Para isso, investiu na comunidade, chamou-a de volta e está em evidência novamente. A quadra vive lotada como há muito tempo não acontecia, e os ensaios de rua chegaram a atrair uma multidão de quase quinze mil pessoas. Os ensaios técnicos foram bons, mas apresentaram problemas de evolução e harmonia, além do canto que só melhorou no último.

Outra coisa que pareceu não estar bem encaixada é a paradinha que a bateria está fazendo no segundo refrão. Depois da palavra Guerreira, ela volta com tudo e o som embola um pouco. Talvez fosse melhor entrar como de costume, atrasando os tamborins e os chocalhos. É só uma opinião.

O samba, que está sendo considerado um dos melhores da safra, a meu ver é inconsistente principalmente em sua primeira parte. Sem dúvida é bonito, mas é preciso que funcione. Para isso, a escola conta com o intérprete Bruno Ribas, que deu um tom mais alto a ele.

Tem um dos maiores barracões, com carros imensos e bem acabados, e fantasias bem resolvidas, formando um belo conjunto.

A escola está se reestruturando e fazendo um trabalho em médio prazo, e a intenção este ano é ficar entre as seis.

- BEIJA-FLOR

Última campeã do carnaval, a escola vem para tentar o bicampeonato.

Não começou muito bem, com um ensaio técnico muito aquém de suas tradições. Tanto que fizeram um trabalho na quadra para melhorar o canto e acertar os problemas de evolução que surgiram naquele primeiro ensaio. Já no segundo e último, se apresentou de forma consistente, mas sem a mesma garra que nos acostumamos a ver e algumas alas se misturaram.

Tem uma comunidade forte e um chão fantástico. É escola de chegada e tem o dom de fazer bons desfiles. Ocupa a pista de desfile como poucas e normalmente vem bem. Suas fantasias este ano estão belíssimas, mas dão a impressão de pesadas, assim como as da Mangueira, e está com um barracão bonito. A escola também tem a característica de trazer grandes alas coreografadas, deixando o desfile mais teatral. Há quem goste, mas não sou muito entusiasta desta visão. É bonito, mas acho que tira um pouco da graça do desfile.

O samba é bom, mas lembra demais o do ano passado, inclusive em sua melodia. Se conseguíssemos cantar os dois juntos veríamos mais claramente esta peculiaridade. Tem um refrão forte e deve contagiar a Sapucaí.

- IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE

Mais uma agremiação que anda meio apagada e tenta se reerguer neste carnaval, depois do fiasco que foi o carnaval de 2007, aquele, do bacalhau.

A escola está passando por algumas reformulações, principalmente no que diz respeito às alas comerciais. Cortou se não me falhe a memória seis ou sete alas e enxugou o número de componentes. Neste caso, é uma decisão sensata e é melhor sair com menos componentes do que ter um monte de gringos que nem abrem a boca.

Com isso tudo, ainda apresentou problemas de canto nos ensaios e evolução. No último, a bateria também oscilou, não mantendo o andamento de forma linear. Vale ressaltar aqui que mestre Marcone é o mais jovem mestre de bateria do Grupo Especial, e tem o mérito de ter devolvido a cadência e a identidade dela.

Realmente o samba é bonito, alegre, que junto com o da Mocidade, é considerado um dos melhores. Mas perde sua força ao longo da avenida. Os componentes se mostraram cansados chegando ao setor sete. No último ensaio, acompanhei a escola até a apoteose e esse problema ficou mais evidente. O barracão está bonito e dentro do enredo, com carros pertinentes. O tamanho deles é pequeno e já demos esta explicação lá nas matérias sobre os barracões, e em nada diminui o trabalho.

Que vai fazer um desfile melhor que o ano passado, não tenha dúvida. Mas acho que ganhar o carnaval é pouco provável.

- UNIDOS DA TIJUCA

Com boas colocações nos últimos carnavais, a escola está sonhando alto. E tem razão em pensar assim.

Nos ensaios técnicos, fez apresentações dignas de quem quer o título. Alegre, compacta, evoluindo e cantando muito, apesar de o último ensaio não ter sido tão bom quanto os outros. Tem na comunidade seu ponto forte, e investiu este ano em três mil fantasias, deixando apenas dez alas comerciais.

Tem um samba excelente, que rendeu muito bem na avenida e certamente vai levantar o público com seu belo refrão, e seu barracão está muito bonito. A bateria está imprimindo um bom ritmo, e o intérprete Wantuir está em um de seus melhores momentos.

A expectativa é grande em relação a este desfile. Se fosse apostar em quem vai ganhar o carnaval, a Tijuca seria uma das minhas opções. Mas carnaval só se ganha na avenida. É preciso que a escola mostre tudo o que fez nos ensaios no dia oficial, para então termos a certeza de que definitivamente é uma escola de chegada.

- UNIDOS DE VILA ISABEL

Assim como a Tijuca, está sonhando alto e também tem razão.

Seus ensaios técnicos foram acima da média, e os da 28 de setembro têm atraído multidões. É uma das escolas que mais investe na sua comunidade e praticamente veste toda a escola. E cobra por isso. Cobra no sentido de que quem for desfilar tem a obrigação de ir aos ensaios de quadra e da 28, faz lista de chamada e não abre mão disso. Mostra com isso que cresceu e os componentes assimilam isso com naturalidade. Afinal, a maioria dos componentes é de Vila Isabel.

O samba, que foi duramente criticado por ser uma junção de dois sambas, conta bem o enredo e funcionou na avenida. O canto da Vila Isabel foi um dos melhores que vimos no ensaio, além de evolução e harmonia perfeitas. O barracão da Vila é outro que chama a atenção na Cidade do Samba. Carros imensos e bem acabados são um dos mais bonitos.

A bateria de mestre Mug, assim como a da Portela, é outra que dá aula de ritmo. A distribuição dos instrumentos permite que se ouçam perfeitamente cada um deles, sem exagero. Se você leitor, tiver oportunidade de ficar ao lado dela irá perceber a mesma coisa.

O intérprete Tinga é outro que está em um de seus melhores momentos. Firme e seguro, tem uma potente voz e levanta a escola.

- GRANDE RIO

A escola de Caxias e dos artistas está como diria na língua futebolística, batendo na trave. Este ano, mais uma vez, vem para brigar por título.

Tem um barracão com alegorias imponentes, apesar de parecer com informações demais. Mas, é a cara da escola.

Fez ensaios técnicos bons, e o último foi corretíssimo. Acertadamente, a escola deixou de trazer aquele camburão que chamam de carro de som e usou o oferecido pela Liga, e finalmente pode-se ouvir a potente voz do intérprete Wander Pires.

O samba não é divino, mas funciona, e os componentes cantam. Falando nisso, a Grande Rio também tem em sua comunidade um dos pontos altos. Eles são fiéis a escola e tem orgulho de dizer que são da Grande Rio, o que é louvável.

Mas, quem leva mesmo a escola nas costas é mestre Odilon e sua excepcional bateria. A gente percebe sua competência claramente porque há muito tempo a Grande Rio não tem um ótimo samba. Aparece cada “embrulho” difícil de abrir… Mas por vezes opera milagres. Está imprimindo um ritmo gostoso na casa das 72 bpm, e assim coloca a escola novamente entre as favoritas.

Estas foram a impressão que tive e nem de longe é uma previsão. Tirem suas próprias conclusões.

Posto isso, agora é aguardar. Como falei no início, o desfile desse ano é acirrado e tudo pode mudar de uma hora para outra.

Um bom carnaval a todos e que vença o melhor!!

VERGONHA!

14 de Janeiro de 2008 @ 10:54 por Ricardo Almeida

Caros Leitores,

Gostaria de começar este texto como sempre, com o conhecido Salve, Salve! Mas quero aqui me solidarizar com nossa classe e dizer que o momento é de profunda tristeza.

Pouco antes de começar a escrever o triste texto que segue, por volta das 10:30h, estava pensando se ia dormir ou não, pois, acreditem vocês, vida de quem trabalha com carnaval é meio ingrata. A gente trabalha na madruga para que você, leitor, acorde e tenha as informações atualizadas. E esta noite dormi apenas duas horas porque tinha um compromisso às sete da manhã.

Pois bem, no que abri minha caixa de email para ver as novidades, eis que recebo uma mensagem de um companheiro relatando um inacreditável fato: Um de nossos colegas de avenida, companheiro, amigo, profissional ao extremo, solicito, incapaz de dizer sequer uma palavra grosseira, fotógrafo profissional e largamente conhecido no mundo do samba, Diego Mendes, foi covardemente agredido pelos “seguranças” da Unidos do Viradouro.

Parece que estávamos adivinhando. Digo estávamos porque tenho o costume de sair da avenida assim que a bateria sai do segundo recuo, pois, repito, volto para casa para dar a você a notícia o quanto antes, e no caminho, encontrei um assessor de imprensa muito querido, e justamente comentamos o absurdo de como a dita segurança da escola se comportou naquela noite.

Presenciei o amigo Diego chegando esbaforido na avenida no final do ensaio da Mangueira, correndo feito louco da concentração para a dispersão, para ainda que poucas, tentar registrar as fotos que tanto ama e faz com prazer e ilustrar suas matérias em seu site (Setor1.com). Estava feliz, como sempre. E sua namorada e também repórter dedicada do carnaval Cássia Valadão, também estava presente. Estou sem palavras. Revoltado.

E não é hipocrisia, não. Eu, como todos os profissionais que ali vão para registrar a festa, também já sofri com esse tipo de comportamento, que é inadmissível. As escolas de samba se esqueceram de que quem as ilumina somos nós da imprensa. Sem nós, são meras estrelas cadentes, que perdem o brilho. Enchem suas quadras porque a imprensa especializada solta notas e mais notas que recebemos diariamente informando eventos, dia, hora, preço de ingresso, enfim, fazemos a nossa parte. E elas? O que fazem por nós. Nas escolhas dos sambas, teve escola de samba que não ofereceu sequer uma água sem gás, que seria o mínimo de gentileza. Outras, nem um local digno para podermos sentar nos oferecem. E é bom que se diga que nós não vamos lá para beber e comer de graça. E o companheiro Diego, na medida do possível, faz uma das melhores coberturas fotográfica do carnaval. Só para vocês entenderem a dedicação do amigo, ele vai para todos os cantos de ônibus ou trem, porque nem sempre a Cássia, que tem carro, está disponível. Também já andei muito de ônibus e trem, e ainda o faço, mas, vejam: andar com um equipamento nas costas que vale quase um carro é arriscar-se demais. Mas ele o faz, na sua humildade e por vezes inocência.

E na avenida, onde tudo poderia ser mais “light”, é pior. As escolas levam estes brucutus que sabe-se lá de que buraco saíram, para, sem medo de errar, atrapalhar o trabalho de quem está ali para promover a escola. Não tem um pingo de postura. Arrogância é a palavra de ordem. Nós; como bem disse a amiga Cássia em seu desabafo; é quem pagamos o pato pela invasão desenfreada de pessoas que nada tem a ver com o ensaio na pista de desfile. Estes seres não têm nenhuma orientação e não sabem distinguir uma banana de um abacaxi, quiçá os repórteres devidamente identificados, como exige a Liesa, dos invasores e bicões que povoam a pista. Então, juntam todo mundo em um mesmo saco e saem varrendo, como se fossemos lixo. Acham-se importantes e donos da verdade apenas porque usam uma camisa de qualquer agremiação. Vamos ao banheiro todo dia, não é mesmo? Somos iguais. E, mais ainda, como possuem somente dois neurônios, um morto e o outro capenga, usam a força como poder. Nós, diferentemente do que julgam, sabemos nos portar. E o amigo Diego, mais do que ninguém, sabe exatamente onde pode tirar uma foto, porque entende de carnaval. Nunca vi nenhum ato dele que desabonasse sua conduta.

Há que se colocar em cheque a necessidade de se registrar fotos destas pessoas ditas importantes. Ontem eu só registrei apenas uma foto da Juliana Paes, no momento em que a bateria entrou no segundo recuo, porque, como somente nós, profissionais do mundo do samba, sabemos que ela entra na frente da bateria e vai saudar o público que fica ali atrás. O resto da avenida e na concentração, deixo para os outros ridículos e mal educados “paparazzi” se estapearem entre si e com os seguranças.

Todos precisam saber destes fatos absurdos que acontecem na avenida. Já está mais do que na hora de termos o devido respeito. Respeito esse que temos a eles sejam presidente de escola, diretor ou até mesmo a estes anencéfalos seguranças.

Fica aqui minha pequena contribuição e solidariedade a um companheiro de trabalho que, volto a dizer, é muito querido, muito amigo, muito companheiro e, acima de tudo, um ser humano.

Hoje a Coisa Ficou Preta…

18 de Novembro de 2007 @ 00:36 por Philip Nascimento

Pirataria - Pirataria

Depois de terminada a fase de escolha dos hinos das escolas para o próximo carnaval o passo seguinte é aguardar o produto final das gravações chegar às lojas. Certo? Este seria o curso natural dos acontecimentos se não fosse um trambolho de cognome Internet. Com o rápido crescimento da tecnologia da informação observa-se que a propriedade intelectual acaba sendo afetada em virtude dos altos custos fixos e dos baixos custos marginais, principalmente este último fator. Trocando em miúdos, a informação torna-se cara para produzir, mas barata para reproduzir. Embora o CD dos sambas de enredo deste ano tenha sido produzido com uma velocidade similar a da luz – alguns intérpretes saíram prejudicados em virtude disso – há uma incorporação de valores que refletem no preço final, mas que, através do grande e articulado mecanismo de pirataria – algumas instituições ilícitas neste país funcionam com uma organização de dar inveja – estes insumos acabam sendo anulados pela facilidade no que diz respeito à disponibilidade e aos aspectos financeiros com que são reproduzidos. Certamente quando o produto original das escolas de samba estiver disponível no mercado, para algumas pessoas ele já estará cheirando a mofo tamanha a velocidade com que as informações são disseminadas na rede mundial de computadores. A informação digital pode ser copiada com perfeição e transmitida instantaneamente em volta do mundo, o que leva muitos produtores de conteúdo a visualizar a Internet como uma copiadora gigantesca e fora de controle. Um caminho sem volta. Um reflexo direto da democratização da informação. Mas, como ira dizendo: E você, vai dar de presente de amigo oculto nesse Natal um CD com a bela interpretação de Luizinho Andanças da loja ou do camelô? Cuidado com a resposta, pois nesse país forasteiro até a vaca, lá no brejo, dá leite com Soda Cáustica. Coisas que só o capitalismo faz por você. Como bem cantou a Imperatriz: “Nem todo pirata tem perna de pau, olho de vidro e a cara de mau”. Se Lavoisier com sua Lei de Conservação das Massas determinou que na Natureza nada se cria, tudo se transforma, Chacrinha, Imperador do caos, determinou que nada se cria, tudo se copia.

Segurem a Copyright…

O Fábio, As Fitas e o Futuro

2 de Novembro de 2007 @ 23:13 por Philip Nascimento

rocinha - rocinha

Uma grande interrogação teima em nos aterrorizar quando pensamos no futuro do carnaval e em sua renovação, no que diz respeito aos profissionais. Será que podemos dormir tranqüilos acreditando nesta grande oxigenação que está por vir? Ou ela já veio e nem notamos? A história do carnaval está repleta de ciclos, e todos eles deixaram as suas parcelas de contribuição para a atual conjuntura. E foram várias. Vimos o Salgueiro de Pamplona, a Beija-Flor de Joãozinho, a Mocidade de Fernando Pinto, a Imperatriz de Rosa Magalhães. Alguns mestres, outros discípulos, mas o fato em comum é que a peteca nunca caiu. Mas agora o futuro bate nossa porta perplexo a nos indagar “E agora Jose?” A evolução trouxe consigo o incremento, a inserção de novos códigos e linguagens, que transportam o carnaval para uma nova forma de comunicação. O grande desafio é respeitar o contexto e a base de samba, que deve ser a plataforma que difere o nosso carnaval de qualquer outro evento mundo afora. Estamos presenciando um novo leque de profissionais “no mercado” esboçando novas diretrizes. Vendo os trabalhos de figurino desenvolvidos por Fábio Ricardo na Rocinha tenho a ligeira impressão de que aquela grande interrogação que mencionei no início de nossa conversa diminuiu suas dimensões. O carnavalesco, em seu primeiro trabalho solo, foi de uma competência inenarrável na realização de suas criativas fantasias, que já considero uma das melhores do Grupo Especial. Especial? São do Grupo de Acesso, é verdade, mas isso é apenas um detalhe…A forma como Fábio trabalhou as fitas neste enredo, que tem tudo a ver com fitas, é formidável. Nem Rosa Magalhães nem Max Lopes; no próximo carnaval as fitas são de Fábio Ricardo. Viva as Fitas!

Carnaval Slim…

31 de Outubro de 2007 @ 23:14 por Philip Nascimento

ninio compacto - ninio compacto

Estava dando uma pesquisada básica neste mundo sem fronteiras chamado Internet, quando me deparo com um “fuzuê”, um “arranca-rabo” a respeito da diminuição das escolas de samba. Como assim, senhores? Parem o mundo que eu quero descer! Seria este o processo de desenvolvimento tecnológico das escolas de samba Slim e Wi-Fi? Fazendo uma rápida e válida analogia com nossa folia de todo fevereiro-março, quanto mais compactas são estas engenhocas tecnológicas que são lançadas no mercado, mas caras se tornam, e no carnaval certamente aconteceria algo do gênero, pois haveria uma elitização ainda maior com a compactação de um desfile. Não precisamos disso. Os problemas e mazelas que hoje observamos no carnaval carioca não serão resolvidos com medidas paliativas, cujo resultado pode ser ainda mais caótico e que, a princípio, só favorecem aos telespectadores e anunciantes da Rede Globo, enquanto a comunidade e o povo continuariam a comer brioches de Maria Antonieta… O que se deseja é um carnaval mais popular ou somente um passatempo entre as propagandas Globais? O carnaval deve curvar-se definitivamente ao minúsculo tempo da TV? Ademais, o constante e desnecessário rebuscamento dos enredos das escolas de samba e, por conseguinte, de seus sambas estão, sobretudo, inteiramente relacionados com os investimentos externos mal gerenciados pelas mesmas, e não com seus respectivos contingentes. Se o enredo sobre a “Formiga Albina da Patagônia” não proporciona o lirismo, a paixão e a emoção necessária em um desfile de escola de samba o problema está tão somente nas escolhas que são feitas a fim de adequar-se da melhor – que na verdade é a pior – forma possível ao sistema altamente oneroso. A diminuição do tamanho das escolas de samba só catalisaria ainda mais este cataclismo.