Pra tudo não se acabar na quarta-feira, parte 2 - análise do sábado de carnaval

30 de Março de 2009 @ 04:18 por Rafael Rezende

Continuando com as análises do carnaval 2009, e agora de uma forma mais séria, vou descrever minhas impressões sobre o sábado de carnaval, quando desfilaram as escolas do Grupo de Acesso A. É bom dizer que assisti aos desfiles no setor 3, então minha visão dos desfiles é mais especificamente o início da avenida.

SÃO CLEMENTE

rafa rio 2009 040 - rafa rio 2009 040

- O desfile atrasou cerca de 40 minutos para começar. Não sei se prejudicou a São Clemente, mas em se tratando de uma noite em que desfilaria 10 escolas, o atraso acaba tornando a madrugada mais cansativa.

- A São Clemente passou bem na avenida, sem grandes erros. No entanto, ficou nítido que faltou algo a mais pra ela disputar a única vaga para o grupo especial. O samba é bom, o enredo bem interessante. Como de costume, o trabalho do Mauro Quintaes foi correto, mas nada muito especial. Foi um desfile morno, ficou a sensação de que ficaria nas posições intermediárias, fora das três primeiras e das três últimas colocações.

ESTÁCIO DE SÁ

rafa rio 2009 050 - rafa rio 2009 050

- Quando o abre-alas do Estácio apontou na avenida, ninguém teve a mínima dúvida de que viria uma forte favorita ao título. A suntuosa alegoria encheu os olhos e causou uma ótima impressão. Era a senha para um ótimo desfile.

- Estácio e Ilha foram as duas escolas da noite a terem ótima receptividade do público, e gritos de “É Campeã”. Claro que a tradição e grande torcida destas duas escolas colaborou, mas certamente a qualidade da apresentação foi decisiva para o entusiasmo do público, que se empolgou, sobretudo, durante a passagem da bateria.

- O samba não era dos melhores, o enredo é bastante interessante. Destaque para Cid Carvalho, que fez seu melhor desfile fora da Beija-Flor. Talvez Cid tenha atingido a maturidade profissional, e que ele mantenha a qualidade neste retorno ao grupo especial (espero que a Mocidade lhe dê estrutura para isso). Desfilando no final da escola, Cid passou empolgado e emocionado com o sucesso do desfile e a receptividade do público que o aplaudiu.

- É quase um consenso que o desfile da Estácio não refletiu o 5º lugar que a escola obteve, o que justifica as críticas que a escola fez do julgamento na mídia.

INOCENTES DE BELFORD ROXO

rafa rio 2009 107 - rafa rio 2009 107

- Por mais que mereça, e isso não está em julgamento, acho que homenagear um político pode gerar um desfile um tanto sisudo, até porque a profissão, por mais importante que seja, não tem boa fama no Brasil.
- A escola tinha um bom samba, mas não concordei com a premiação do Estandarte de Ouro. Particularmente, acho que o samba da Renascer merecia o prêmio de melhor do ano no acesso A.
- A escola não desfilou bem. Muitas baianas chegaram atrasadas, fazendo com que a ala desfilasse partida, e mesmo assim não havia o número mínimo exigido pelo regulamento da Lesga (60 baianas). Como o regulamento foi devidamente jogado no lixo este ano, a escola nem sofreu esta penalização. Saiu da avenida deixando a idéia de que seria uma forte candidato ao rebaixamento, caso ele existisse.
- A estética da escola foi uma das piores da noite. Faltou dinheiro, mas faltou também um bom trabalho do Fran-Sérgio, carnavalesco que será mais feliz se não sair da equipe da Beija-Flor, a não ser que melhore em seu próximo desfile “solo”.

PARAÍSO DO TUIUTI

rafa rio 2009 111 - rafa rio 2009 111

- Tuiuti foi outra escola que não teve um bom desfile. Seu enredo sobre o Cassino da Urca gerou um samba razoável, um desfile esteticamente fraco, mas sem grandes problemas. Uma apresentação pra deixar a escola na beira do rebaixamento.
- Foi no desfile da Tuiuti em que ocorreu a primeira aparição apoteótica do “cachorro sambista”. Aliás, conforme o que foi mostrado no programa Fantástico, o cachorro saiu de São Cristóvão. Olha que beleza, um cachorro da comunidade do Tuiuti! Está comprovado que a comunidade, se precisar, até late pela Tuiuti.

IMPÉRIO DA TIJUCA

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- O Império da Tijuca fez um desfile agradável. A escola reeditou o belo samba “O Mundo de Barro de Mestre Vitalino”, de 1977, o que já era por si só garantia de um desfile agradável.
- Fábyo Santos, carnavalesco, realizou um trabalho interessante. Apesar da visível falta de dinheiro ter provocado um desfile bem simples e com acabamento deficiente, de forma geral predominou o bom gosto.
- No conjunto da obra, um desfile para ficar nas posições intermediárias.

obs: em breve, publicarei minha opinião sobre as 5 agremiações restantes.

Pra tudo não se acabar na quarta-feira - versão 2009

7 de Março de 2009 @ 21:50 por Rafael Rezende

rafa rio 2009 6882 1 - rafa rio 2009 6882 1

Que quarta-feira que nada! Carnaval esquenta mesmo é agora, com todas as polêmicas, trocas, os vexames dos desfiles, os boatos fundados e infundados, as notas esquisitas, e tudo mais que acontece nesta época pós-carnaval, uma espécie de reveillon demorado, que a gente não sabe se está num ano ou em outro (no caso, a transição de 2009 pra 2010). Em breve, quando esquecermos os desfiles de 2009, perceberemos que já chegamos em 2010 antes de todos os outros brasileiros. Mas enquanto isso não acontece, vou aproveitar pra esquentar e requentar o que ocorreu e ainda está acontecendo nestes dias de êxtase, e a atual ressaca carnavalesca.

1-Como o Império reeditou um samba-enredo, me sinto no direito de reeditar um comentário meu, escrito após o carnaval 2008:

“Um turista pela primeira vez em um desfile de escolas de samba teria ficado mais à vontade do que ficou a Betty Lago no desfile da Grande Rio. Um jurado de harmonia e evolução deveria ter retirado um décimo só por causa dessa catástrofe carnavalesca. Aconselho a direção da escola a colocá-la no próximo ano em um queijo apertado, a uns oito metros de altura, para disfarçar a atriz desengonçada.”
E não é que a Grande Rio colocou a mulher no alto do carro?! Olorum, depois de mandar buscar na mata o biocombustível, ouviu minhas preces.

2- O técnico da seleção de vôlei, Bernardinho, já entrou em contato com o carnavalesco Paulo Barros. Bernardinho quer seus atletas participando de uma das coreografias de Barros para o carnaval 2010, afinal subir e descer alegoria um desfile inteiro é um teste de resistência física excelente. Depois disso, jogar vôlei será moleza. Outro ponto de interesse entre técnico e carnavalesco é que nenhum dos dois quer que seus trabalhos acabem em samba.

3- Os jurados acharam justo dar uma chance para a Mangueira apresentar suas alegorias ainda no carnaval 2009, e por isso a colocaram no sábado das campeãs. Infelizmente, talvez fique para 2010 a proposta de apresentar as alegorias do carnaval 2009.

4- O empurrão que Rosa Magalhães ganhou na época do contestável tricampeonato de algum folião revoltado anda surtindo efeito. Pode-se deduzir, analisando o carro “Liberdade, Liberdade”, que a carnavalesca bateu a cabeça na queda.

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__O carnavalesco Cebola transformou o símbolo da Mocidade em um relógio, para representar as “páginas do tempo” no enredo. A grande surpresa era quando saia de lá de dentro Marcela Vianna, berrrando “cuco,cuco” pela avenida.

5- Receita do dia: pegue o Cebola e esprema embaixo da alegoria, que deve estar devidamente pegando fogo para que fique na temperatura ideal. Pena que faltou um tomate pra completar o tempero…

6- Falando em Mocidade, o importante é que, por pior que esteja a escola, há um nome que jamais errou e jamais errará: Paulo Vianna. A culpa deste fracasso todo é do bombeiro que estava tentando salvar a filha dele, do carnavalesco, dos jurados, do Papai Noel, da mula-sem-cabeça, da Madonna e, não resta dúvidas, do chupa-cabra. Mas Vianna sempre estará por lá para nos salvar.

7- “Vão ter que me engolir”- czar Paulo Vianna
O ministério da saúde adverte: tentar engolir Paulo Vianna pode causar má digestão, azia, fortes dores no estômago, úlcera, câncer, diabetes, tuberculose, hepatite A B C D E e Z, desânimo, frustração, depressão, rebaixamento, afastamento e Unidos de Padre Miguel.

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__componente da Mocidade após desfile

8- Nunca podemos esquecer da antológica frase do Capitão Guimarães: quer samba, vai para o acesso. O Império não perdeu a dica e foi rapidinho!

9- Bom era o tempo em que só tinha bicheiro mandando no carnaval. Agora tem o tráfico metendo o bedelho em algumas escolas… deu no que deu.

10- Beija-Flor fazendo carnaval: nesta ala, o banho de sol é representado por plumas; na ala seguinte, o bando de lua também é representado por plumas; o banho no Egito, o perfume francês, o renascimento, a idade média, o banho religioso e tudo mais que se viu na escola também foram representados com plumas. O que se viu, na verdade, foi um banho de plumas.

11- A Grande Rio apresentou a comissão de frente mais original do ano, intitulada “A queda de Luís XIV”. Em dado momento da coreografia, o componente que representava o Rei Sol despencava de 4 metros de altura para representar o momento em que foi destronado.

12- Dizem as más línguas que a água que a Beija-Flor jogou de sua última alegoria na avenida o Laíla tinha “batizado”. Depois que aquela água foi despejada na avenida todas as escolas tiveram problemas, até o Salgueiro quase perdeu o título com os problemas ocorridos com suas alegorias.

13- Gosto da Quitéria Chagas porque além de colocar fogo na avenida, põe fogo no pós-carnaval também, escrevendo um texto em que deu a entender que figura(s) importante(s) da Portela queriam ver o Império no acesso para que apenas uma agremiação brilhasse pelas bandas de Madureira. Aliás, diga-se de passagem, e pela primeira vez neste texto sem nenhuma ironia, isto que é rainha de bateria.

14- Os carnavalescos do carnaval devem ter entrado em profunda depressão após o carnaval. Neste exato momento, devem estar se perguntando: porque eu não consigo ser tão bom quanto o Renato Lage? Porque eu preciso de tanta pluma pra fazer uma boa fantasia, enquanto o Fábio Ricardo, da Rocinha, fez um conjunto de fantasias super leves, de bom gosto, belíssimas, criativas, de fácil compreensão, sem em nenhum momento apelar para o luxo gratuito??? Eis o mistério da fé. Remoam-se carnavalescos, eles conseguiram!

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__Grande Rio apresentou uma criativa alegoria, que representava o sonho de Michael Jackson de se tornar azul

15- Max Lopes achou que estava na Mangueira, e mandou ver no tamanho das alegorias da Porto da Pedra. Acontece que a escola não conseguia manobrar nem carrinho de picolé, quem diria os grandes carros. Por falar nos acoplados, está pra lá de batida essa tática de usar 200 tripés só para poder encher a boca e dizer em alto e bom som: o meu abre-alas tem 60 metros ou, como diz o Milton Cunha, o meu pinto é maior!

16- Num universo de tantas cadelas abanando o rabo, quem roubou a cena foi o cachorro vira-lata que perambulou pelos dias de desfile. Enquanto a corte do Momo evitava a fadiga, o cachorro desfilou por várias escolas. Chegou a ser aclamado pelo setor 3 no sábado, que gritou em coro o original “cachorro, cachorro”. Aproveitando o assunto, tem rainha de bateria que se pudesse desfilar de costas para facilitar os ângulos dos fotógrafos, desfilava.

17- Valeska Popozuda, enquanto rainha de uma bateria de escola de samba, dança funk muito bem. Já Nathália Guimarães, enquanto rainha de bateria, é uma excelente Miss Brasil. Como diz a profunda canção, e também o Laíla aos seus componentes, cada um no seu quadrado…

Wander Pires, Bruno Ribas e a paz no samba

11 de Fevereiro de 2009 @ 00:14 por Rafael Rezende

montagem interpretes2 1 - montagem interpretes2 1

Para quem achava que a briga de egos existia apenas entre os carnavalescos, Wander Pires e Bruno Ribas protagonizaram um barraco, que pelo visto ainda terá muitos epsódios, inclusive na justiça. Wander acusou Bruno de apontar uma pistola para ele e ameaçá-lo de morte.

Lembrei-me que há uns dois anos, foi noticiado que o Bruno Ribas sofreu ameaças do Anísio. Já o Wander, melhor nem comentar as desestabilidades dele no carnaval. Resta saber como os dois se aguentarão em tantos eventos que participarão juntos.

Assim como no esporte, é muito feio quando se vê um atleta, exemplo de saúde, utilizando drogas, eu acho vergonhoso quando vejo estes exemplos de violência envolvendo o carnaval. Tá ok que as escolas cresceram em volta de comunidades que convivem com a violência, patronos nem sempre tão generosos, e até mesmo traficantes. Mas ainda assim o samba não deixa de ser um meio de socialização, uma via de união entre torcedores e membros da comunidade, de confraternização, um local produção cultural, de entretenimento e desenvolvimento social. As torcidas do samba sempre foram mais respeitosas do que, por exemplo, as torcidas de futebol. Por mais que haja com frequência trocas de farpas e algumas provocações, no carnaval sempre prevaleceu o respeito. E acredito que há valores morais impregnados no gênero samba, e por consequência nas escolas.

Por isso seria de bom tom que as “estrelas” Bruno Ribas e Wander Pires se comportem e aprendam a se aturar. O mesmo vale para os seguranças da Mocidade que há poucas semanas espancaram um cidadão, e outros casos do tipo. Ameaças de morte não combinam com a alegria do samba, um gênero musical que acredito possuir a função de melhorar a situação na turbulenta cidade maravilhosa.

Se por um acaso os dois intérpretes não têm respeito para com suas próprias vidas, ou com as vidas alheias, que façam o favor de respeitar o solo sagrado do samba por onde eles pisam.

A Raposa Toma Conta do Galinheiro…

2 de Fevereiro de 2009 @ 03:03 por Philip Nascimento

raposa - raposa

Hoje a descrença parece ser a palavra que melhor representa a relação entre a sociedade e as diversas instituições que a representa, sejam elas de caráter político, econômico, social e, por conseguinte, cultural. Nesta perspectiva, nada mais comum a descrença nas instituições como reflexos do hiato existente entre uma base da pirâmide cada vez mais alheia ao carnaval, movimento cultural que fora calcificado por ela própria, e um topo despótico e nebuloso em seu ato de prestar contas de forma responsável, o que, inevitavelmente, torna-se fato gerador de constantes questionamentos, abrindo margem para o completo descrédito da sociedade para com o conjunto de estruturas sociais estabelecidas.

E não é isso que se faz presente no carnaval? Como se a incerteza quanto ao futuro de uma festa que segue atropelando costumes vitais não fosse suficiente, tem-se ainda a desconfiança no presente, e em seus métodos turvos de tentar mensurar o que é subjetivo na essência, mas que deveria, mesmo assim, ser regado por um posicionamento ético diante do objeto avaliado, no caso os quesitos que formam um desfile, sempre matrizes de infindáveis descontentamentos após a quarta-feira. Sim, julgar uma expressão artística é uma tarefa de trado difícil, ainda mais quando se tem dispostos na passarela do samba elementos artísticos diversos, como a música, a dança, as artes plásticas e toda uma mescla de elementos que compõem um desfile de escola de samba. Todavia, asneiras ou decisões incoerentes no ato de julgar não podem ser cometidas tomando como escudo único e exclusivo a justificativa da subjetividade quando se tem outra importante aliada, a ética profissional, necessária quando se almeja transmitir essa tal credibilidade em falta no julgamento das escolas de samba. De fato, não há como importar para estas terras jurados alienígenas, que não tenham contato algum com os profissionais envolvidos nas escolas, logo, a ética, mais do que nunca,faz-se necessária para que haja o distanciamento.

A bomba com natureza de festim lançada esta semana sobre o possível jogo de cartas marcadas como mecanismo de favorecimento no carnaval, antes de atuar como semeadora de dúvidas (a intenção aqui não é divagar sobre a validade das denuncias vindas do além) vem evidenciar/constatar a completa descrença da sociedade na instituição gerenciadora da festa. A cartinha que vem lançar suspeitas sobre a lisura do julgamento só ganha atenção e ares de bomba porque este reino,desde que samba é samba, vive embebido no mais puro descrédito, já que fora erguido, em meados dos anos 80, pelas mãos de senhores feudais e seus rituais de suserania e vassalagem, responsáveis únicos pela completa descrença presente na atual conjuntura, terreno fértil para especulações. O grupo clã que lá atrás edificou as bases do carnaval contemporâneo e o transformou em uma representação do próprio umbigo é o mesmo que ainda faz a fama e deita na cama, logo, não será uma cartinha a responsável por uma espécie de momento de epifania, em que finalmente se descobriria que o carnaval não é tão “mundo de algodão doce” assim, pois, de fato, nunca foi.

Ora, o fato é que a raposa sempre tomou conta deste galinheiro e criticar os critérios de julgamento sem atentar para esta espinha dorsal da problemática é como a ineficaz missão de enxugar gelo. Se a instituição que se diz mantedora do “ordem e progresso” no carnaval se mostrasse translúcida em suas ações, como, por exemplo, não se fechando em copas, promovendo um diálogo com imprensa e público de uma forma geral e, sobretudo, colocasse o ego abaixo das bases do samba, cartinhas misteriosas não ganhariam proporções descomunais, tampouco manchariam sua imagem perante a já descrente sociedade.

O Rei Sol da Corte Caxiense

20 de Janeiro de 2009 @ 02:43 por Philip Nascimento

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Quem quer um rei absolutista?
Acima das leis consuetudinárias, acreditando ser o Estado e o responsável único pelos rumos da escola de Caxias, bem como de sua comunidade, entra em cena – como tantos outros monarcas deste reino assim fizeram - o Rei Sol bordado em ouro da corte caxiense, tirando de seu povo o inconteste título de astro-rei da festa e fazendo valer o mais puro absolutismo sobre o chão do mundo contemporâneo e, não obstante, sobre o palco do samba. Chá com brioches era a que se assemelhava o encontro da corte deslumbrada que definiu o tema da Grande Rio para o próximo carnaval: enredo sobre um camarote, devidamente maquiado de modo parecer um romântico baile de máscaras, com pierrôs, arlequins e colombinas tentando camuflar a cruel e nada animadora realidade, ou, se assim preferir, “Da arquibancada ao camarote nº 1, 25 anos da folia no palco da fantasia”.

Nada mais comum em tempos de extrema vaidade e egocentrismo, em que pisar na avenida poderosa e bordada em ouro, embalada pela alegoria colossal e pela fantasia enterrada em faisões indicativos de status vem sendo a grande motivação dos dirigentes das escolas, reis absolutistas coroados pelo próprio sistema. Não obstante, tudo isso parece estar acima da comunhão entre o samba, as escolas e sua própria gente. Como tantas outras, - sim, não adianta apedrejar somente a jovem tricolor e fechar os olhos para o contexto em que ela está inserida -, foi desta forma que a Grande Rio da Era dos Felipes, de Prestes, Chateaubriand e do Profeta Gentileza se transformou rapidamente na escola do Moça e do Ninho, do Coari e do Camarote.

Com efeito, diante de culturas de desfile impostas de cima para baixo, muitas delas incompatíveis, o povo caxiense, - que, embora muitos prefiram não enxergar, tem, sim, uma história, por mais sutil que esta seja se comparada ao panteão de escolas responsáveis pelos ricos pergaminhos do carnaval -, termina alijado de sua própria escola, sendo tão somente o carregador, na avenida, de fardos que jamais desejou e, sobretudo, rebaixado de astro-rei de outrora ao simples status de meio pelo qual se chega ao árido fim, sendo completamente ignorado enquanto se exalta Gisele Bündchen, a madrinha do camarote, bem como artistas, rainhas de bateria e todo o império do swarovski. De fato, muitas máscaras e uma força-tarefa descomunal serão necessárias para transformar em bela viola este pão que já nasce bolorento e que vem se juntar a Poços de Caldas, Bacalhaus, Macapabas, Coaris e, assim, ajudar a compor o circo de horrores do carnaval carioca.

A Favorita

13 de Janeiro de 2009 @ 12:32 por Philip Nascimento

A Favorita 3 - A Favorita 3

Cheiro de carnaval saindo do forno…
Cheiro bom ou ruim? Para evitar maiores transtornos, pulemos esta parte, é melhor, afinal, o carnaval já dobra a esquina mesmo, já estamos de olho na telinha mendigando, entre uma maldade e outra da Flora, os míseros segundos da vinheta-pílula que vez por outra passa, - acabando antes mesmo de termos chagado à sala para dar uma olhadinha,é verdade - e, claro, sempre curiando os ensaios técnicos e os barracões a procura das alegorias chiques e quilométricas que andam prometendo. Resumindo, estamos a procura das favoritas e perfeitas de 2009.

Desta forma, surge a primeira indagação: é possível monopolizar a perfeição? Acredito que não. Aliás, seria uma tarefa inglória tentar monopolizar algo que não existe, ainda mais em um universo (entrópico?) como o do carnaval. Entretanto, é bem verdade que o momento da festa vai se aproximando e, tão logo, tratamos de procurá-las e elucidá-las, as perfeitas e virgens imaculadas. De minha parte, entretanto, venho cá nestas linhas não procurar uma favorita, - até porque prefiro a Flora -, mas conversar um pouco sobre essa história de favoritismo prematuro que vez por outra nos ataca sem dó nem piedade. Mas, antes, a pergunta basilar: o que é, no reino do carnaval, uma escola favorita? Sem titubear, respondemos: “Ora, é a escola que tem o barracão mais adiantado lá na Cidade do Samba e, lógico, a que rasgou o chão (rasgou o chão, comeu o asfalto, desfilou com a faca nos dentes ou qualquer outro clichê do gênero) nos ensaios técnicos”. Logo, o ensaio técnico e o barracão acabam sendo a medida de todas as coisas, o “ensaiônomo” e o “barracrônomo” coroam as eleitas.

Ano passado, dias antes de o carnaval chegar às vias de fato, comentava lá na adormecida Coluna Carnavalizando do site Tradição do Samba, a respeito das escolas que entram na avenida campeãs e das que saem da avenida campeãs, sublinhando a importância de só se sacramentar uma opinião mais cristalina a respeito dos favoritismos com o acender das luzes do grande palco, como segue o trecho da antiga coluna:

“Faltando poucos dias para o carnaval dar o ar de sua graça na avenida o quesito barracão tem servido de mote para muitas discussões e especulações características deste período onde a ansiedade beira o pico do Monte Everest. Ao que parece, o julgamento das escolas começa antes mesmo de as mesmas adentrem a avenida e isso de certa forma não deixa de ser uma conseqüência da grande valorização ou da redução do carnaval aos aspectos plásticos, que são, sem sombra de dúvidas, os principais responsáveis pelo encarecimento dos desfiles das escolas de samba e da canalização das atenções por parte das escolas no sentido de atender a esta necessidade tão latente, nem que para isso seja necessária a busca - até na mais longínqua e exótica aldeia perdida no meio do mapa - por investimentos capazes de torná-las mais competitivas, porém menos livres.

Todavia, nesse universo, onde competição pouca é bobagem, onde “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, como um dia já disse Vinícius de Moraes, o que é feio e o que é bonito? E está armada a grande confusão carnavalística! Um indivíduo que vai à Cidade do Samba procurando Tarsila do Amaral e encontra Jean-Baptiste Debret certamente voltará copiosamente decepcionado. Mas como classificar a arte carnavalesca, ou qualquer expressão artística, tomando como plataforma os aspectos plásticos se estes são cravejados de subjetividade? Julgar uma expressão artística é uma tarefa que requer muita cautela; ainda mais quando o julgamento parte de uma obra inacabada, como as que estão expostas na Cidade do Samba e que só poderão ser de fato observadas em toda a sua plenitude no dia da apresentação com todas as luzes e composições cênicas (…). A história conta que é bem melhor sair campeã do que entrar campeã” .

Pausa na transcrição para algumas observações. O que disse na coluna dias antes do carnaval acabou se concretizando, já que nele vimos fatos que se chocaram com as profecias do barracão, como, por exemplo, a Portela, que era a eterna atrasada (línguas foram mordidas, inclusive) e, no entanto, fez bonito na apresentação oficial, ao passo que outras belíssimas, afortunadas e adiantadas escolas do high society – sim, estou falando da belíssima Vila Isabel – sequer beliscaram uma vaga no desfile das campeãs. No caso dos ensaios, alguém lembra do ensaio-arrasa-quarteirão que a Viradouro fez ano passado? Assim sendo, tanto o barracão da Portela quanto o ensaio da Viradouro provaram que o jogo (o jogo) só termina quando acaba (lê-se quando os jurados decidem) e de que é bem melhor sair da avenida campeã do que entrar campeã, como já se viu em tantos outros momentos da história do carnaval carioca. Quem não lembra da suntuosidade da Imperatriz em 96, que lutava pelo tricampeonato e foi destronada pela Mocidade? E da própria Mocidade, por sua vez, que entrou na avenida, em 93, com um salto plataforma – Castor achando que tinha sido injustiçado no ano anterior e, portanto, mordido - e foi tragado por um Ita arrebatador? Logo, apontar favoritismo é um convite ao equivoco, mesmo que hoje a Beija-Flor seja favorita até pra ganhar aquele bingo de quermesse que está havendo logo ali na pracinha…

Falando em Beija-Flor, surge um importante ponto, o critério de julgamento dos desfiles, que sempre nos deixa com uma tremenda pulga atrás da orelha. Como pincelei lá nas primeiras linhas, a Beija-Flor atualmente parece possuir o monopólio da perfeição - está “além das estrelas, no monte de Zeus, horizonte de meu Deus” - não porque de fato o tenha, logicamente, mas pela crosta que se cria em torno de sua marca, que, de fato, possui uma estrutura exemplar, sendo uma referência quando se fala em preservação do chão. Com efeito, o impressionante e inigualável canto parece abafar todo e qualquer problema que por ventura venha a surgir nos demais quesitos. E de fato isso é compreensível, pois o engajamento do componente calcifica o conjunto. Todavia, este tal conjunto fortalecido será a medida de todas as coisas? Partindo desse pressuposto, e guardados os devidos exageros deste que vos fala, uma escola que adentrar o grande palco da Sapucaí, rasgando o chão e cantando a plenos pulmões o clássico “Beijinho Doce”, imortalizado por Flora e Donatela, será perdoada por todos os pontos falhos no que compreende a qualidade da letra e a melodia de seu hino enquanto o Império Serrano, vindo do acesso, teria seu samba mal avaliado?

Se a comunidade canta, ótimo, perfeito; estamos mesmo precisando de desfiles mais participativos e pulsantes e a Beija-Flor é importante por trazer ao foco a necessidade de olhar para seu quintal. Todavia, a qualidade musical, a qualidade de enredo, a qualidade da comissão de frente devem ser excomungados pelo canto que tudo engole? Antes que pensem “nossa, mas não era você que lamentava a falta de emoção nesta década na coluna passada?” não estou enaltecendo a técnica perfeita, até mesmo por ela ser fantasiosa e, sobretudo, por aqui sempre enfatizar a falta de emoção nos desfiles; contudo, já que estamos em uma competição acima de tudo, - sim, é a isso mesmo que se resume o carnaval de hoje, uma competição ácida - que ela seja justa, feita analisando as entranhas de cada escola, sem favoritismos, sem deixar passar enredos patrocinados mal amarrados, sem fechar os olhos para periquitos de asa quebrada, sem ignorar onças que atacam o público das arquibancadas, certo? Esperemos o carnaval.

Criticar julgamento de desfile é mais velho que andar pra frente. De fato não é de hoje que clamamos por um julgamento mais coerente e sensato, mesmo que o ato de julgar seja bastante complicado e, sobretudo subjetivo tanto para nós, que elegemos as favoritas somente tendo como base os inacabados trabalhos no barracão ou os ensaios técnicos, quanto para eles, os jurados e seus,digamos,maleáveis critérios de julgamento, responsáveis por um rosário de lamentos na quarta-feira…

Era de Aquarius…

6 de Janeiro de 2009 @ 12:29 por Philip Nascimento

aquarius 1 - aquarius 1

O ano era 2001, o preâmbulo do novo milênio. Na Grande Rio, Joãosinho Trinta, o eterno profeta do novo, mais uma vez se encarregava de tocar a trombeta, como já havia feito em 76 e 89. Na conjuntura, o bicho papão Imperatriz dava as cartas, a Beija-Flor calcificava o posto de eterna vice - obviamente já demarcando território, pois seria a próxima a dar o bote -, a Grande Rio trazia o velho Trinta, montava seus exércitos, carros e cavaleiros, e cantava uma tal de Era de Aquarius… Estávamos saindo de uma década transformadora, onde a engenharia do carnaval, a aliança para o progresso, deu o tom e marcou o passo de uma era que fez escola nas abençoadas terras do carnaval carioca.

Como em outros momentos, aquela vinda para o novo milênio marcaria um período de transição não somente cronológico, mas, sobretudo, ideológico. “Um caminho sem volta?”, perguntavam-se os mais apocalípticos; “Um mal necessário”, regozijava-se a corte positivista, ao passo em que o concreto edificado do grande palco ia se tornando a gélida metáfora da alma carnavalesca. Naquele romper de novo milênio, olhávamos para trás e víamos completa incompatibilidade de Eras, já que os anos 90 tinham acabado de ser delineado sem trazer em seu âmago o DNA popular do anterior, os anos 80, que por sua vez em nada nos remetia aos anos 70. Logo, analisar aquelas décadas era, sobretudo, analisar um mosaico de incompatibilidades. E imbuídos daquele clima, o que esperar de uma década que, embora estivesse em fase embrionária, já surgia atormentada por fantasmas que foram plantados em sua antecessora? A visão pessimista, inevitavelmente, era a indumentária vedete.

De repente, nove, dois mil e nove, ou quase no ano 2010…
Cruzamos a década. Apesar de ainda faltarem dois carnavais, este que dobra a esquina e o próximo, a primeira década do novo milênio está quase a caminho de ser suplantada. E cá estamos observando, com o mesmo olhar de apreensão de outrora, como se deu o caminhar de um ciclo que está prestes a fitar o firmamento, tomando como mote, para tanto, toda a mística existente em torno do número nove, que em diversas culturas representa um fim e um começo, o coroamento dos esforços, o termino de uma criação. Mas quais os esforços a serem coroados nesta década? Tragam-me uma lupa!

Talvez a Grande Rio do profeta Joãosinho Trinta, lá no início da década, cantasse a Era de Aquarius com razão, anunciando um ciclo que estava por vir: de informação instantânea; de enredos horizontais e, por conseguinte, também instantâneos; de sambas embebidos no puro esplendor do barroco científico, despidos de todo e qualquer lirismo em nome da lógica nua e crua; de escolas que amanhecerem e anoitecerem com O Príncipe sendo a doutrina básica para toda e qualquer ação/motivação; do descompasso entre a tecnologia e os valores humanos, coroados por metrônomos que confundem cadência com velocidade, que implantam o império da razão em meio à paixão; era onde a vil necessidade de mensuração engole tudo o que é criado e tudo o que é criatura…

Na produção musical, reflexos de um tempo onde o samba-enredo adormeceu. Quais sambas destes anos 2000 ficarão no inconsciente coletivo? Talvez o único seja mesmo Mangueira 2002. Porém, enquanto o samba era rechaçado ao segundo plano, nosso passatempo preferido foi mendigar algo vindo da cabeça de Paulo Barros, que por sua vez não consegui domar o fantasma alimentado por ele próprio, acabando deglutido pela própria criatura. Aliás, o ano de 2004 é um capitulo à parte, por trazer para o mesmo palco o confronto entre o passado das reedições e o florescer de uma linguagem contemporânea com a revolução tijucana. Daquele imbróglio, a criatividade foi resumida a busca pelo novo, a descoberta da pólvora, ao escândalo e a ruptura. Certamente reflexos de uma sociedade cada vez mais instantânea, cada vez mais fast food, cada vez mais sanduíche de borracha norte-americano, ao passo em que o poder de reflexão e crítica do carnaval, bem como o banho de cultura que sempre lhe foi salutar foram alijados por um conceito estilístico comunicativo, é verdade, mas raso, oco de significado e, sobretudo, de carga emotiva.

A esta altura do campeonato, você deve estar questionando o tom apocalíptico. Todavia, posta na balança, a trajetória do carnaval nesta década não é nada satisfatória no que compreende o lado humano que,mesmo que uns não queiram, é a matriz da festa. Sob este aspecto, não há coroamento dos esforços, como pede a mística do número nove. Coroar-se-ão práticas desmedidas de canalizar patrocínio, eterno algoz de enredos e sambas? Ou a relutância das escolas em preservarem suas singularidades? O término desta criação é uma obra inacabada, pois o primeiro contato com o novo milênio revelou uma grande lacuna, fundamentada, obviamente, no natural e inevitável período de transição pelo qual passamos, mas, sobretudo, potencializada no êxtase técnico e colapso ético, fios condutores deste ciclo.

Mas,enquanto a década não termina, voltemos à Grande Rio 2001, aquela do profeta Joãosinho Trinta e sua Era de Aquarius… Ainda precisamos buscar o outro lado desta Era, o que afirma sermos não vítimas, mas co-criadores e, portanto, responsáveis pelos rumos desta história de fato emoldurada por nós, pés mãos e corações do carnaval. Pois que este nove que se inicia seja o fim e o começo. Deixa clarear…

Feliz 2009!

Do Latim Natális…Com Olhos de Criança

21 de Dezembro de 2008 @ 16:57 por Philip Nascimento

Carta ao Papai noel  large 1 - Carta ao Papai noel  large 1

Lá se vem Natal… Lá se vem Carnaval… E nós, sempre inquietos, a retrucar: “E o espírito, não vem também?” Eis o mistério da fé! O espírito natalino parece ter se aliado ao carnavalesco e, juntos, tomaram o caminho da roça, ou foram estudar a geologia dos campos-santos, como diria o velho Machado. E se hoje lamentamos a carência de um carnaval mais pulsante, o que dizer, então, dos natais cada vez mais regados a cartões de crédito? O que dizer de carnavais assassinos de sonhos, feito aquelas histórias mal-assombradas de Edgar Allan Poe, quando deveriam ser a substância-mor, a condição sine qua non da folia? Tudo isso só vem comprovar o alto grau de desumanização em que estão submersas as sociedades ditas modernas, que não conseguem comungar aparelho-presente-parafernália de última geração com o verdadeiro ideal natalino ou, em nosso emplumado caso, de aliar o dinheiro na mão ao samba no pé.

Todavia, mesmo ocos de sentido e desprovidos de espírito natalino ou carnavalesco, seguimos fantasiosos e fantasiados, sempre esperando que os ratos e urubus larguem nossas fantasias, afinal, a grande engrenagem, mesmo desalmada e frívola, tem que prosseguir. Logo, só nos resta procurar no fundo da gaveta aquela velha e já surrada indumentária infantil, que sempre vem à tona em épocas de natal, juntamente com nossas aleivosias, pois vislumbrar a vida com olhos de criança nos faz uma cirurgia plástica na alma de folião já um tanto quanto envelhecida. Mas quem sabe isso não passe de ingenuidade nossa, já que não temos mais idade para tamanha asneira. Ou temos? Ora pílulas, vamos à missiva:

Prezado Papai Noel, não quero importuná-lo, longe de mim. Sei que deves estar bastante atordoado com tantos pedidos que aparecem ao sabor do vento nesta época. Entretanto gostaria, mesmo assim, de ter um dedo de prosa com o senhor, que muitos dizem ser um sujeito bacana, um cara safo, boa praça, honesto, trabalhador, cumpridor de seus deveres, pagador de seus impostos, respeitador das instituições e que merece, no juízo final, ser contemplado com um fusção preto daqueles que Paulo Barros utilizou em um de seus carnavais…

Dizem alguns mais conformados - sempre os há -, que de nada adianta desesperar-se, cortar os pulsos, uivar despido nas cumeeiras dos telhados, porque tudo vai passar feito uma febre, porque depois da tempestade vem a bonança e não há mal que sempre dure, pois a vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos. Até aí tudo bem. Porém, nobre velhinho, a pergunta basilar: Até quando? Até quando assistiremos a tudo calados, alimentando apenas nossas frustrações com esse caminhar esganiçado e cambaleante do carnaval? Não, não estou sendo malcriado e desmerecedor de um presentinho neste natal, mas o carnaval que atormenta ao invés de alegrar bem que merecia uma sapatada semelhante àquela que Darth Vader, digo, George Bush quase levou, você não acha?

Mas, na medida em que o pão de nossas queridas escolas de samba foi caindo com o lado da manteiga virado para baixo e em cima do cocô do cachorro, você foi desaparecendo, querido Papai Noel. Seria apenas coincidência ou má vontade de sua parte? Tudo bem, eu sei que estamos passando por uma crise mundial sem precedentes, de arrepiar até os cabelos do finado Adam Smith e que seu famoso saco este ano será diminuto. Mas será que é tão difícil assim para o senhor, dono de uma fábrica de sonhos, presentear-nos com um bom carnaval? Não entendo o motivo que levou o senhor a sumir dessas terras, já que ultimamente a Sapucaí possui um clima semelhante ao Pólo Norte, não havendo, portanto, o que temer. A verdade é que vens furando nosso acordo e esquecendo constantemente de aparecer cá por essas bandas para atender aos pedidos dos habitantes do Reino Carnivale, que clamam tão somente por um puro e genuíno carnaval, que seja menos Bush e Madonna e mais Pierrô e Colombina, legitimando, assim, juntamente com Ciata e outros bambas, nossa matriz energética, que é um pouco axé, um pouco caravela e um pouco cocar.

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Quer saber? Espero que você se lasque! Sempre tive mesmo sérias desconfianças a respeito da sua existência, assim como também desconfio do futuro da folia. Ora, não poderia ser o senhor, um velho (dizem as más línguas) vestido de coca-cola, grande símbolo de uma cultura consumista e possuidor de uma natureza incompatível com meus singelos anseios de folião a pessoa mais indicada para solucionar a falta de valores humanos nesse reino do samba no pé. E não venha me chamar de socialista, até porque concordo que Stalin e Mao Tse-tung ficaram elegantíssimos em suas atuais fantasias de múmia. Entretanto, o senhor também é uma grande lorota que, juntamente com o natal desalmado e o carnaval engessado, formam o “Ethos da Riqueza”, minando todo e qualquer espírito natalino ou carnavalesco. Mas, caso o senhor se dê conta de que, ao invés de ser um velho trajado de coca-cola e provedor do consumismo, és, na verdade, um nobre e vermelho salgueirense (seu figurino não nega,heim?!), nosso acordo está de pé!

Ah, sim, ia me esquecendo, Feliz Natal!

A Ambigüidade de Capitu,A Insegurança de Bentinho

10 de Dezembro de 2008 @ 03:12 por Philip Nascimento

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Teria sido Capitu culpada de adultério?
E Olorum, mandou ou não ir buscar na mata o biocombustível?
Estas e outras indagações, senhores leitores, levaremos para o túmulo, correto? Quem concorda comigo certamente toma minha afirmação como verdadeira. Quem não concorda, entretanto, tem a pretensão de suplantar o enigma criado por Machado e, ao mesmo tempo, esclarecer de uma vez por todas a verdadeira ordem de Olorum,entidade suprema. E assim brincamos de alimentar verdades, esquecendo o alto grau de subjetivismo presente em nosso discurso. Isso, aliás, é a tônica de “Dom Casmurro”, onde Machado, de forma genial, faz com que não acreditemos plenamente no próprio narrador. O fato é que tais questionamentos levam em consideração o imaginário, a realidade e, claro, a ficção.

O conflito traçado por Machado de Assis em sua obra “Dom Casmurro”, além de uma contribuição inconteste no engrandecimento das páginas da literatura brasileira, mostra-se cada vez mais atual se por um instante nos desprendermos do dilema presente na existência ou não de um adultério e observarmos a modernidade machadiana ao deixar transparecer, através de Bentinho, o epicentro de nossas próprias incertezas que, ao adentrarem num mundo real e objetivo, se vêem distantes do idealismo romântico incrustado de excentricidades, como evidencia Casmurro atormentado pelo fantasma da suposta traição que ensejava os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” de Capitu.

Mais de 100 anos após a publicação da obra-prima, cá estamos, inseridos em um habitat que não se apresenta distinto do elucidado por Machado, o que acaba fazendo com que haja um diálogo entre a obra do Velho Bruxo e nossas próprias inseguranças carnavalescas que, de fato, não são poucas e cada vez mais potencializadas. Assim sendo, é muito mais cômodo e prático, lendo “Dom Casmurro”, focar simplesmente na possível traição de Capitu a ter que observar a complexidade psicológica traçada por Machado em sua obra, da mesma forma que parece ser bem mais prazeroso discutir, pelos séculos-amém, se Olorum – ser abstrato - mandou ou não ir buscar na mata o tal combustível de origem biológica semeador da discórdia, quando,na verdade, a discussão-chave deveria estar centrada no ainda intragável casamento entre samba e patrocínio, matriz de um sem-número de conflitos que, vez por outra, assombram esse reino.

Sim,um século depois, caminhamos entre a insegurança de Bentinho e a ambigüidade de Capitu, da mesma forma que, paralelamente, nossas escolas cambaleiam na linha tênue entre a virtude cândida e a virtude momentaneamente confortável e eficaz, sendo está última, quase sempre, o gene dominante.

Os sambas de 2009 e suas (infindáveis) críticas

4 de Dezembro de 2008 @ 12:12 por Ricardo Almeida

Foto: Ricardo Almeida

Salve, salve!!

Já postei aqui neste espaço, logo após as finais de sambas de enredo minhas impressões sobre as composições. Aliás, acho que fui o primeiro a falar. Passados um mês e alguns dias, vejo que a polêmica só aumentou.

Como não olho somente para meu lindo umbigo, passeio por todos os sites de carnaval e observo e assimilo tudo àquilo que meus, digamos, companheiros de crítica, falam. E falam com autoridade. Sem querer entrar em polêmica, mas já entrando, me parece que o “samba da discórdia” deste ano ficou para a Viradouro. Com isso, fez meu amigo e também de todos, Milton Cunha, descer do tamanco e esbravejar pelos quatro cantos, quase que ensandecido, e sair em defesa do samba de sua escola, seja através de seu blog ou nas quadras.

Como tudo na vida, existem três verdades: A sua, a do outro e a verdadeira, aquela que realmente detém a razão, a verdade verdadeira. Então, pensando assim, vou falar à verdade que me cabe:

Os sambas deste ano, continuo dizendo, são regulares. Não há nenhuma obra espetacular, excluindo-se aí o Império Serrano. Este, como falei, pode não ter a melhor letra, mas é de uma melodia e balanço contagiante, e que tem a seu favor, por ironia, a própria letra. Fácil, pequena e didática. Então, se compararmos com o da Viradouro, realmente ele é muito, mas muito superior. E para por aí, porque, na média, existe samba que tá difícil até da comunidade cantar. E não é o da Viradouro. A polêmica ficou na frase que diz que Olorum foi buscar biocombustível na mata. Mandou-se mesmo ou não, deixo para o próprio Milton esclarecer. Mas, no geral, o samba não empolga, e sua segunda parte é arrastada. Os motivos, eu escrevi e torno a repetir aqui:

“…De cara podemos dizer que a política esteve presente em algumas quadras, infelizmente, e de que na atual conjuntura o melhor samba não é aquele que tem a melhor letra e melodia, aquele que o povo canta, e sim aquele que atende melhor ao carnavalesco e a diretoria…”

Só esqueci-me de citar o patrocinador, que nos dias de hoje se tornou tão importante quanto o presidente da escola. Mas certas “parcerias” são maléficas e, no caso do samba, acaba por “engessar” o compositor, fazendo com que ele seja obrigado a colocar certas palavras dentro da composição, tirando totalmente a espontaneidade e o brilhantismo. O resultado é esse que vemos. Sambas que mais parecem frases soltas, sem pé nem cabeça, e que daqui a seis meses já esquecemos. Tenho consciência de que o patrocinador (no caso da Viradouro, a Petrobrás) tem que aparecer em algum momento, independente de valores, senão, não há razão de patrocinar, mas esse tipo de intervenção me incomoda.

Mas acima de qualquer polêmica existe a escola e sua comunidade. E isso me desculpe a Viradouro reconhecidamente tem de sobra. Arrisco dizer que foi ela quem conseguiu levantar a escola em alguns carnavais abaixo da média. Então, só posso pensar que este ano não vai ser diferente. Ganhar ou não é outra história. E, somando-se a comunidade e ao mestre Ciça, tem em seu carnavalesco a figura que talvez comece a dar uma nova cara para a escola, que tinha em seu antigo intérprete, Dominguinhos, essa característica. David do Pandeiro terá que mostrar todo seu talento.

E mesmo sem patrocínio, tem samba que não emplaca e é duvidoso. Quer um exemplo? A Mocidade. De tom baixo, é arrastado, não empolga. Não a mim, mas quem desfila. Já desfilei por quase vinte anos e sei bem como é ter que cantar um samba fraco. E posso afirmar que é muito difícil levar até o final. Vejo que isso vai acontecer com a Mocidade. Esse samba não se sustenta trinta minutos, quiçá em oitenta e cinco. A famosa bateria terá que dar uma leve acelerada para tentar levantar o samba. Espero, sinceramente, que esteja errado, e que meus queridos amigos da verde e branco de Padre Miguel não passem por apuros.

Mas agora, com os ensaios técnicos, vamos começar realmente a ter noção de como estes sambas irão funcionar, porque sabemos que a sempre desastrosa gravação oficial para gringo não é a expressão da verdade, e que tudo que escrevemos até agora seja uma grande bobagem.

Até a próxima!