Para tudo não se acabar na quarta-feira- versão 2010
Pelo terceiro ano vou aproveitar deste espaço oferecido pelo site para dialogar a respeito do carnaval que passou. É bem verdade que estou um tanto atrasado para fazer comentários dos desfiles de 2010, haja vista que as escolas já se apressam para preparar o próximo carnaval. Por outro lado, dois meses é tempo suficiente para me informar de tudo que foi divulgado, trocar idéias, refletir e chegar a algumas conclusões a respeito do que passou. Naturalmente o que está escrito aqui são opiniões minhas, partindo daquilo que pude acompanhar e da minha visão particular dos desfiles. Todos os internautas se sintam convidados a comentarem, concordarem ou discordarem do conteúdo deste texto, acrescentar informações e suas respectivas opiniões.
Sábado de carnaval - Parte 1
2010 foi bastante movimentado para o grupo de acesso. Trata-se de um ano em que a recém-criada Lesga teria que comprovar sua capacidade de organizar uma noite de desfiles com o elevado número de 12 agremiações. Mais do que isso, a instituição precisava mostrar credibilidade, após ter alterado as regras e terminado o carnaval passado sem rebaixar nenhuma agremiação. Outra novidade de destaque no ano foi a volta da transmissão em rede nacional através da Band, o que obviamente dá maior notoriedade ao evento e faz jus à importância deste grupo, que mescla escolas tradicionais e profissionais experientes com escolas emergentes e novos profissionais talentosos.
A Lesga conseguiu mostrar eficiência quanto à organização, com os desfiles começando e terminando dentro do horário previsto. Por outro lado, faltou confirmar credibilidade em termos de resultado oficial. Se fora da avenida algumas escolas tiveram que lidar com notas duvidosas dos jurados, dentro dela outras agremiações sofreram com falhas graves no som.
As impressões que tenho dos desfiles surgiram após assisti-los no setor 3 e vendo depois a transmissão da Band.
1- UNIDOS DE PADRE MIGUEL
- Missão ingrata para a Unidos de Padre Miguel: ter que se concentrar com sol forte, entrar no Sambódromo em fim de tarde, com público ainda chegando. Se ser a primeira a desfilar em qualquer situação já não é uma tarefa das mais fáceis, pisar na avenida às 19 horas, com horário de verão, abrindo espaço para outras 11 que passariam em seguida, foi certamente um bom desafio.
- Não apenas o público estava chegando, mas a comissão de frente também se atrasou. A escola até posicionou os membros da velha-guarda para cumprir a função do quesito, mas felizmente não foi necessário. Os minutos do desfile já corriam nos relógios da Sapucaí quando a comissão de frente despontou no início da avenida, com os componentes correndo entre as alas e ajustando suas fantasias para assumirem o posto a tempo.
- A escola apresentou um enredo sobre o aço que, apesar de não deixar de ser um tema interessante, não é tão fácil de transformar em um bom carnaval. Prova disso foi o samba-enredo que embalou os componentes, que figura entre os piores da safra.
- Esteticamente, a agremiação de Padre Miguel foi irregular. Em termos de alegoria, destaco o bom impacto causado pelo abre-alas ao usar da forte mistura de vermelho, laranja e amarelo. Chamou a atenção também as esculturas de São Jorge e o dragão presentes na última alegoria, muito bem feitas e articuladas. No entanto, houve ao longo da escola um excesso do uso do branco, do prata… Cores inapropriadas para uma escola que desfilou com céu claro.
- Num todo, o desfile da Unidos de Padre Miguel foi morno e sem grandes destaques. Considerando ainda que os jurados costumam ser mais rigorosos com as primeiras a desfilar, era previsível o rebaixamento da agremiação.
2- IMPÉRIO SERRANO
- Se Unidos de Padre Miguel tinha a difícil missão de se manter no grupo sendo a primeira a desfilar, coube ao Império Serrano a não menos árdua tarefa de lutar pela volta ao Grupo Especial sendo a segunda da noite.
- Para alimentar as esperanças dos imperianos, vimos na avenida um samba agradável, um dos melhores do Acesso. A bateria também foi outro destaque, mesmo após a saída de Mestre Átila. Destaco ainda a comissão de frente e o interessante enredo sobre o Rio de Janeiro expresso no trabalho de João do Rio.
- A escola certamente estava com um orçamento limitado, o que inviabilizou um desfile mais luxuoso. Foi um desfile simples, porém agradável. O mar de tons em verde que se via dava um belo visual. Ainda que tenha faltado requinte em algumas alegorias, o Império apresentou um bom conjunto estético.
- O casal de mestre-sala e porta-bandeira não estava com muita sorte no início da avenida. A bandeira se prendeu algumas vezes no adereço de cabeça da porta-bandeira e o mestre-sala tropeçou. Foi também quando a bateria passava em frente ao setor 3 que houve uma falha no som do Sambódromo, obrigando componentes a sustentarem sozinhos o canto, com ajuda do público.
- O Império Serrano apresentou um carnaval simpático, mas que aparentemente não a colocava entre as favoritas ao primeiro lugar. De fato a agremiação não terminou tão bem colocada, mas penso que ela merecia ter disputado as primeiras vagas, uma vez que não apresentou grandes falhas e ainda contava com pontos fortes, como bateria e samba-enredo.
3- IMPÉRIO DA TIJUCA
- A primeira cena que se teve da Império da Tijuca era bastante forte: uma comissão de frente que certamente foi uma das melhores do ano (apesar de pequenos problemas na troca dos figurinos dos componentes), o abre-alas preto impactante e, coroando este visual, o samba consagrado como o melhor do grupo de acesso em 2010.
- Enredos afros quase sempre geram bons desfiles, e mais uma vez não foi diferente. Trazer a rainha Jinga pra avenida foi um acerto do carnavalesco Jack Vasconcelos. Já na estética, o profissional conseguiu apresentar o “Imperinho” mais competitivo do que aquele que desfilou em 2009. No entanto, o visual não conseguiu atingir nenhum padrão de excelência, com boas idéias e resoluções alternando com outras coisas não tão belas.
- A bateria da escola chamou atenção com uma ousada paradona, que incluía o batuque de atabaques, dando ainda mais força ao samba e ao desfile da escola.
- A agremiação entrou bastante devagar na avenida, mas como estava pequena não teve grandes problemas para terminar seu desfile dentro do tempo estipulado.
- A entrada impactante da Império da Tijuca deixou claro que a escola tinha grandes ambições. O desfile não conseguiu ser regular, oscilando o nível da apresentação, mas ainda assim a escola cumpriu bem seu papel e mostrou crescimento. Considero a 5ª colocação obtida justa.
4- PARAÍSO DO TUIUTI
- O estilo nostálgico do enredo, o samba-enredo agradável e o simpático abre-alas davam indícios de que viria ali uma desfile gostoso de se ver, ainda que não viesse para disputar as primeiras colocações. Infelizmente o excesso de falhas da agremiação denunciou que o Paraíso do Tuiuti competiria pelas colocações mais inferiores da tabela.
- De fator positivo do desfile, além do que já foi dito, é a bateria da escola. Já sua rainha, uma dessas mulheres-fruta, chegou atrasada. O último carro da escola já estava no meio da avenida quando ela entrou na pista atrás de seus súditos-ritmistas. A cena foi no mínimo bizarra: uma mulher em sua noite de rainha correndo e chorando em uma pista vazia, com um imenso salto sob os pés, penas da fantasia balançando, público vaiando… E lá foi ela atrás do resto do glamour que lhe restava (e que ela certamente pagou caro - ao menos na fantasia - para tê-lo).
- Esteticamente, a escola só não estava mais simples do que a Caprichosos. Para piorar a situação, o segundo carro bateu em direção aos camarotes que estão ao lado do primeiro recuo da bateria, como mostra a foto acima. Com o acidente, uma das esculturas perdeu o braço.
- A Tuitui foi outra escola que desfilou com um pequeno contingente. Muito simples, com alguns problemas ao longo do desfile e poucos quesitos de destaque, a simpática agremiação se credenciou ao rebaixamento, de forma que o resultado oficial não foi surpresa.
5- INOCENTES DE BELFORD ROXO
- O maior mistério que ronda o julgamento deste ano creio eu estar na Inocentes. Isso porque a escola fez um desfile apenas mediano, morno, que a deixaria da metade para baixo da tabela. No entanto, a apuração na terça-feira deu-lhe o honroso segundo lugar. No meio da história ainda há o fato do presidente da Lesga ser exatamente o presidente da escola, Reginaldo Ferreira Gomes, o que torna as coisas mais suspeitas, além da insatisfação generalizada de presidentes, público e boa parte da crítica do carnaval com o resultado.
- De forma geral, a Inocentes não teve nenhuma grande falha, nem tampouco nenhum grande acerto, foi um desfile mediano de ponta a ponta. O samba é correto, porém maçante, cansativo. O enredo não apresentou um desenvolvimento claro, sendo que o mais fácil de compreender nele foi a mensagem ecológica completamente batida. Por outro lado, há de se reconhecer que, comparando ao desfile de 2009, a agremiação melhorou consideravelmente sua estética, com a saída de Fran Sérgio e a entrada de Roberto Szaniecki e Cristiano Bara.
- Como no Acesso é bastante comum a reutilização de esculturas de carnavais passados, pela Inocentes atravessaram a avenida mais uma vez algumas esculturas que eram da Portela em 2009, originalmente presentes nas alegorias do amor nos tempos da tecnologia e no abre-alas portelense. Rever essas esculturas na avenida sempre dá uma noção de algo forçado para economizar, pouco criativo e espontâneo. Mas há de se reconhecer que o orçamento limitado do grupo exige que as escolas reciclem esculturas e as estruturas de suas alegorias para apresentarem um carnaval competitivo. Até porque mesmo as agremiações do Grupo Especial, bem mais abonadas, também utilizam desses recursos. Outros dois exemplos é a São Clemente, que reaproveitou esculturas da própria escola e a Renascer, que manteve a estrutura de boa parte de suas alegorias.
- A Inocentes é uma agremiação nova, fundada apenas em 1993, que ainda não disse a que veio em seus mornos desfiles no acesso A. Para o próximo ano, no entanto, o enredo sobre a banda Mamonas Assassinas já gera a expectativa de um desfile mais leve e irreverente, e de maior apelo popular. Se mantendo pelo terceiro ano no grupo, após um vice-campeonato (independente de se considerar justo ou não), a escola também está tendo uma boa oportunidade de se estruturar cada vez melhor.
6-RENASCER DE JACAREPAGUÁ
- Outra escola jovem, mas extremamente ambiciosa, é a Renascer de Jacarepaguá. Diferente da co-irmã Inocentes, essa já disse a que veio. Renascer tem se tornado uma escola forte, candidata séria à vaga do Grupo Especial. Creio eu que a escola merecia abrir a noite de domingo de carnaval em 2011, se não fosse pela grave penalidade cometida…
- Dois pontos. Para o método de julgamento adotado pela Lesga para 2010 essa perda é o suficiente para tirar qualquer escola do páreo. Foi o que aconteceu com a Renascer, após membros da diretoria da escola terem auxiliado a arrumar o tripé da comissão de frente na avenida. O tripé, muito grande, havia se entortado em direção às frisas logo no início da avenida, necessitando da ajuda de pessoas que não eram componentes da comissão. Como se sabe, é proibido haver mais de 15 pessoas aparentes em uma comissão de frente, fazendo com que a escola levasse a dura pena. Falhas à parte, a coreógrafa Alice Arja continua acertando a mão mais no grupo de acesso do que no Especial, embora a comissão da Renascer de 2009 fosse ainda mais inspirada. O mergulho dos componentes arrancou aplausos do público.
- Como em 2009, outros pontos fortes da escola foram o belo samba-enredo, composto pela turma encabeçada por Claudio Russo, compositor famoso por suas vitórias na Beija-Flor, e o criativo enredo “Aquáticopolis”, remetendo ao Tupinicópolis de Fernando Pinto.
- Assistindo ao desfile, fiquei entusiasmado com o trabalho de Paulo Barros, pensando que enfim ele teria alcançado sua maturidade profissional. Mais tarde descobri que os méritos do trabalho se deviam mais a Wagner Gonçalves, este sim teria feito grande parte daquele carnaval. Desconhecia o trabalho de Wagner, e me surpreendi muito com o que vi. Fazer uma estética bonita a base de muito luxo e plumas é fácil. Difícil é conseguir apresentar um belo trabalho sem elas, o que foi o caso. Com criatividade, um belo colorido e bom uso de materiais, a Renascer passou com alegorias e fantasias que formaram um excelente conjunto. Wagner Gonçalves mostrou ser um grande profissional, digno de estar em uma grande escola do Grupo Especial, como de fato estará pela Mangueira em 2011. Quanto à maturidade de Paulo Barros, essa confirmaríamos na noite seguinte.
- Para não dizer que não falei de espinhos, creio que a Renascer ainda pode apresentar um chão mais forte e fazer render melhor sua bateria.
- Considero a noite de sábado carente de escolas com pinta de campeã. Nenhuma passou de forma avassaladora, ou deixando a impressão de merecer de fato a vaga ao grupo “de elite”. A agremiação que conseguiu se sair superior foi justamente a Renascer, mas esta tropeçou nas obrigatoriedades e punições que vão além dos quesitos básicos. Uma vez fora desta disputa, couberam às demais escolas a briga pela vaga, num jogo de “quem errou menos”.






