As disputas e os sambas polêmicos
Todos os anos surgem nas disputas de samba algumas obras diferentes que chamam a atenção dos sambistas de plantão e provocam discussões nas quadras e foruns da internet. Se a temporada 2008/2009 foi protagonizada pela parceria de Edgar Filho, Bené do Salgueiro, Simas, Beto Mussa e Gari Sorriso, para o Salgueiro, este ano parece que os debates giram em torno do samba composto por Martinho da Vila para a Vila Isabel.
Ambos as canções possuem uma característica tradicional que desafia o momento atual, em que as escolas quase sempre optam por uma obra que não lhes trará risco de fracasso. Daí criou-se uma fórmula de samba moderno e “funcional”, que é utilizado à exaustão pelos compositores, tornando as safras muitas vezes previsíveis e pasteurizadas. A consequência disso é que poucos sambas morrem na avenida, e um número menor ainda funciona de fato. Talvez até sirvam para um desfile técnicamente perfeito, mas emoção é outra coisa.
Voltando aos sambas de Martinho e Edgar Filho e cia, ao que parece o samba-enredo disputado na Vila divide mais as opiniões, mas, por outro lado, possui uma maior chance de ir para a avenida do que tinha a obra salgueirense. Isso porque o presidente Moisés sempre demonstrou a vontade de levar um samba do Martinho para a avenida no ano em que se homenageia Noel Rosa. O peso do nome Martinho da Vila, somado à intenção da Vila de emocionar o público e aumentar o elo de identidade entre escola e componente, além do fato de que a escola se saiu mal com os sambas modernos e “pra cima” criados por André Diniz e seus parceiros são fatores que tornam possivel a ida deste samba para a avenida.
Imagino eu que, por outro lado, o Diretor de carnaval Ricardo Fernandes deve estar meio temeroso da responsabilidade que será tal escolha. Quando se opta por um hino diferente, seu resultado na avenida torna-se imprevisível. Não é uma escolha baseada no tecnicamente funcional, é uma escolha do tudo ou nada, do 8 ou 80. Há o risco do samba morrer, bem com o risco de crescer, emocionar e provocar um dos melhores momentos do carnaval. Agrava-se à esta decisão o fato da Vila ser uma das favoritas ao título. Pensando assim, ela tanto pode jogar o título fora com uma escolha errada, bem como seu triunfo pode se dar exatamente com o samba do Martinho.
Por fim, é interessante observar as críticas na internet, que me soam incoerentes. É quase um consenso nos debates carnavalescos a crítica à qualidade dos sambas atuais. No entanto, quando surge um samba diferente, como é este do Martinho, muitos criticam e apontam para um fracasso da Vila caso este seja o eleito. Afinal de contas, queremos ou não sambas diferentes? As escolas estão tão viciadas aos moldes atuais que não conseguem desfilar bem com um samba com um estilo tradicional? Até quando as escolas vão optar pelos sambas pseudo-funcionais, que quando chega março ninguém se lembra mais de escutar?
Enquanto isso, no meu mp3 continua tocando:
Menina, quem foi teu mestre?
Um batuqueiro
Que arrastava
O povo do Salgueiro

27 de Outubro de 2009 @ 01:27
“Por fim, é interessante observar as críticas na internet, que me soam incoerentes.”
Sempre quis falar isso, só não tive capacidade construtiva de amarrar num texto - nem saco, hehe. As pessoas criticam diretores, jurados, componentes, mas pouco fazem de verdade e, no fim das contas, também reclamam das atitudes contrárias. Inclusive, li muitas disputas de samba - sem acompanhar - em que amiguinhos eram parabenizados, mesmo tendo vencido razoavelmente em termos de disputa, enquanto que outros compositores eram ‘executados’ por terem vencido de forma similar e com samba de mesma qualidade. É a velha história de criticar quando convém…