Para tudo não se acabar na quarta-feira parte 4—análise do domingo de carnaval
Em poucos anos houve tanta chance da campeã sair no domingo de carnaval. Das quatro escolas consideradas favoritas na temporada pré-carnavalesca, três desfilaram no domingo (Beija-Flor, Grande Rio e Vila). Eis que a campeã saiu para a única candidata ao título que desfilaria na segunda, o Salgueiro. 2009 apenas confirmou a tendência: apostar que a campeã sairá do domingo de carnaval é fria. Assisti aos desfiles do Grupo Especial no Setor 1, e após o carnaval também pude ver uma gravação da transmissão da Globo. Segue abaixo minhas impressões sobre o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial.
IMPÉRIO SERRANO
-Quem disse que o público ainda está frio na passagem da primeira escola não estava no Setor 1 quando o Império entrou na avenida. O público já estava animado no esquenta, com Arlindo Cruz cantando Meu Lugar, samba que homenageia Madureira. Depois, a reedição de A lenda das sereias e os mistérios do mar foi o suficiente para manter a animação nos 80 minutos seguintes.
- Não sou profundo entendedor de baterias, mas a o Império, sem dúvidas, deu um show. Uma pena a saída do Mestre Átila da escola.
- Márcia Lage estreiou muito bem o sobrenome de casada e a carreira independente do marido, Renato. É de se esperar que os dois tenham trocado algumas idéias em casa, mas é visível que se tratou de um trabalho de Márcia, e ela deu conta do recado. Em um ano de crise, seu trabalho serviu como exemplo de um projeto bem feito, compatível com a realidade e a disponibilidade financeira de sua escola. Tudo bem que os carros também não precisavam ser tão pequenos, mas antes um trabalho enxuto e bem feito do que idealizar um trabalho mirabolante e não conseguir levá-lo pra avenida com qualidade. Márcia ainda pode melhorar (sobretudo nas alegorias), mas sem dúvidas apresentou um trabalho agradável, digno de provocar o convite para ser carnavalesca da Mangueira. Aliás, já estou na expectativa para ver a estréia da carnavalesca na verde e rosa.
-Foi o desfile mais empolgante do ano. Isto gera uma preocupação sobre o futuro do carnaval. Uma escola tradicional leva um grande samba, com ótima bateria, bom chão, sem grandes erros, simples, mas bela, empolga a avenida e é rebaixada. O resultado soa absurdo.
- Quando o Império saiu da avenida, pensei que os jurados teriam que fazer uma força tremenda pra conseguir rebaixar a escola, e o pior é que conseguiram. Definitivamente, qualquer um sabe que não foi um desfile para rebaixamento, a escola merecia ficar em uma posição intermediária. Império pagou o pato pelos desfiles incompetentes da Mocidade e Porto da Pedra, essas sim deveriam disputar contra o rebaixamento. A escola caiu novamente, mas foi de cabeça erguida. Fez um grande desfile de escola de samba, agradável, correto e animado.
GRANDE RIO
- Artistas, mídia, luxo, gigantismo, boas colocações… A Grande Rio conseguiu criar uma imagem de grande escola, candidata ao título. Mas nem tudo isso adianta, a escola ainda não aprendeu a fazer carnaval que justifique um campeonato. Aliás, nunca conseguiu justificar nem os vice-campeonatos e terceiras colocações.
- Apesar disso, este foi um ano positivamente interessante. A escola fez um desfile um pouco melhor do que em anos anteriores, e finalmente foi julgada como merecia. Gostei mais do samba, enredo e da estética de 2009, e a escola não cometeu nenhum pecado absurdo de evolução, como foi em 2006.
- No entanto, a escola ainda cometeu muitos erros técnicos. Problemas na iluminação de algumas alegorias, detalhes no acabamento dos carros, a queda do componente na comissão de frente, etc, várias pequenas falhas pelos quesitos atrapalharam a Grande Rio de alçar vôos mais altos. Falta também Jaider Soares gastar menos paparicando os famosos e investir no chão da escola, na comunidade.
- Moral da história, parece que os tempos de jurados cegos acabaram. E isso já fez a Grande Rio correr atrás de melhores desfiles. Ao menos se cansou de tentar, em vão, algum sucesso com o Roberto “Polonês”. Mas a escola continua despreparada para o título, e ainda pode cair de qualidade em 2010 com o já muito criticado enredo sobre o camarote Brahma, que Cahe Rodrigues maquiará misturando com os desfiles famosos da era Sambódromo. Cada vez mais rica, a Grande Rio ainda tem que comer muito feijão com arroz para ser valorizada no mundo do samba como a grande escola de samba que ela já demonstrou ter capacidade de ser.
VILA ISABEL
- Muita expectativa ao redor do desfile da Vila Isabel. Mistérios ao redor do trabalho de Paulo Barros e Alex Souza, fantasias não divulgadas, primeira escola a ter 100% dos componentes considerados da comunidade, ensaios técnicos elogiados, boa equipe (Misailidis, Ricardo Fernandes)… A Vila certamente era uma candidata ao título. E saiu da avenida nesta situação também.
- Apesar do aparente sucesso do desfile, o trabalho dos carnavalescos me decepcionou. Isto porque esperei que um anulasse os pontos fracos do outro, e o que aconteceu foi exatamente o contrário, as falhas particulares de ambos estava no desfile. Vejam:
Alex- Ainda não conseguiu apresentar uma fantasia de ala das baianas realmente bela em todos estes anos de Grupo Especial. Também vem dos tempos de Rocinha a característica de abusar do dourado no desfile, o que chega a ser cansativo.
Paulo Barros- Primeiro carro é coreografado, e deu um ótimo efeito. O segundo é coreografado também, menos belo, mas ao menos esclarece bem a proposta da alegoria. O terceiro também é coreografado, e a coreografia em questão deu um efeito interessante, também muito adequado à proposta do enredo. O quarto carro também é coreografado… CHEGA! A essa altura o Setor 1 já estava se sentando,o que descredencia o papo de Paulo Barros de querer interagir com o público com essas coreografias. Sai da avenida com a certeza de que o público interage mesmo é com espontaneidade. Se não me engano, apenas a última alegoria não possuía coreografia. Isso pra mim é falta de criatividade, pois um carnavalesco tem que saber variar as soluções estéticas ao longo do desfile, até porque os estilos de coreografias também estão se repetindo. Isso sem falar que carnaval exige espontaneidade, coreografia é bom de vez em quando, e olhe lá. Paulo Barros precisa parar de ignorar as críticas que recebe, ele tem talento sim, mas não sabe dosar seu trabalho. Sentou nos louros de suas coreografias. O que faz seria a mesma coisa do que Renato Lage usar néon e Intérprida Trupe em todos os carros todos os anos. Obviamente cansa e perde a graça.
- A Vila ainda pecou na escolha do samba e em na atuação da bateria. Optou por um desfile de animação fácil, com bateria mais acelerada e samba que tenta jogar o componente pra cima d e qualquer jeito. Faltou poesia e tradicionalismo na passagem da escola . A agremiação deve tomar cuidado com essa atual fase de modernização. O lirismo romântico da Vila de outrora fez falta.
- Vila, Salgueiro e Beija-Flor eram candidatas ao título, portanto na pior das hipóteses era para a escola terminar em 3º lugar. A quarta colocação pra mim foi consequência dos escândalos políticos que envolveram a escola às vésperas do desfile.
MOCIDADE INDEPENDENTE
- A Mocidade ameaçou entrar na avenida quando sua bateria passou em frente ao Setor 1, assim como no início do esquenta Salve a Mocidade. Ali o público estava animado, e parecia que vinha para desfilar uma grande escola de samba. No meio do esquenta, no entanto, o samba mudou de Salve a Mocidade para “salvem o carnavalesco atropelado”, salvem a filha do presidente, salvem o abre-alas pegando fogo. Enquanto o carro esquentava, o público esfriava. Boa parte se sentou, e os que restaram em pé cruzaram os braços pra assistir a tragédia anunciada.
- O início do desfile foi horrível. Nada se salvava da comissão de frente até o 3º carro. Depois disso, melhorou um pouco o nível das fantasias, alegorias e o desenvolvimento do enredo. Ponto alto para a ala e alegoria do jacaré, que fizeram com que uma parte do Setor 1 que estava sentado se levantasse e aplaudisse a apresentação. O trabalho do coreógrafo Fábio de Melo foi irreconhecível. Já o trabalho do carnavalesco Cebola, ninguém conhecia antes, e ficaríamos mais felizes se não tivéssemos conhecido mesmo. Suas intenções podem ter sido as melhores, o esforço o maior possível, mas, definitivamente, não deu certo.
- A Mocidade se mostrou no auge da crise em pleno carnaval, o que justifica o desespero generalizado das pessoas querendo a “cabeça” do presidente Paulo Vianna. O desfile representou o fim de qualquer esperança e confiança em seu trabalho. E ele poderia ao menos reconhecer suas falhas, e parar de colocar a culpa nos outros. A presidência é sim completamente culpada e responsável pelas contratações equivocadas, pela incapacidade de manter bons profissionais dos carnavais anteriores, pela escolha errada do samba-enredo, pela falta de planejamento adequado… Enfim, uma má administração, do início ao fim. A questão é que, em anos anteriores, nomes como Cid Carvalho e Alex de Souza amenizaram a crise com seus trabalhos competentes, fora a escolha acertada do samba em 2008. Em 2009, no entanto, faltou maquiagem.
-No fim da primeira noite de carnaval, eu encontro com um grupo com cerca de oito torcedoras da Mocidade, todas desoladas. A expressão delas foi um reflexo do desfile. A Mocidade foi segurada no especial em 2009, mas já entra na temporada 2010 como favorita ao rebaixamento, mais do que a Ilha, que naturalmente ocuparia esta vaga. Nem mesmo os torcedores da escola (no qual me incluo) possuem esperanças de sucesso em 2010. Paulo Vianna hoje é um rei sem súdito. Também, pelo visto, isto não o preocupa. Ao que parece, a Mocidade ainda não chegou ao fundo do poço. Futuro pessimista.
BEIJA-FLOR
-Roberto Carlos causou um alvoroço quando atravessou a pista antes da passagem da Mocidade. Não sei ao certo se havia mais jornalistas ou seguranças ao redor dele. O Lula não foi visto pelo Setor 1, mas a Globo não perdeu a chance de mostrá-lo algumas vezes. Tudo isso para a celebração do casamento de Neguinho da Beija-Flor. A simpatia do intérprete se juntou ao drama de sua doença, rendendo o feito do casamento com direito a celebridades em plena avenida, no chamado “Primeiro Recuo de Bateria Jamelão”. Tudo muito lindo, só que o público foi para a avenida pensando em assistir desfiles, e começou a vaiar com a demora. Rapidamente a bateria da Beija-Flor voltou a tocar e apressaram o encerramento da cerimônia.
-Novas vaias para Laíla, quando este foi lembrar a ausência do “Papai” Anísio, milagrosamente residente em alguma cadeia. Mas basta Neguinho gritar “Olha a Beija-Flor aí, gente!” que está tudo azul novamente.
- O componente da Beija-Flor é quase um burro de carga. Além do peso das fantasias que carregam, alguns ainda levam alguns empurrões do pessoal da harmonia, para se posicionarem adequadamente na avenida. Tem que ter muito amor. Considerando ainda o número elevado de ensaios, imagino que a técnica do Laíla seja algo próximo do que o técnico Bernardinho usa no vôlei: o componente (ou jogador) realiza certos sacrifícios pelo bem maior, e por isso na hora do “vamo ver” não falta garra. No esporte e no carnaval, dá certo.
- Enquanto escolas como Porto da Pedra tinham enorme dificuldade para manobrar carros pequenos na entrada da avenida, as alegorias da Beija-Flor viravam a tensa esquina sem a menor dificuldade. Competência impressionante.
- Definitivamente, o trabalho de Ghislaine Cavalcante não justifica o aparente sucesso de seu trabalho. Só tira boas notas porque está na Beija-Flor. Geralmente a comissão de frente costuma ter alguma classe, o que disfarça as notas oficiais, mas com o pedido do Laíla de mudança de estilo, a coreografia ficou de mau gosto. Para mim, pelo menos, não teve graça nenhuma.
- A Beija-Flor, como sempre, desfilou bem. Bom gosto, acabamento, luxo e gigantismo que formavam uma estética suntuosa e bela, como a escola gosta. O samba não era bom, mas a comunidade canta até “Atirei o pau no gato” se for necessário, e samba-enredo é um quesito lamentavelmente desprestigiado no julgamento.
Não gosto muito do enredo, e a escola foi devidamente punida neste quesito. Primeiro, não sou muito fã desses enredos que passeiam pela história da humanidade, porque eles acabam caindo em lugares comuns, sobretudo nas soluções estéticas. Segundo, porque seu desenvolvimento pecou em alguns momentos, como nas várias alas para representar a mesma coisa: a corte francesa que não tomava banho. Por outro lado, achei muito interessante o setor mais leve, irreverente e criativo do desfile, sobre os banhos de chuveiro, banheira, gato etc. Este setor deixou claro o quanto seria bom se a escola se reinventasse. Tanto luxo pode, sim, ser dispensável.
- A água jogada na avenida no final do desfile foi uma maldade com a Tijuca, que viria em seguida. Aliás, em frente ao Setor 1, uma mulher com uma fantasia semelhante a de uma baiana, já no último setor do desfile, caiu três vezes por causa da pista molhada e acabou sendo retirada da avenida por um bombeiro. A cena foi uma maldosa espécie de tragédia cômica.
- A escola mais uma vez se candidatou ao título. Mas tendo outras escolas em condições iguais ou até maiores de levar o caneco, era de se esperar que a Beija-Flor acabasse não ganhando, afinal na ciranda da vitória, é necessário que outras escolas tenham sua vez. E depois de muitos anos na geladeira das disputas, 2009 foi o ano do Salgueiro ser valorizado, com todos os méritos.
UNIDOS DA TIJUCA
- A expectativa inicial era de que a Tijuca repetisse os bons desfiles dos anos anteriores, mas a escola decepcionou. O pavão era feio, e toda a estética da escola irregular, muito frequentemente faltando bom gosto ou acabamento. Problemas no acoplamento de duas alegorias prejudicaram a evolução da escola. O samba e o enredo combinam com o estilo da Tijuca, mas creio que o modelo já saturou.
- Com a saída de Paulo Barros, o carnavalesco Luiz Carlos Bruno conseguiu dar sequência ao padrão de desfile da escola. Seu trabalho não se destacava e nem tampouco mostrava ser prejudicial, se mostrando suficiente para as pretensões iniciais da Tijuca. No entanto, em 2009 houve uma queda de qualidade do desfile como um todo, e isso justifica também a necessidade de alteração de carnavalesco. Resta saber se a solução para a escola é realmente Paulo Barros. O estilo do carnavalesco funciona bem na agremiação, mas a Tijuca deve tomar cuidado para não esperar que sua volta signifique por si só reviver os bons anos de 2004 e 2005. Como já disse, já houve certa saturação deste modelo de desfile, sendo importante pensar em mudanças.






5 de Maio de 2009 @ 14:51
Muito interessante a análise dos desfiles. Em linhas gerais, concordo com as observações. A começar pela injustiça injustificável com o Império, que fez o desfile mais autêntico de escola de samba do ano no Grupo Especial e ainda foi rebaixada. Certamente, isso só aconteceu por ser a primeira escola do domingo - com raríssimas exceções, na era sambódromo é regra rebaixar a escola que sobe do Acesso e abre o domingo de carnaval (obs: lembrem-se que recente Mocidade e Salgueiro abriram os desfiles e não caíram, mas elas não haviam subido do Acesso, ou seja, estão fora dessa “regra maldita”). Só discordo um pouco quanto ao efeito Paulo Barros + Alex de Souza: acho que a dobradinha deu mais certo que errado, mas, obviamente, ambos podem render melhor sozinhos (aguardo ansioso o Noel Rose da Vila pro ano que vem). Aliás, também acho que o maior defeito do Barros é se fazer de surdo orgulhoso e não se mancar em muita coisa que poderia melhorar ouvindo conselhos alheios. Quanto à Grande Rio, por enquanto ela está mais para um grande clube com bateria do que pra uma autêntica escola de samba - seus desfiles pós Joãsinho Trinta foram todos insossos e o enredo do ano que vem (um camarote?!) parece invenção das Organizações Tabajara…
6 de Maio de 2009 @ 19:49
Sintético e bem organizado: belo comentário, apesar de discordâncias (estava do outro lado da pista, no setor 06) aqui e ali.
17 de Maio de 2009 @ 01:02
só não entendi porque a comissão de fretnte da beija-flor foi de mau gosto para você. será o fato de a “banhista ” ser gorda, homossexual e negro? não será isso preconceito? ou é antipatia pela escola de nilopolis? lembre-se que um comentarista deve ser extremamente imparcial.
17 de Maio de 2009 @ 14:38
Eric, acho que eu criei uma expectativa muito grande com o trabalho do Alex e Barros, por isso me frustrei um pouco. Acho que os dois juntos tinham condições de fazer um trabalho superior. Acontece que o Alex fez as fantasias praticamente sozinho, onde ele nunca acertou a mão completamente, enquanto permitiu que a falha das coreografias em excesso do Barros interferisse nas alegorias, que é exatamente onde o Alex sabe desenvolver melhor seu talento. Ainda assim, em ano de crise, a estética da Vila estava entre as melhores do ano.
ltrhpsm, com certeza eu escrevi bastante sobre as minhas impressões do que vi no Setor 1, até mesmo pra mostrar um olhar diferente do desfile de quem assistiu pela Globo ou em outra parte da avenida. Desfile de escola de samba tem esta característica dinâmica, cada ponto da avenida você vê o desfile de um jeito.
Edisinho, essa questão de parcialidade é um pouco relativa. O texto que escrevi se trata das minhas impressões completamente pessoais sobre os desfiles, então não sei até que ponto é possível exigir que um texto opinativo seja imparcial. Mas deixo claro que não tenho absolutamente nenhum motivo pessoal para criticar a banhista, a escola ou a coreógrafa. Mas acho que, primeiramente, o estilo escrachado da coreografia destoa da imagem de escola “classuda, luxuosa, séria” que a escola construiu para si mesma. Se a mesma coreografia fosse apresentada num enredo completamente escrachado, irônico, ou quem sabe numa escola tradicionalmente debochada, como a São Clemente, faria mais sentido. Segundo, independente da “banhista”, eu não gostei da coreografia apresentada e não achei que ela atingiu seu objetivo de ser engraçada (isso é completamente subjetivo, você pode ter achado graça). Está respondido?