A Raposa Toma Conta do Galinheiro…
Hoje a descrença parece ser a palavra que melhor representa a relação entre a sociedade e as diversas instituições que a representa, sejam elas de caráter político, econômico, social e, por conseguinte, cultural. Nesta perspectiva, nada mais comum a descrença nas instituições como reflexos do hiato existente entre uma base da pirâmide cada vez mais alheia ao carnaval, movimento cultural que fora calcificado por ela própria, e um topo despótico e nebuloso em seu ato de prestar contas de forma responsável, o que, inevitavelmente, torna-se fato gerador de constantes questionamentos, abrindo margem para o completo descrédito da sociedade para com o conjunto de estruturas sociais estabelecidas.
E não é isso que se faz presente no carnaval? Como se a incerteza quanto ao futuro de uma festa que segue atropelando costumes vitais não fosse suficiente, tem-se ainda a desconfiança no presente, e em seus métodos turvos de tentar mensurar o que é subjetivo na essência, mas que deveria, mesmo assim, ser regado por um posicionamento ético diante do objeto avaliado, no caso os quesitos que formam um desfile, sempre matrizes de infindáveis descontentamentos após a quarta-feira. Sim, julgar uma expressão artística é uma tarefa de trado difícil, ainda mais quando se tem dispostos na passarela do samba elementos artísticos diversos, como a música, a dança, as artes plásticas e toda uma mescla de elementos que compõem um desfile de escola de samba. Todavia, asneiras ou decisões incoerentes no ato de julgar não podem ser cometidas tomando como escudo único e exclusivo a justificativa da subjetividade quando se tem outra importante aliada, a ética profissional, necessária quando se almeja transmitir essa tal credibilidade em falta no julgamento das escolas de samba. De fato, não há como importar para estas terras jurados alienígenas, que não tenham contato algum com os profissionais envolvidos nas escolas, logo, a ética, mais do que nunca,faz-se necessária para que haja o distanciamento.
A bomba com natureza de festim lançada esta semana sobre o possível jogo de cartas marcadas como mecanismo de favorecimento no carnaval, antes de atuar como semeadora de dúvidas (a intenção aqui não é divagar sobre a validade das denuncias vindas do além) vem evidenciar/constatar a completa descrença da sociedade na instituição gerenciadora da festa. A cartinha que vem lançar suspeitas sobre a lisura do julgamento só ganha atenção e ares de bomba porque este reino,desde que samba é samba, vive embebido no mais puro descrédito, já que fora erguido, em meados dos anos 80, pelas mãos de senhores feudais e seus rituais de suserania e vassalagem, responsáveis únicos pela completa descrença presente na atual conjuntura, terreno fértil para especulações. O grupo clã que lá atrás edificou as bases do carnaval contemporâneo e o transformou em uma representação do próprio umbigo é o mesmo que ainda faz a fama e deita na cama, logo, não será uma cartinha a responsável por uma espécie de momento de epifania, em que finalmente se descobriria que o carnaval não é tão “mundo de algodão doce” assim, pois, de fato, nunca foi.
Ora, o fato é que a raposa sempre tomou conta deste galinheiro e criticar os critérios de julgamento sem atentar para esta espinha dorsal da problemática é como a ineficaz missão de enxugar gelo. Se a instituição que se diz mantedora do “ordem e progresso” no carnaval se mostrasse translúcida em suas ações, como, por exemplo, não se fechando em copas, promovendo um diálogo com imprensa e público de uma forma geral e, sobretudo, colocasse o ego abaixo das bases do samba, cartinhas misteriosas não ganhariam proporções descomunais, tampouco manchariam sua imagem perante a já descrente sociedade.
2 de Fevereiro de 2009 @ 18:28
Muito bom o site, faz jus ao nome. Reúne conhecimento técnico, opinião crítica, e fartura de conteúdo e fotos. Na seção “Sobre Nós” na verdade não mostra os autores, mas imagino que sejam o fotógrafo que já conheço do Sambódromo e a moça que estava junto nos ensaios de domingo.
Arrisco levantar: a questão de fundo do Desfile de Escolas de Samba do Carnaval carioca (cujo modelo já foi exportado para São Paulo e outras cidades) é se ele alcançaria o tamanho, a sofisticação e a difusão que tem se não fosse por esta complexa conjunção: os positivos, da criatividade popular, base histórica e interligação com outras artes, misturados a elementos menos nobres: superficialismo midiático, exaltação de celebridades, atividades econômicas e políticas do underground, autoritarismo etc.
Enfim, parabéns!