A Favorita

Cheiro de carnaval saindo do forno…
Cheiro bom ou ruim? Para evitar maiores transtornos, pulemos esta parte, é melhor, afinal, o carnaval já dobra a esquina mesmo, já estamos de olho na telinha mendigando, entre uma maldade e outra da Flora, os míseros segundos da vinheta-pílula que vez por outra passa, - acabando antes mesmo de termos chagado à sala para dar uma olhadinha,é verdade - e, claro, sempre curiando os ensaios técnicos e os barracões a procura das alegorias chiques e quilométricas que andam prometendo. Resumindo, estamos a procura das favoritas e perfeitas de 2009.
Desta forma, surge a primeira indagação: é possível monopolizar a perfeição? Acredito que não. Aliás, seria uma tarefa inglória tentar monopolizar algo que não existe, ainda mais em um universo (entrópico?) como o do carnaval. Entretanto, é bem verdade que o momento da festa vai se aproximando e, tão logo, tratamos de procurá-las e elucidá-las, as perfeitas e virgens imaculadas. De minha parte, entretanto, venho cá nestas linhas não procurar uma favorita, - até porque prefiro a Flora -, mas conversar um pouco sobre essa história de favoritismo prematuro que vez por outra nos ataca sem dó nem piedade. Mas, antes, a pergunta basilar: o que é, no reino do carnaval, uma escola favorita? Sem titubear, respondemos: “Ora, é a escola que tem o barracão mais adiantado lá na Cidade do Samba e, lógico, a que rasgou o chão (rasgou o chão, comeu o asfalto, desfilou com a faca nos dentes ou qualquer outro clichê do gênero) nos ensaios técnicos”. Logo, o ensaio técnico e o barracão acabam sendo a medida de todas as coisas, o “ensaiônomo” e o “barracrônomo” coroam as eleitas.
Ano passado, dias antes de o carnaval chegar às vias de fato, comentava lá na adormecida Coluna Carnavalizando do site Tradição do Samba, a respeito das escolas que entram na avenida campeãs e das que saem da avenida campeãs, sublinhando a importância de só se sacramentar uma opinião mais cristalina a respeito dos favoritismos com o acender das luzes do grande palco, como segue o trecho da antiga coluna:
“Faltando poucos dias para o carnaval dar o ar de sua graça na avenida o quesito barracão tem servido de mote para muitas discussões e especulações características deste período onde a ansiedade beira o pico do Monte Everest. Ao que parece, o julgamento das escolas começa antes mesmo de as mesmas adentrem a avenida e isso de certa forma não deixa de ser uma conseqüência da grande valorização ou da redução do carnaval aos aspectos plásticos, que são, sem sombra de dúvidas, os principais responsáveis pelo encarecimento dos desfiles das escolas de samba e da canalização das atenções por parte das escolas no sentido de atender a esta necessidade tão latente, nem que para isso seja necessária a busca - até na mais longínqua e exótica aldeia perdida no meio do mapa - por investimentos capazes de torná-las mais competitivas, porém menos livres.
Todavia, nesse universo, onde competição pouca é bobagem, onde “as feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, como um dia já disse Vinícius de Moraes, o que é feio e o que é bonito? E está armada a grande confusão carnavalística! Um indivíduo que vai à Cidade do Samba procurando Tarsila do Amaral e encontra Jean-Baptiste Debret certamente voltará copiosamente decepcionado. Mas como classificar a arte carnavalesca, ou qualquer expressão artística, tomando como plataforma os aspectos plásticos se estes são cravejados de subjetividade? Julgar uma expressão artística é uma tarefa que requer muita cautela; ainda mais quando o julgamento parte de uma obra inacabada, como as que estão expostas na Cidade do Samba e que só poderão ser de fato observadas em toda a sua plenitude no dia da apresentação com todas as luzes e composições cênicas (…). A história conta que é bem melhor sair campeã do que entrar campeã” .
Pausa na transcrição para algumas observações. O que disse na coluna dias antes do carnaval acabou se concretizando, já que nele vimos fatos que se chocaram com as profecias do barracão, como, por exemplo, a Portela, que era a eterna atrasada (línguas foram mordidas, inclusive) e, no entanto, fez bonito na apresentação oficial, ao passo que outras belíssimas, afortunadas e adiantadas escolas do high society – sim, estou falando da belíssima Vila Isabel – sequer beliscaram uma vaga no desfile das campeãs. No caso dos ensaios, alguém lembra do ensaio-arrasa-quarteirão que a Viradouro fez ano passado? Assim sendo, tanto o barracão da Portela quanto o ensaio da Viradouro provaram que o jogo (o jogo) só termina quando acaba (lê-se quando os jurados decidem) e de que é bem melhor sair da avenida campeã do que entrar campeã, como já se viu em tantos outros momentos da história do carnaval carioca. Quem não lembra da suntuosidade da Imperatriz em 96, que lutava pelo tricampeonato e foi destronada pela Mocidade? E da própria Mocidade, por sua vez, que entrou na avenida, em 93, com um salto plataforma – Castor achando que tinha sido injustiçado no ano anterior e, portanto, mordido - e foi tragado por um Ita arrebatador? Logo, apontar favoritismo é um convite ao equivoco, mesmo que hoje a Beija-Flor seja favorita até pra ganhar aquele bingo de quermesse que está havendo logo ali na pracinha…
Falando em Beija-Flor, surge um importante ponto, o critério de julgamento dos desfiles, que sempre nos deixa com uma tremenda pulga atrás da orelha. Como pincelei lá nas primeiras linhas, a Beija-Flor atualmente parece possuir o monopólio da perfeição - está “além das estrelas, no monte de Zeus, horizonte de meu Deus” - não porque de fato o tenha, logicamente, mas pela crosta que se cria em torno de sua marca, que, de fato, possui uma estrutura exemplar, sendo uma referência quando se fala em preservação do chão. Com efeito, o impressionante e inigualável canto parece abafar todo e qualquer problema que por ventura venha a surgir nos demais quesitos. E de fato isso é compreensível, pois o engajamento do componente calcifica o conjunto. Todavia, este tal conjunto fortalecido será a medida de todas as coisas? Partindo desse pressuposto, e guardados os devidos exageros deste que vos fala, uma escola que adentrar o grande palco da Sapucaí, rasgando o chão e cantando a plenos pulmões o clássico “Beijinho Doce”, imortalizado por Flora e Donatela, será perdoada por todos os pontos falhos no que compreende a qualidade da letra e a melodia de seu hino enquanto o Império Serrano, vindo do acesso, teria seu samba mal avaliado?
Se a comunidade canta, ótimo, perfeito; estamos mesmo precisando de desfiles mais participativos e pulsantes e a Beija-Flor é importante por trazer ao foco a necessidade de olhar para seu quintal. Todavia, a qualidade musical, a qualidade de enredo, a qualidade da comissão de frente devem ser excomungados pelo canto que tudo engole? Antes que pensem “nossa, mas não era você que lamentava a falta de emoção nesta década na coluna passada?” não estou enaltecendo a técnica perfeita, até mesmo por ela ser fantasiosa e, sobretudo, por aqui sempre enfatizar a falta de emoção nos desfiles; contudo, já que estamos em uma competição acima de tudo, - sim, é a isso mesmo que se resume o carnaval de hoje, uma competição ácida - que ela seja justa, feita analisando as entranhas de cada escola, sem favoritismos, sem deixar passar enredos patrocinados mal amarrados, sem fechar os olhos para periquitos de asa quebrada, sem ignorar onças que atacam o público das arquibancadas, certo? Esperemos o carnaval.
Criticar julgamento de desfile é mais velho que andar pra frente. De fato não é de hoje que clamamos por um julgamento mais coerente e sensato, mesmo que o ato de julgar seja bastante complicado e, sobretudo subjetivo tanto para nós, que elegemos as favoritas somente tendo como base os inacabados trabalhos no barracão ou os ensaios técnicos, quanto para eles, os jurados e seus,digamos,maleáveis critérios de julgamento, responsáveis por um rosário de lamentos na quarta-feira…
17 de Janeiro de 2009 @ 01:27
Muito bom o texto, como de costume.
Eu, em particular, nunca fico julgando antes da hora: primeiro porque não gosto de ver protótipos de fantasias e alegorias para não estragar a surpresa (ok, pode não ser lá grande surpresa, mas ir com o manualzinho é chato demais); e segundo porque, mesmo que prefira um samba ou leve comentários em consideração, torço igualmente por todas na hora. Só mesmo na Sapucaí que vemos as coisas se definirem.
A respeito do júri, eu comentei há um tempo em algum lugar sobre isso. É impossível arrumar um julgamento perfeito, por causa desta subjetividade. Tomo sempre como exemplo alguns sambas imortais ou o fato de muita gente preferir totalmente sambas clássicos a alguns atuais. Eu prefiro Imperatriz 2000 a 1989, fazer o quê? Não vi os dois desfiles, mas, pelo CD e pelos áudios ao vivo, o que mais me empolga é o atual (e tenho até justificativas para isso).
Assim sendo, o problema reside na falta de critérios não só no julgamento como na escolha de jurados e nos métodos avaliativos. Só de não ter de comentar o 10 prevemos que há algo de estranho. Agora, quando a Liga diz que o julgamento é comparativo, mas as notas são dadas por DESCONTOS de erros, como tentar entender? O que ocorre é que há uma falsa pretensão de analisar as escolas em seu todo, mas se esquecem de que o Carnaval é a maior das artes pois é diferente a cada centímetro. Assim, como querer tirar 0,1 de parte de ala que não canta?
Mesmo assim: outro problema são os pesos. Se a LIESA quer tanto este perfeccionismo técnico, por mim teríamos uma opção boa: no manual eles colocavam quanto de desconto os jurados dariam por certa falha. Exemplo: samba - melodia falha em 1 verso (0,1); letra repetitiva (0,2); enredo - 1 ala fora do lugar (0,1) etc. Ah, e adicionavam: SÓ SE PODE TIRAR PONTOS POR ESTES FATORES (daí teriam de colocar todos e coisas como ‘a escola não empolgou’ em alegorias, ou ‘faltou alguma coisa’ em conjunto possivelmente não existiriam). Lógico que isso seria deixar tudo ainda mais científico - é melhor termos robôs julgando -, porém teria coerência com a proposta de julgamento e divulgação da Liga e de suas agremiações afiliadas.
Falando em júri, estou fazendo, pelo segundo ano, junto a alguns colegas que também gostam de Carnaval, um júri entre nós, confiável. Caso queira participar ou saber mais, mande-me um e-mail ou comente no blog que te respondo onde achar melhor. E esse tema é tópico para outra postagem, por sinal.
19 de Janeiro de 2009 @ 02:12
Pois é… Muito complicado o ato de julgar, ainda mais quando o objeto avaliado é uma expressão artística como o carnaval, que reúne várias vertentes da arte, a musica, esculturas, histórias, enfim… E no final tem-se que extrair a campeã. Entretanto, um bom caminho seria avaliar a substância em si, e não o seu contexto, a sua marca, a sua potência, ou seja, se estamos avaliando o trabalho Gislaine Cavalcanti que seja ele o avaliado e não a potência de sua escola. Se estivermos avaliando a evolução da Grande Rio, que ela seja feita da forma mais coerente possível… E assim por diante. Somando-se a isso, temos um cursinho pra jurados a portas fechadas, um conclave que só apimenta ainda mais nossas já surradas desconfianças. O nosso ato de julgar as favoritas tomando como base os barracão ou os ensaios é completamente compreensível, haja vista que também faz parte do frisson de pré-carnaval. Contudo, os jurados não podem de forma algum agir como nós, pois suas responsabilidades são bem maiores.
O e-mail que você pediu:
Philip_nascimento@yahoo.com.br