Era de Aquarius…

O ano era 2001, o preâmbulo do novo milênio. Na Grande Rio, Joãosinho Trinta, o eterno profeta do novo, mais uma vez se encarregava de tocar a trombeta, como já havia feito em 76 e 89. Na conjuntura, o bicho papão Imperatriz dava as cartas, a Beija-Flor calcificava o posto de eterna vice - obviamente já demarcando território, pois seria a próxima a dar o bote -, a Grande Rio trazia o velho Trinta, montava seus exércitos, carros e cavaleiros, e cantava uma tal de Era de Aquarius… Estávamos saindo de uma década transformadora, onde a engenharia do carnaval, a aliança para o progresso, deu o tom e marcou o passo de uma era que fez escola nas abençoadas terras do carnaval carioca.
Como em outros momentos, aquela vinda para o novo milênio marcaria um período de transição não somente cronológico, mas, sobretudo, ideológico. “Um caminho sem volta?”, perguntavam-se os mais apocalípticos; “Um mal necessário”, regozijava-se a corte positivista, ao passo em que o concreto edificado do grande palco ia se tornando a gélida metáfora da alma carnavalesca. Naquele romper de novo milênio, olhávamos para trás e víamos completa incompatibilidade de Eras, já que os anos 90 tinham acabado de ser delineado sem trazer em seu âmago o DNA popular do anterior, os anos 80, que por sua vez em nada nos remetia aos anos 70. Logo, analisar aquelas décadas era, sobretudo, analisar um mosaico de incompatibilidades. E imbuídos daquele clima, o que esperar de uma década que, embora estivesse em fase embrionária, já surgia atormentada por fantasmas que foram plantados em sua antecessora? A visão pessimista, inevitavelmente, era a indumentária vedete.
De repente, nove, dois mil e nove, ou quase no ano 2010…
Cruzamos a década. Apesar de ainda faltarem dois carnavais, este que dobra a esquina e o próximo, a primeira década do novo milênio está quase a caminho de ser suplantada. E cá estamos observando, com o mesmo olhar de apreensão de outrora, como se deu o caminhar de um ciclo que está prestes a fitar o firmamento, tomando como mote, para tanto, toda a mística existente em torno do número nove, que em diversas culturas representa um fim e um começo, o coroamento dos esforços, o termino de uma criação. Mas quais os esforços a serem coroados nesta década? Tragam-me uma lupa!
Talvez a Grande Rio do profeta Joãosinho Trinta, lá no início da década, cantasse a Era de Aquarius com razão, anunciando um ciclo que estava por vir: de informação instantânea; de enredos horizontais e, por conseguinte, também instantâneos; de sambas embebidos no puro esplendor do barroco científico, despidos de todo e qualquer lirismo em nome da lógica nua e crua; de escolas que amanhecerem e anoitecerem com O Príncipe sendo a doutrina básica para toda e qualquer ação/motivação; do descompasso entre a tecnologia e os valores humanos, coroados por metrônomos que confundem cadência com velocidade, que implantam o império da razão em meio à paixão; era onde a vil necessidade de mensuração engole tudo o que é criado e tudo o que é criatura…
Na produção musical, reflexos de um tempo onde o samba-enredo adormeceu. Quais sambas destes anos 2000 ficarão no inconsciente coletivo? Talvez o único seja mesmo Mangueira 2002. Porém, enquanto o samba era rechaçado ao segundo plano, nosso passatempo preferido foi mendigar algo vindo da cabeça de Paulo Barros, que por sua vez não consegui domar o fantasma alimentado por ele próprio, acabando deglutido pela própria criatura. Aliás, o ano de 2004 é um capitulo à parte, por trazer para o mesmo palco o confronto entre o passado das reedições e o florescer de uma linguagem contemporânea com a revolução tijucana. Daquele imbróglio, a criatividade foi resumida a busca pelo novo, a descoberta da pólvora, ao escândalo e a ruptura. Certamente reflexos de uma sociedade cada vez mais instantânea, cada vez mais fast food, cada vez mais sanduíche de borracha norte-americano, ao passo em que o poder de reflexão e crítica do carnaval, bem como o banho de cultura que sempre lhe foi salutar foram alijados por um conceito estilístico comunicativo, é verdade, mas raso, oco de significado e, sobretudo, de carga emotiva.
A esta altura do campeonato, você deve estar questionando o tom apocalíptico. Todavia, posta na balança, a trajetória do carnaval nesta década não é nada satisfatória no que compreende o lado humano que,mesmo que uns não queiram, é a matriz da festa. Sob este aspecto, não há coroamento dos esforços, como pede a mística do número nove. Coroar-se-ão práticas desmedidas de canalizar patrocínio, eterno algoz de enredos e sambas? Ou a relutância das escolas em preservarem suas singularidades? O término desta criação é uma obra inacabada, pois o primeiro contato com o novo milênio revelou uma grande lacuna, fundamentada, obviamente, no natural e inevitável período de transição pelo qual passamos, mas, sobretudo, potencializada no êxtase técnico e colapso ético, fios condutores deste ciclo.
Mas,enquanto a década não termina, voltemos à Grande Rio 2001, aquela do profeta Joãosinho Trinta e sua Era de Aquarius… Ainda precisamos buscar o outro lado desta Era, o que afirma sermos não vítimas, mas co-criadores e, portanto, responsáveis pelos rumos desta história de fato emoldurada por nós, pés mãos e corações do carnaval. Pois que este nove que se inicia seja o fim e o começo. Deixa clarear…
Feliz 2009!
8 de Janeiro de 2009 @ 04:19
Muito bom o texto, ainda que traga uma visão bem pessimista da qual eu - talvez por só ter vivenciado esta década no Carnaval - discordo em alguns pontos (principalmente na questão dos sambas; que já não marcam desde a década de 80), mas há dois pontos a serem ressaltados:
# A menção ao desfile da Grande Rio em 2001 é magnânime. Adorei este desfile - foi das minhas primeiras lembranças - e ele, curiosamente, traz algumas coisas: primeiro, talvez tenha sido a última passagem da agremiação de Caxias com sucesso de resultado, simpatia do público e do sambista-comum, e sem desconfianças. Segundo, talvez tenha sido o último grande trabalho de João (o da Vila considero bom, ótimo dadas as circunstâncias; e o de 2003 bonzinho), o último grande mestre a desafiar as normas que sobrara (e não trago à tona, com este comentário, se Lage, Rosa ou Laíla e sua comissão são magistrais ou não). Por fim, é dos últimos desfiles com o raiar do Sol. E o verso “Deixa clarear” diz muito hoje, quando o grande trunfo apontado por cronistas (e pela própria LIESA) da eficência desta é o fato de os desfiles começarem na hora, acabando com aquela aurora ao som de tamborins e cuícas.
# A questão de Paulo Barros é ainda mais complexa que analisar os rumos por trás da organização do Carnaval. Não só o Carnaval, não é só atualmente (ou por causa do fast-food necessariamente) que a arte tende a seguir um padrão. O próprio estudo da literatura brasileira dá-se em forma de zigue-zague com padrões estilísticos que duram certo tempo até que se esgotam e o padrão seguinte vem questionando-o e resgatando as coisas boas do antecessor de todos eles. Oras, a fórmula de sucesso de PB (que muito me agradou em 04-05-07) foi copiada, todavia o samba já vinha neste estilo desde o sucesso do Ita e o desfile técnico desde a Imperatriz. A questão é que tudo tornou-se rapidamente cansativo e não surgiu ninguém para questionar ou propor novos modelos com sucesso (Milton Cunha, que é uma voz pensante e inteligente, acaba falhando no seu momento e sambas como o ‘Menina quem foi teu mestre’ do Salgueiro 09 cortados antes da hora). Temos de pensar o porquê de esta fórmula ter se esgotado tão rapidamente e, ao mesmo tempo, de que formas pode-se mudar o panorama de um futuro insípido. Não creio que ela seja tão ruim assim, o problema foi a banalização. Dentro dela, há sim bons desfiles e sambas; acontece que, como ocorre muita igualdade, pois as escolas parecem ter medo de ousar ou questionar, pode-se achar tudo um saco e fica até difícil julgar (talvez daí a necessidade de metrônomos e mil-e-uma justificativas técnicas).
9 de Janeiro de 2009 @ 00:32
Observações bastante válidas.
Em verdade, não daria para explorar todos os pormenores da atual conjuntura, já que para o mesmo problema não existe somente um viés, mas um sem-número. Poderia ser observado o lado sociológico, o artístico, o econômico, o competitivo… E cada um destes apontaria uma perspectiva singular. Ademais, a década ainda nem acabou e a história revela que basta um ano, um desfile, pra a dinâmica mudar radicalmente, vide 76.
Sim, a literatura brasileira tem esta característica perfeitamente apontada por você, até mesmo porque demorou a ser 100% brasileira, ficando refém de uma literatura importada, ou seja, germinava aqui o espelho de além-mar. E veja que, mesmo quando a identidade própria surgiu, em meados dos anos 20, passou a ser buscada por influências das vanguardas européias (dadaísmo, cubismo, futurismo… e toda a trupe que deu o empurrãozinho do modernismo brasileiro), que por sua vez tinham um caráter de “se acharem” e de acreditarem piamente na existência de um evolucionismo artístico,quando,na verdade, não há. Aplicando este conceito ao carnaval, o que Barros hoje promove não é uma evolução do que Pamplona fez, pois ambos são expoentes de dois conceitos estilísticos que podem perfeitamente conviverem, certo? Estamos tão serelepes que preferimos admirar uma pista de esqui, afinal, é uma coisa nunca antes vista? Esta busca pelo novo, chocante e escandaloso, - assim como os movimentos de vanguarda supracitados - é que ainda atua de forma bastante torta no carnaval. Por isso, amigo, é que prefiro ver como um período de transição, como uma obra inacabada, já que se o carnaval está confuso é sinal de que nós também estamos. E vai aí uma dose homeopática de sociologia… O tal do sanduíche de borracha norte americano.. rs…rs..rs
Sobre os sambas, tens toda razão ao afirmar que isso não é fruto desta década.
Mas, voltando, o que percebo é que de certa forma a linguagem que ganhou espaço nesta década – a chamada instantânea e de fácil leitura - no fundo tem este caráter de “se achar” a evolução do modelo artístico carnavalesco. O último grito. E, como disse na coluna, as escolas, como sabem de cor todas as páginas de “O Príncipe”, vão atrás deste modelo pela competitividade nem que,para tanto, guardem sua identidade no fundo da gaveta. Sim, a arte segue um padrão momentâneo, mas as escolas de samba, aliás, o carnaval como um todo, tem como premissa básica a diversidade, coisa que nesta década ficou faltando.
Estão excelentes suas análises dos enredos. Estou lendo tudo!
Abraço!