Do Latim Natális…Com Olhos de Criança
Lá se vem Natal… Lá se vem Carnaval… E nós, sempre inquietos, a retrucar: “E o espírito, não vem também?” Eis o mistério da fé! O espírito natalino parece ter se aliado ao carnavalesco e, juntos, tomaram o caminho da roça, ou foram estudar a geologia dos campos-santos, como diria o velho Machado. E se hoje lamentamos a carência de um carnaval mais pulsante, o que dizer, então, dos natais cada vez mais regados a cartões de crédito? O que dizer de carnavais assassinos de sonhos, feito aquelas histórias mal-assombradas de Edgar Allan Poe, quando deveriam ser a substância-mor, a condição sine qua non da folia? Tudo isso só vem comprovar o alto grau de desumanização em que estão submersas as sociedades ditas modernas, que não conseguem comungar aparelho-presente-parafernália de última geração com o verdadeiro ideal natalino ou, em nosso emplumado caso, de aliar o dinheiro na mão ao samba no pé.
Todavia, mesmo ocos de sentido e desprovidos de espírito natalino ou carnavalesco, seguimos fantasiosos e fantasiados, sempre esperando que os ratos e urubus larguem nossas fantasias, afinal, a grande engrenagem, mesmo desalmada e frívola, tem que prosseguir. Logo, só nos resta procurar no fundo da gaveta aquela velha e já surrada indumentária infantil, que sempre vem à tona em épocas de natal, juntamente com nossas aleivosias, pois vislumbrar a vida com olhos de criança nos faz uma cirurgia plástica na alma de folião já um tanto quanto envelhecida. Mas quem sabe isso não passe de ingenuidade nossa, já que não temos mais idade para tamanha asneira. Ou temos? Ora pílulas, vamos à missiva:
Prezado Papai Noel, não quero importuná-lo, longe de mim. Sei que deves estar bastante atordoado com tantos pedidos que aparecem ao sabor do vento nesta época. Entretanto gostaria, mesmo assim, de ter um dedo de prosa com o senhor, que muitos dizem ser um sujeito bacana, um cara safo, boa praça, honesto, trabalhador, cumpridor de seus deveres, pagador de seus impostos, respeitador das instituições e que merece, no juízo final, ser contemplado com um fusção preto daqueles que Paulo Barros utilizou em um de seus carnavais…
Dizem alguns mais conformados - sempre os há -, que de nada adianta desesperar-se, cortar os pulsos, uivar despido nas cumeeiras dos telhados, porque tudo vai passar feito uma febre, porque depois da tempestade vem a bonança e não há mal que sempre dure, pois a vida é assim mesmo, cheia de altos e baixos. Até aí tudo bem. Porém, nobre velhinho, a pergunta basilar: Até quando? Até quando assistiremos a tudo calados, alimentando apenas nossas frustrações com esse caminhar esganiçado e cambaleante do carnaval? Não, não estou sendo malcriado e desmerecedor de um presentinho neste natal, mas o carnaval que atormenta ao invés de alegrar bem que merecia uma sapatada semelhante àquela que Darth Vader, digo, George Bush quase levou, você não acha?
Mas, na medida em que o pão de nossas queridas escolas de samba foi caindo com o lado da manteiga virado para baixo e em cima do cocô do cachorro, você foi desaparecendo, querido Papai Noel. Seria apenas coincidência ou má vontade de sua parte? Tudo bem, eu sei que estamos passando por uma crise mundial sem precedentes, de arrepiar até os cabelos do finado Adam Smith e que seu famoso saco este ano será diminuto. Mas será que é tão difícil assim para o senhor, dono de uma fábrica de sonhos, presentear-nos com um bom carnaval? Não entendo o motivo que levou o senhor a sumir dessas terras, já que ultimamente a Sapucaí possui um clima semelhante ao Pólo Norte, não havendo, portanto, o que temer. A verdade é que vens furando nosso acordo e esquecendo constantemente de aparecer cá por essas bandas para atender aos pedidos dos habitantes do Reino Carnivale, que clamam tão somente por um puro e genuíno carnaval, que seja menos Bush e Madonna e mais Pierrô e Colombina, legitimando, assim, juntamente com Ciata e outros bambas, nossa matriz energética, que é um pouco axé, um pouco caravela e um pouco cocar.

Ah, sim, ia me esquecendo, Feliz Natal!