A Ambigüidade de Capitu,A Insegurança de Bentinho

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Teria sido Capitu culpada de adultério?
E Olorum, mandou ou não ir buscar na mata o biocombustível?
Estas e outras indagações, senhores leitores, levaremos para o túmulo, correto? Quem concorda comigo certamente toma minha afirmação como verdadeira. Quem não concorda, entretanto, tem a pretensão de suplantar o enigma criado por Machado e, ao mesmo tempo, esclarecer de uma vez por todas a verdadeira ordem de Olorum,entidade suprema. E assim brincamos de alimentar verdades, esquecendo o alto grau de subjetivismo presente em nosso discurso. Isso, aliás, é a tônica de “Dom Casmurro”, onde Machado, de forma genial, faz com que não acreditemos plenamente no próprio narrador. O fato é que tais questionamentos levam em consideração o imaginário, a realidade e, claro, a ficção.

O conflito traçado por Machado de Assis em sua obra “Dom Casmurro”, além de uma contribuição inconteste no engrandecimento das páginas da literatura brasileira, mostra-se cada vez mais atual se por um instante nos desprendermos do dilema presente na existência ou não de um adultério e observarmos a modernidade machadiana ao deixar transparecer, através de Bentinho, o epicentro de nossas próprias incertezas que, ao adentrarem num mundo real e objetivo, se vêem distantes do idealismo romântico incrustado de excentricidades, como evidencia Casmurro atormentado pelo fantasma da suposta traição que ensejava os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” de Capitu.

Mais de 100 anos após a publicação da obra-prima, cá estamos, inseridos em um habitat que não se apresenta distinto do elucidado por Machado, o que acaba fazendo com que haja um diálogo entre a obra do Velho Bruxo e nossas próprias inseguranças carnavalescas que, de fato, não são poucas e cada vez mais potencializadas. Assim sendo, é muito mais cômodo e prático, lendo “Dom Casmurro”, focar simplesmente na possível traição de Capitu a ter que observar a complexidade psicológica traçada por Machado em sua obra, da mesma forma que parece ser bem mais prazeroso discutir, pelos séculos-amém, se Olorum – ser abstrato - mandou ou não ir buscar na mata o tal combustível de origem biológica semeador da discórdia, quando,na verdade, a discussão-chave deveria estar centrada no ainda intragável casamento entre samba e patrocínio, matriz de um sem-número de conflitos que, vez por outra, assombram esse reino.

Sim,um século depois, caminhamos entre a insegurança de Bentinho e a ambigüidade de Capitu, da mesma forma que, paralelamente, nossas escolas cambaleiam na linha tênue entre a virtude cândida e a virtude momentaneamente confortável e eficaz, sendo está última, quase sempre, o gene dominante.

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