Nostalgia pra que te quero…

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No processo dinâmico e continuado do carnaval, somos quase que involuntariamente entranhados de esperança a cada ano, a cada ciclo pré-carnavalesco que se inicia. Embora calejados pelos cataclismos que chegam na velocidade da luz e responsáveis por um fardo pesado de um povo sofredor, somos imbuídos de um feroz e inabalável sentimento de que um dia tudo voltará a ter o mesmo esplendor e charme de outrora, corroborando a jurisprudência quando esta reitera a cada segundo que as “aves” que hoje gorjeiam não gorjeiam como antes.

Todavia, o ciclo vai se desenrolando e nossa bolha ideológica vai sendo violentamente estourada com requintes de crueldade pelo choque de realidade provocado por enredos e, sobretudo, por sambas aquém de nossas expectativas, que se estribam em glórias do passado. E, uma vez desprovidos da tal bolha, ficamos nus e desamparados, encontrando na nostalgia o único refúgio, agasalho, consolo. É assim que hoje caminhamos, entorpecidos pelo passado de glórias e, assim, também, formatamos nossa plataforma de apoio para que, a partir dela, possa ser feita a polarização, o velho confronto entre a tradição versus a modernidade, que norteia nossa filosofia de botequim. Mas até que ponto a memória afetiva e a fixação quase que perpétua de nossas bases mentais no passado e em seu infalível modelo de virtude pode ser benéfica para a construção de folias futuras?

Obviamente que o modelo-choque-de-realidade que hoje vigora é deveras questionável quando escapa da matriz carnavalesca enquanto substância popular e a leva para uma atmosfera algoz de nossas românticas expectativas. Sobre isso não há o que retrucar. Entretanto não podemos tão-somente inflamar um sentimento saudosista extremado, em todo o esplendor de seu jeito Pamplona de ser, e esquecer de que o futuro existe para ser edificado, a fim de que possa ser revertido em um passado que também possa contribuir para o engrandecimento das páginas da cultura popular brasileira, através de enredos, sambas e momentos que possam fazer parte do imaginário popular e, assim, juntar-se a tantos outros ainda vivos na memória. Não acredito que esta capacidade tenha sido perdida. Pode estar abafada pelo insólito, mas não extinta.

Império Serrano cantará na Avenida uma obra referendada pela crítica especializada e pelo senso comum como a melhor do ano. Entretanto, ao invés disso servir como estímulo para que mais preciosidades como aquela sejam produzidas, serve apenas para tecermos comentários melancólicos e lamentosos sobre os áureos tempos em que samba era samba…Ora, a parca sutiliza artística em sugerir poeticamente a idéia do enredo é, sim, a condição sine qua non ao avesso, aliado ao medo de ser menos competitiva sendo mais sugestiva no tocante à narrativa. É preciso cultivar a nostalgia que regue nossas idéias na construção de um futuro delicioso passado, e não a nostalgia conformista, aquela que asfixia todo e qualquer sinal de vida possível de germinar.

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