Sambando com o Lehman Brothers…

É bem verdade que Mercado Financeiro e Escola de Samba estão em quadrados diametralmente opostos. É bem verdade também que assim deveriam permanecer pelos séculos-amém. No entanto, a aldeia carnavalesca em algumas ocasiões vem adotando uma postura bastante similar ao frenético e descompassado mercado em pauta e seu constante, porém inevitável, mundo de especulações sem fim, que trazem consigo um maior ou menor grau de confiança. E, nos últimos dias, um verdadeiro apocalipse foi proclamado aos quatro cantos com o esfacelamento do Lehman Brothers, um gigante americano de 158 anos que atravessara o século carregando o honroso título de sobrevivente da devastadora Crise de 1929. Mas Inês é morta.
Paralelamente, enquanto as bolsas do mundo inteiro sentiam na pele os efeitos da pulverização do Lehman, com Bush desconversando e Osama soltando confete e serpentina, a Mocidade Independente via o valor de mercado de suas ações despencarem vertiginosamente, impulsionado pelo burburinho oriundo do suposto desligamento de Fábio de Mello das terras de Padre Miguel. Antes, a escola já havia protagonizado um grande “fuzuê” na ocasião do lançamento de sua nebulosa sinopse de enredo, fato que também teve valor inconteste no processo de “desvalorização de suas ações” no mercado já saturado. E essa instabilidade quase crônica não se restringe somente aos limites da verde-e-branco de Padre Miguel, já que fato semelhante já havia ocorrido com a Mangueira, e nesta sim as especulações foram mais além, chegando às vias de fato e culminando com o fim de um vitorioso casamento entre Carlinhos de Jesus e a verde-e-rosa, que já andava com suas ações em queda livre.
Ora, em verdade, o carnaval que é apresentado hoje se restringe ao “primado do visual” e, tomando isso como um princípio norteador, as escolas deveriam buscar um olhar mais vaidoso, introspectivo e crítico, objetivando assim, através de um sério processo de construção ou reestruturação se for o caso, a transmissão de uma imagem de “família feliz” e bem estruturada, no estilo comercial de margarina. Entretanto, não é isso que se observa em determinadas escolas - destacando as supracitadas -, que muitas vezes transmitem um leve ar de “Casa da Mãe Joana”. Obviamente que cada uma sabe onde o calo aperta, mas o fato é que constantes turbulências e viradas de mesa resultantes de momentos instáveis que se prolongam além da conta acabam prejudicando a credibilidade e a confiança em algumas escolas e, sob este aspecto, a Mocidade é, por inúmeros motivos, o principal expoente e não se vê uma “força-tarefa” no sentido de mudar este cenário turvo em demasia.
No caso do Lehman, AIG e toda a trupe, o governo americano sacrifica o já combalido contribuinte, faz estatizações, cria o “bolsa-banqueiro” e, assim, varre toda a sujeira para debaixo do tapete; entretanto, por essas bandas não há “PAC do Samba” que dê jeito, uma vez que o problema é, antes de tudo, falta de decoro carnavalesco.