A vossa majestade o Samba, pede passagem!

Estamos vivenciando um dos momentos mais chamativos do carnaval, que são as escolhas dos hinos que as escolas de samba levarão para a Sapucaí. Observando as safras de samba, uma chama a atenção pela presença de um samba na Acadêmicos do Salgueiro. Assinam a composição Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso, e Bené do Salgueiro. Com caráter poético-descritivo, o samba agrada também pela versatilidade de sua melodia, e é um samba que nos remete aos áureos tempos em que surgiram antológicos sambas, da mesma linhagem nobre de “Aquarela do Brasil”, “Bumbum paticumbum prugurundum”, “Lendas e mistérios da Amazônia”, “Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós” e outros mais. O Enredo Tambor, de Renato Lage, é canditatíssimo a Estandarte de Ouro, “carnavalizável” ao extremo, e a prova real da sua magnitude é que resultou na melhor safra de sambas compostos para o carnaval do ano vindouro, segundo a opinião de muitos internautas espalhados pelos Fóruns de carnaval.
O samba supracitado tem o “encanto” e a magia tão presente no enredo, e os compositores realmente conseguiram absorver a essência, tudo que estava intrínseco ou nas entrelinhas do texto original, ou seja, abriram todos os leques que o enredo proporciona. Eu diria que foram até mais além: conseguiram vislumbrar e concretizar em novos versos todos os matizes do enredo, musicaram o que Lage copiosamente versou, conseguiram fazer uma obra-prima em cima do que já era notável. Passeando pelos versos desta composição, adentramos no universo tribal, místico, assim como aportamos em acontecimentos essencialmente palpáveis, em que o tambor é parte indispensável. Degustando paulatinamente as partes do samba, ou mesmo “mastigando” tais versos, automaticamente nos arremetem fazendo alçar um alto e livre vôo, indo e vindo pelas “mãos” do tempo, das diversas formas de congraçamento ou manifestações esboçadas pelo homem em seus diversos momentos e o mais interessante: Sem se perder as coordenadas, entre o real e o imaginário, criando elos, que claramente despertam e nos levam a observar a genialidade do autor do enredo e o toque sutil dos compositores que nos brindaram com um dos melhores sambas que já apareceram nos últimos tempos.
Comecemos a exaltar a letra deste samba concorrente com os versos do refrão principal ou final:
“Menina quem foi teu Mestre?
Um batuqueiro
Que arrastava
O povo do Salgueiro”
Neste chamado refrão de resposta, uma tendência que cresce a cada ano, composta por três versos apenas, onde a sutileza é visível, a palavra “Menina” está no sentido figurado e quem lê à primeira vista não entende, mas a mesma representa justamente a bateria da escola e o Mestre, é nada mais, nada menos, que o saudoso Mestre Louro, falecido recentemente, que fez história e esbanjou técnica e conhecimento enquanto esteve à frente da “Furiosa”. A “cabeça” do samba é formidável, assim como toda a primeira parte dele. Ali os compositores nos levam a mergulhar na ancestralidade, que mostra como o homem começou a usar os tambores para expressar seu estado de espírito, as tristezas e dores, vitórias, alegrias e rituais que eram acompanhadas por toques de tambores, que ajudavam a dar o tom peculiar, celebrativo às cerimônias. Precedendo a tudo isso, houve os que enfrentaram os perigos das matas e florestas para extraírem a madeira e as feras para tirarem o couro, e esta junção deu forma aos tambores na antiguidade. Observem o capricho e o talento para descrever esta “façanha”:
“Canto uma herança, da humanidade, primordial
De árvores tombadas um tom grave,
Deu a cadência original,
A idéia de um gênio anônimo,
Meu ancestral
Caçador que na mata uma fera enfrentou
Quando sua vitória quis anunciar
Pôs o couro esticado, bateu repicou
Ôô ôô, ôô ôô”
O refrão central faz alusão ainda a cultos ancestrais, os cantos e danças tribais, tradicionais e perpetuados, segundo os costumes de cada povo ou raça. A melodia ali é nostálgica, agradável, onde a música casa perfeitamente com o que afirma a letra, sabiamente mantida em tom menor, fazendo adequadamente a ligação com a segunda parte do samba, e aqui já se pode ver descrito os vários tipos de tambores com o passar dos anos, e apesar de vir após o refrão, os compositores optaram por um ”bis”, que poderia se tornar exaustivo e causar uma “queda” no samba, mas sendo este composto de versos fortes, não tirou o brilho do samba, e novamente há um bom trocadilho interrogativo, vejam:
“…Festa na aldeia,
Lua cheia, um clarão
Tem batuque a noite inteira
É magia, adoração
De ocidente a oriente
Em diferentes formas se multiplicou
Qual é o povo
Que não bate o seu tambor?”
A segunda parte foge à regra, que comumente é maçante, e aqui é o “cheque-mate” da composição, pois, chega-se ao Brasil, decantando a vinda dos negros que trouxeram o “batuque”, a cultura, inculturou-se, germinou, cresceu, floriu e deu samba, como um dos seus maiores frutos. E contrapondo positivamente, exalta o samba e o carnaval como fator de inclusão e personifica a identidade cultural do Brasil, e os dois últimos versos retratam de forma sensacional, a famosa bateria da escola, apelidada carinhosamente como “Furiosa”.
Um samba legítimo em sua totalidade, que vem sendo aclamado pelos diversos apreciadores do gênero samba-enredo. Basta visitar-se os principais sites e fóruns de carnaval. Como nem tudo é perfeito, especulações dão conta, que o samba em suas apresentações, não vem alcançando entrosamento com a Bateria. Rhichahs é o intérprete escolhido para defender o suntuoso samba. Espera-se que se torne possível um ajuste e que os examinadores possam avaliar e condecorar com a vitória esta verdadeira pérola, permitindo que embale a Academia do Samba na segunda-feira do carnaval carioca.
Confira uma das apresentações do Samba 06 na quadra salgueirense em 30/08:
13 de Setembro de 2008 @ 06:39
Cecel, valeu a força dada ao samba. Tua leitura é perfeita. Quero apenas te dizer que nas nossas duas últimas passagens o samba casou tranquilamente com a bateria do mestre Marcão, fato ressaltado, inclusive, por membros da própria Furiosa. Vamos que vamos. Abraço
Simas
13 de Setembro de 2008 @ 22:53
Olha…Parabéns pela análise.
Estou bestificado com a sua sensibilidade.
Abraço!
15 de Setembro de 2008 @ 23:23
Nada que agradecer Simas, isso é o mínimo que eu poderia ofertar, frente a essa composição. Sucesso!
Phil obrigado!
Abs à todos.