República dos Estados Unidos do Sassarico

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Sete de setembro entra, sete de setembro sai e sempre o real valor dessa tal independência proclamada a plenos pulmões por D Pedro I montado num jegue, como sugere a história não oficial e o enredo de Rosa Magalhães em 95, é colocada na berlinda. E, de lá pra cá, já raiou a liberdade no horizonte deste Brasil das profundezas do Pré-Sal? Enquanto a certeza da duvida paira no ar, segue a brava gente brasileira fantasiosa e fantasiada, esperando que os ratos e urubus larguem suas fantasias, no melhor estilo Macunaíma, que “tremia que mais tremia e o urubu fazendo necessidade em riba dele”.

Na cultura, o tema da liberdade nacional sempre chamou a atenção de diversos artistas desde o longínquo período colonial. O Romantismo talvez tenha sido o primeiro movimento que debateu de forma intensiva a questão em torno dele. Mas tarde, no século XX, ela foi retomada e aprofundada por Oswald de Andrade e toda a trupe modernista:

O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem:
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu:
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval…

E uma vez feito, o carnaval, a pátria do confete e da serpentina que traz em seu DNA um pouco de axé, de caravela e de cocar, transformou-se na grande e contraditória República do Estados Unidos do Sassarico,um exótico lugarejo que parece refletir as práticas comumente observadas na história da pátria que lhe pariu,cheia de ricas e incoerentes fidalguias tentando frear um povo e obcecada com títulos de nobreza,com acúmulo de riquezas bem como a promoção atroz de uma cultura de enfeite,sem sentido e completamente descontextualizada.

No campo da literatura, a Republica dos Estados Unidos do Sassarico é detentora de um panteão de escritores de sinopse de enredo, mas estes muitas vezes estão mais preocupados em desenvolver uma literatura erudita e acadêmica, que em muito afasta-se da linguagem oral e popular. Tal linguagem, de uns tempos pra cá, assumiu um caráter postiço que lhe é inconfundível. São os escritores deste pitoresco lugarejo guiados por idéias preconcebidas e em momento algum se preocupam em lançar as vistas sobre outras idéias, estando sempre presos a uma fórmula, que embora inútil e que nada venha a significar, é defendida e repetida pela grande maioria das províncias que compõem esta grande federação momesca.

A sociedade sassariquense,sob alguns aspectos, parece não possuir memória, tampouco tradição. Os nomes que formam a sociedade são esquecidos de trinta em trinta anos. Nos salões da pátria, onde intrigas políticas ou frivolidades imperam, não surgiu mais nenhum “Heróis da Liberdade”, nenhum “Aquarela Brasileira”, e o tédio é uma constante. O teatro, arte de sociedade e gente rica, exige indivíduos de grande envergadura e pompa, não havendo uma “centenária maravilha” popular.

E o que dizer então da Constituição sassariquense? Naquelas terras existe uma enraizada relação de dependência entre dominado e dominador. Sonhar o dominado em ser como o dominador é o grande segredo da dominação. O conjunto de normas que regem a pátria do confete e da serpentina é por demais absolutista e só favorece o clã que lhe concebeu. A população continua a ser um brinquedo. Não obstante, uma lesga nação vizinha, ao invés de desenvolver leis balizadas em sua realidade, copiou o modelo constitucional, a Carta Magna sassariquense, cuja realidade é diferentemente abissal. Os constituintes deste país vizinho não se preocuparam em debater amplamente qual o modelo mais adequando para o seu país e, mais uma vez, buscaram no exterior os seus valores, já que tudo o que vem de fora é sempre melhor. A Constituição brasileira possui traços que em muito se assemelha a do vizinho da Republica dos Estados Unidos do Sassarico no tocante a este aspecto, que é de uma criatividade sem palavras.

A Republica já possuiu quatorze províncias, mas hoje se resume a somente doze. Dente as remanescentes, uma chama atenção por ser a mais modelar dente todas a províncias. Ela é sempre vista como presunçosa e vaidosa, seus artistas consideram-se os melhores, porém suas maiores obras são como se fossem meras reproduções de Da Vinci, Rembrandt, ou Michelangelo. O povo pretensiosamente considera a província semelhante a uma capital européia. Entretanto, seu pior mal é a ampla valorização do capital, não havendo muitas vezes independência ou liberdade de pensamento, ficando a brutalidade do dinheiro a asfixiar e embrutecer as inteligências do lugar. As leis consuetudinárias não são seguidas nesta província, e caem cada vez mais em desuso. Desta forma, ele é considerada um modelo, um retrato de toda a Republica dos Estados Unidos do Sassarico que, assim como nessas terras onde canta o sabiá, possui independência questionável, presa a grilhões de toda natureza.

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