O Carnaval Empresarial

Houve uma época em que se fazia carnaval por amor. E, para falar a verdade, ainda existem pessoas assim. Raras, mas existem. Os tempos mudaram, a profissionalização é uma realidade, mas ainda existem pessoas e entidades que não conseguem acompanhar este ritmo, hoje alucinante, de mudança.

Este movimento começou com força na década de setenta com os carnavalescos. Joãosinho Trinta foi um dos primeiros. Depois de ser bicampeão pelo Salgueiro, foi para a então desconhecida Beija-Flor e fez história. Depois os intérpretes. Em 1984, a mais significativa e impensável troca naquela época: Império Serrano, União da Ilha e Mocidade Independente apostaram nas vozes marcantes de cada um e, tirando o nono lugar da Ilha, as outras até que não fizeram feio: Império em terceiro e Mocidade em quarto. Mas a interpretação de Aroldo Melodia está até hoje na minha memória. O samba tinha a cara dele e o refrão do meio do enredo da Mocidade (Mamãe eu Quero Manaus) mais ainda: “Tem muamba / Cordão de ouro, chapéu, anel de bamba / Bagulho bom é no terreiro e no meu samba”. No ano seguinte tudo voltou como era e a Mocidade se sagrou campeã. Depois dos intérpretes, os diretores de bateria, mestre-sala e porta-bandeira, etc…

A entrada da televisão foi fundamental para que isso acontecesse porque engrandeceu o espetáculo. Os dirigentes das escolas perceberam isso. Antes não havia Liesa e todos eram filiados a Associação das Escolas de Samba, que geria o negócio e conseqüentemente os contratos com televisão, rádio, gravadora, venda de ingressos e publicidades, além de escolher os jurados sem dar as escolas, poder de veto. Praticamente não havia concorrência. A Globo levava a transmissão e a gravadora Top Tape os direitos para gravar o disco. Os dirigentes começaram a questionar os valores até então pagos e queriam uma fatia maior do bolo. Como a Associação ficou irredutível, não havia outro caminho que hoje se sabe muito bem qual foi que foi a criação da Liesa. Num primeiro momento, esta nova postura das grandes escolas dissidentes foi entendida como arrogância dos então presidentes, visando única e exclusivamente o lucro. Mas hoje sabemos que não foi bem assim.

De cara, a Liga duplicou seu faturamento com a transmissão pela televisão e, atendendo a um pedido delas, os desfiles começaram a ser feitos em dois dias. Pela primeira vez, depois de anos, o carnaval seria transmitido por duas emissoras privadas (a TVE, que era estatal, transmitia também), que pagavam o mesmo valor ou equivalente. Rede Globo e Manchete travaram alguns anos lutas para segurar sua audiência. As emissoras investiram nos comentaristas, e quem ganhou com tudo isso foi o público. Quem não se lembra de Fernando Pamplona, Mestre Marçal, Albino Pinheiro e outros nas memoráveis transmissões da Manchete? Sem falar em Sérgio Cabral, Maria Augusta, Leci Brandão, Jorge Aragão e outros na Globo. Foram bons anos. E não falo isso por saudosismo, não. Além das televisões, a Liesa reviu os contratos de publicidade e os preços dos ingressos, em parceria com a Riotur. A arrecadação aumentou e as escolas puderam fazer carnavais mais ousados e mais iguais, pois a intenção era de que com essa verba os desfiles fossem mais luxuosos para todas. Hoje, a Liesa é uma empresa que arrecada perto de cinqüenta milhões de reais. Convenhamos, é invejável.

A recém criada Liga das Escolas de samba do Grupo de Acesso quer trilhar o mesmo caminho e não esconde que se espelha na Liesa, e quer fazer o desfile de sábado tão bom quanto o de domingo ou segunda. Para isso, a profissionalização é fundamental. A Associação recebe da Prefeitura algo em torno de quatro milhões, que ela tem que repartir entre 61 associadas, entre os cinco grupos que administra. Desta verba, quase cinqüenta por cento vai para o Grupo de Acesso. Estas escolas estão recebendo hoje perto de 350 mil para fazer um carnaval, e sabemos que não dá nem para começar a pensar em campeonato com este dinheiro, se escolas como Estácio, Rocinha e São Clemente gastam mais de um milhão. Fica muito difícil. Então a proposta neste caso é justa e merecida. Mais do que isso, a Lesga irá, enfim, escolher os jurados e ter poder de veto. E a história se repete vinte e quatro anos depois. E a Associação ou está se fingindo de morta ou realmente parou no tempo. Antes de escrever esta coluna entrei no site deles e, para meu espanto, está tudo como antes, ou seja, nada de diferente, nenhum comentário, nada. É de se estranhar, mas é fato.

Então, quem não se profissionalizar está fadado ao fracasso. Gerir cinco grupos e desfiles simultâneos com cinco, seis pessoas no comando é humanamente impossível. Alguém vai ficar capenga e, neste caso, é e sempre foi o desfile da Intendente Magalhães. Minha grande amiga e jornalista Cássia Valadão que o diga. Incansável, faz questão de fazer a cobertura destes desfiles e todo ano fala a mesma coisa. Escolas paupérrimas e organização desastrosa. A apuração no Terreirão do Samba também é um caso à parte e motivo de piadas em muitas rodas de amigos. Tudo o que as pessoas normais vêem na TV daquela apuração organizada não acontece no Terreirão. Os locutores erram notas, dizem que uma escola tirou 9,5, mas depois diz que foi 7, voam cadeiras e assim vai. Um horror. As escolas do Acesso se cansaram disso.

O intuito aqui não é crucificar ninguém, mas mostrar que às vezes a gente perde o bonde da história, e para pegar ele novamente não uma tarefa fácil. A Associação precisa se reestruturar e pensar empresarialmente, para que os desfiles tenham um mínimo de conforto e beleza e dê o que todos queremos que é a alegria no rosto de cada componente.

Até a próxima!

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