O Fantasma da Ópera

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Por vezes ele pode atuar como indicador de que limites existem e que devem ser considerados antes de uma importante decisão, já em outras ocasiões surge como um grande inimigo, um provocador de paralisias: É o medo. Mas, para atenuar as angústias cotidianas presentes na rispidez do mundo real existe o carnaval e sua bolha de fantasias, não e mesmo? Cruel ilusão… A idéia até que procederia se a ópera carnavalesca não estivesse sendo aterrorizada por um grande fantasma, que a coloca no mesmo patamar que a conflituosa realidade mundana. Mergulhar no carnaval hoje é mergulhar em um choque de realidade, é adentrar em uma atmosfera onde a paralisia e a incerteza são monarcas absolutistas.

Hoje temos medo até de sinopse. O episódio do anuncio do enredo da Mocidade escancarou um sentimento bastante corriqueiro na atual conjuntura do carnaval: o medo. Sim, o medo. A morte, o futuro, a velhice, a sinopse de enredo… Esta última vem expressando em cada uma de suas dúbias linhas o grau de engessamento a que se chegou. A sinopse aparece como um preâmbulo a profetizar o medo que virá mais adiante. Entretanto, antes de criticá-la é preciso ver que ela sim já é a resultante de um mau começo; começo este em que as escolas estão mais preocupadas em garantir o seu pote de ouro, e não com a amarração coesa de idéias que transmitam uma mensagem através dos sete ou oito atos da ópera carnavalesca. Deste modo foi que Machado de Assis, de maior expoente da literatura brasileira foi depreciado e rebaixado à categoria de plano alternativo da Mocidade. Logo, o que deve ser criticado sem piedade não é a sinopse em si, mas a terra seca em que ela se vê obrigada a germinar.

Nesta perspectiva, o fantasma da ópera pode ser assistido em vários atos. A começar pela inversão que se observa no processo produtivo das escolas, em que primeiro se efetua a comercialização, a venda, para só depois se dar início ao processo de criação propriamente dito, corroborando o capitalismo informacional e a customização dos enredos. De fato, a idéia preliminar não é desenvolver um tema e procurar um auxílio financeiro. É justamente o contrário: enquanto não aparece um comprador a indústria dos sonhos permanece paralisada, em estado vegetativo, sendo o pesadelo o único produto elaborado em larga escala nesta etapa de caça ao tesouro.

Tais conceitos não podem ser observados em Portela e Mocidade? A primeira, nós últimos anos, parece cultivar tais mandamentos como livro de cabeceira, atrasando o seu cronograma e prejudicando o desenvolvimento de seu desfile; e a segunda este ano se comportou de forma bastante similar, paralisada a espera de um pote de ouro que nunca veio. Como tantas outras, duas encurraladas pelo medo de apostar em seu próprio taco, em sua própria força, em sua própria cultura, em sua própria gente… O fantasma do medo provoca o divórcio entre a escola de samba e seu espírito e, uma vez desagregados, ficam a vagar pelo monumental concreto edificado da Marquês, que por sua vez termina sendo a gélida metáfora dessa tragédia. A Portela, mesmo sendo teimosa e insistindo no mesmo erro todos os anos, evidencia fibra e fôlego, já Padre Miguel possui dilemas endógenos que se arrastam pelos séculos-amém e que não serão solucionados com uma medíocre caça ao tesouro.

Com seus fantasmas, as escolas da Tijuca e de Ramos chegaram a níveis abissais: esta por aderir de forma crônica ao investimento alienígena, incorporando-o à sua cultura de desfile como se fossem um só corpo e um só espírito, sustentando um ciclo mórbido que só teve desfecho com o calvário de 2007; ao passo que aquela se perdia cada vez mais no tempo e no espaço por perseguir sistematicamente a suposta fórmula do sucesso que lhe deu um inesquecível campeonato na fecunda década de noventa, rechaçando, assim, sua identidade. Até que se chegou num ponto de saturação e ambas tiveram que adotar uma nova postura para não serem deglutidas pelos fantasmas que elas próprias alimentaram durantes anos. E neste carnaval o “tambor” e o “jubileu” aparecem com as consciências limpas, translúcidas.

O fantasma nunca será limado da ópera enquanto as escolas alimentarem a idéia oca e rasa de que precisam caminhar com uma bengala. Nota-se escassez, por parte das escolas, de uma crença maior em suas potencialidades sem que estas estejam cronicamente condicionadas a fatores exógenos. Como dito, hoje até sinopse de enredo provoca medo; tudo devido à carência de credibilidade, criatividade e fundamentação de enredos que são desenvolvidos às pressas em virtude deste ou daquele patrocínio que não veio. O carnaval atormentado por fantasmas vê o esfacelamento da bolha que servia de membrana entre o sonho e a realidade, culminando com um grande pesadelo.

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