Pequenas Empresas,Grandes Negócios…

“Nos idos do encantado século XVII, a cobra fumava nas terras do nordeste brasileiro, pois várias nações disputavam o título de Rei da Cocada Preta do Branco Açúcar, que por aqui produzíamos. Os verdes mares bravios viram ancorar o Conde Maurício de Nassau, representando a Corte Holandesa, a gananciosa Casa de Orange…”

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O velho Maquiavel, do além, parecia só observar…
Enquanto isso, aqui embaixo, no Hotel Inter Continental, em São Conrado, escutava-se, mesmo que timidamente, os ruídos de um vulcão até então adormecido, que voltava a eclodir em um momento extremamente propício, com toda a fúria de suas larvas, a retrucar: “O que é o terceiro estado? Tudo. O que é que tem sido até agora na ordem política? Nada. O que é que pede? Tornar-se alguma coisa”. E um forte cheiro de “Liberté, Egalité, Fraternité” tomava conta do recinto. Delineava-se, assim, o movimento que a partir dali originaria a segunda cisão no mundo do samba: a criação da Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso, onde se observava essencialmente o desejo latente dos “sans-culottes” de possuir os mesmos privilégios, a mesma opulência do clero e da nobreza. Uma velha ciranda, que nos faz constatar que o mundo é realmente uma grande reprise, um grande “vale a pena ver de novo”. E vale? Eis a grande interrogação que assombra os habitantes do Reio Carnavale.

Seja nas grandes revoluções que acontecerem mundo afora, seja no caso da recém-nascida instituição em questão, duas personagens estão sempre presentes: o sedutor e o seduzido. A experiência democrática no Brasil é marcada por esse aspecto. Muitas vezes, o sedutor é um traidor de si mesmo, enquanto o seduzido é um ser que, ao deixar-se atrair, trai sua liberdade e sua autonomia.

A criação da Liga Independente das Escolas de Samba em meados dos anos oitenta impulsionou de forma frenética o desenvolvimento do carnaval e das escolas envolvidas naquela grande empreitada. O modelo progressista implementado vingou, ganhou fama e visibilidade; as escolas receberam o presunçoso status de indústrias, embora a afirmação não seja de todo verdadeira. Mas, ao mesmo tempo em que a galinha dos ovos de ouro do turismo da cidade e cartão de visitas do Brasil mundo afora ganhava força, via-se descerrar de forma cada vez mais acentuada um abismo entre o carnaval produzido e o foco popular. O grupo de elite fazia, então, jus ao seu próprio nome.

Paralelamente, enquanto a corte empapuçava-se e se tornava um grande paraíso do dinheiro, da mídia, do turismo, do business; o agora coadjuvante Grupo de Acesso era visto como um imenso purgatório e, como tal, despertava em seus habitantes o constante desejo de libertação, já que ninguém tinha a pretensão de enterrar seu umbigo naquele grupo, tampouco fixar moradia. O desejo era sair dali o mais rápido possível, no melhor estilo “desta terra não levo nem a poeira nos sapatos”, tal qual Carlota Joaquina, e voltar ao paraíso para nunca mais de lá sair. Mas, a alegria de pobre durava pouco, e o sobe-e-desce era uma constante. Até que, um belo dia, a astuciosa serpente, que não é boba nem nada, tomou a palavra e disse: “Pára tudo! E porque não transformar isso aqui em um New Paradise?”.

A idéia de criar uma instituição que venha fortalecer o marginalizado grupo de Acesso A é completamente válida. Embora não sejam multimilionárias, faltem-lhes o dinheiro e o glamour, encontram-se lá escolas que possuem a mesma importância histórica e cultural que as estrelas do Grupo Especial. Todavia a idéia de cisma (dependendo dos rumos), pode acabar transportando o carnaval para a Era Medieval, em que encontrávamos vários feudos. O feudalismo em meio à selva capitalista. Cada grupo pode ganhar envergadura e se enclausurar em seus castelos, largando o resto, as primas pobres, à própria sorte. Como disse, o sedutor é um traidor de si mesmo. A verdade é que ninguém pensa no carnaval como um todo; cada qual quer promover o desenvolvimento logístico e dar visibilidade ao seu próprio feudo. Desta forma, vê-se um processo que ratifica a desigualdade e a estratificação do samba.

É claro que não se pode tirar conclusão alguma neste momento. Não conhecemos nada sobre a embrionária instituição. Entretanto cabe uma reflexão a respeito do que já foi visto de bom e de ruim acontecer com as tentativas do passado. A criação da Liga Independente das Escolas de Samba trouxe crescimento para o evento e isso é público e notório, mas também teve o seu lado negativo ao direcionar o foco da festa para um outro público. Tais observações não significam a adoção de uma visão pessimista; todavia, já andamos tão traumatizados, tão calejados, tão embasbacados e estarrecidos com o caminhar do carnaval que tudo nos faz ficar ressabiado. Logo, não é nada difícil olhar os ideais da Liga do Acesso e não lembrar da pitoresca história do boi voador, onde de forma puramente maquiavélica, um verdadeiro espetáculo foi arquitetado e marcou a história da até então cidade Maurícia. A astúcia do Conde Maurício de Nassau, que desejava saúde para os cofres da coroa holandesa, visibilidade e a presença de grande público para prestigiar um grande evento, mobilizou a população com a disseminação da notícia de que um boi voaria…

Que isso não seja mais uma história de boi voador…
O boi ainda dá bode!

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