A Indústria do Novo, A Antítese do Velho

Na inquietação do status quo…
O velho e o novo, conceitos comumente utilizados no cotidiano, requerem certo cuidado quanto aplicados ao contexto do carnaval e das artes de forma geral. O novo sempre sinônimo de oxigenação, de vanguarda, de progresso; enquanto o velho é visto como algo que precisa urgentemente ser destronado, alijado. De fato, essa filosofia sempre esteve presente na história das sociedades, porém acentuada nesse olho de furação de novo milênio. Dois equivocados conceitos que, junto com escolas de samba, fizeram um casamento perfeito com a mídia; uma “aliança para o progresso” que exige o novo explícito e que se sobrepõe a tudo em nome da ruptura, do espetáculo, do escândalo. Mas, uma obra artística, um desfile de escola de samba, vale pelo que traz de novidade?
Certa vez, perguntado sobre qual seria a novidade que traria para seu carnaval, Pamplona respondeu categoricamente que aquele seu desfile não traria nada de novo. Como? Uma afirmação como esta já naquela época parecia meio estranha, imaginem hoje, na sociedade cognitiva, em que a grande quantidade de informações precisa ser consumida em uma velocidade vertiginosa, como um delicioso sanduíche de borracha norte-americano. Não obstante, essa tendência de dar um sentido descartável a tudo termina sendo aplicada às artes, à linguagem estilística das escolas de samba, culminando com uma exigência atroz pelo novo. Deste modo, a sociedade da informação imprime um ritmo acelerado, e isso se reflete nas criações artísticas, principalmente na arte contemporânea, que muitas vezes atua como se verdadeiramente houvesse um evolucionismo artístico. Mas não há.
De forma ilustrativa, pode-se mencionar a concepção artística do tripé Rosa Magalhães, Renato Lage e Max Lopes, que não pode ser vista como uma evolução da matriz de onde saíram, da mesma forma que Paulo Barros e toda a terceira geração de carnavalescos não é uma evolução da segunda. O que existe são vários expoentes. Entretanto, isso acaba sendo justificado pela força que a mídia exerce sobre o carnaval e também pela dinâmica social mencionada anteriormente. Tomando Paulo Barros – a prosopopéia do novo – como principal vedete, observa-se que mesmo ele sendo “o último grito” em estética carnavalesca, já se percebe certa “frustração” quando o artista não consegue promover um desfile que nos desperte a mesma sensação de deslumbre de outrora. Em suma, o mago do novo se tornou refém da necessidade de sempre apostar no inesperado. Sem essa eterna cobrança, certamente tudo teria uma fluência mais natural.
Assim, tudo o que é novo acaba ganhando grande valor, e as diversas formas de expressão artística acabam sendo depositárias dessa cultura. Talvez por se querer equiparar a produção artística a uma industria que tem por obrigação a inserção de novos produtos e conceitos no mercado. O resultado disso é que a arte acaba assumindo um caráter pretensioso e autofágico, mostrando o novo como antítese do velho, como se tudo o que fosse novo tivesse a obrigação de ser legitimado sob a alegação de ser “a última palavra”. A arte carnavalesca contemporânea em algumas ocasiões acaba saindo do foco quando busca de forma desenfreada a banalização do novo como sinônimo de escândalo e ruptura. O novo pelo novo. Ecos de 76…
Como conseqüência disso, a produção artística no carnaval, valendo-se da utilização de novas linguagens comunicativas, é sempre fato gerador de inúmeras reflexões sobre a “legalidade” da liberdade artística conferida aos artistas, uma vez que a busca constante pelo novo também traz consigo a cultura do “vale-tudo” em nome da arte e da liberdade de expressão. E tudo vale nesse Reino? Isso me faz lembrar aquele dito popular: “se você deixa o camelo colocar a cabeça dentro da tenda, ele entra, se instala e monta em cima de você”. Ora, se tudo vale em nome da arte carnavalesca, do novo, do chocante, porque não trocar o samba por outros gêneros musicais? Não estamos no milênio que traz o “novo” até em seu nome e, sendo assim, aberto a novas experiências? Seria algo inédito, assim como pista de esqui adentrando a Marquês de Sapucaí.
A produção artística não deve estar condicionada a eterna busca pelo ineditismo, mas a sutil exploração e aprofundamento temático e estilístico. Picasso é o exemplo do artista inquieto e criativo, cuja trajetória foi um constante reinventar da própria obra. Já Giorgio Morandi, importante pintor italiano, situa-se no pólo contrário ao explorar durante décadas uma mesma temática (Natureza Morta) e um mesmo caminho estilístico. Pode-se por isso dizer que Picasso é criador e Morandi não? Pode-se dizer que os quadros de Morandi são a repetição de um mesmo quadro, destituídos, portanto, de criatividade?
24 de Julho de 2008 @ 16:51
Belo texto. Sobretudo nesta parte: “Em suma, o mago do novo se tornou refém da necessidade de sempre apostar no inesperado”. Isso é realmente muito perigoso.
Porém, não acho que a indústria do novo seja a antítese do velho. Acho que ambas têm importância para a vida dinâmica de uma sociedade. Talvez, este seja o maior problema. As pessoas tendem a criar incompatibilidades entre uma linha de carnaval (samba) e outra.
Eu, por exemplo, respeito as duas. Ou seja, reconheço Picasso e Morandi. E aí te volto duas perguntas e lanço a discussão: não é possível gostar dos dois? Devemos ser obrigados a estar fechados dentro de um modelo contínuo de carnaval? Sei não, sei não …
Pamplona é indiscutívelmente brilhante. Mas Paulo barros também é. Em 2058 muita gente vai admitir isso. Por isso, as análises precisam ter distanciamento histórico. Por mais que a gente discuta, o ser humano é -por natureza - um ser histórico. E a história nunca será estática …
E que venham outros Pamplonas e Barros …
Abço e parabéns pelo blog!
25 de Julho de 2008 @ 14:10
Com certeza. A idéia e justamente colocar que existem vários expoentes que podem conviver.
Abraço e parabéns pelo trabalho no site O Dia!