E todo carnaval tem sua quarta-feira… Parte 4

quarta-feira

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O carnaval inteiro passa, mas o samba do crioulo doido mesmo só aparece com a abertura dos envelopes. O difícil é entender como sai algum resultado justo ali no final, já que na quarta-feira quase todas as nossas certezas sobre o carnaval caem por terra.

Samba-enredo - O quesito deveria ser o mais importante de todos, mas hoje está extremamente desvalorizado. Os jurados se comportam como verdadeiros poços de bondade: a menor nota foi 9,7. O samba do Salgueiro, considerado pela maioria apenas como mediano, levou nota máxima. O samba da Viradouro, considerado um dos piores do ano, senão o pior, perdeu dois décimos. O samba da Grande Rio, outro mediano, perdeu apenas quatro décimos. E o presidente da escola ainda teve a coragem de reclamar da nota. A mais castigada foi a Vila Isabel: nove décimos perdidos. O que também é pouco pela obra apresentada. Em um ano sem sambas brilhantes, quatro agremiações ganharam a nota máxima: Beija-Flor, Imperatriz, Salgueiro e Portela.

Harmonia – Como em todos os anos, alguém tem que fazer o papel de louco. Desta vez, tal função ficou a cargo de Evaldo Santos, que saiu distribuindo notas baixas. Na verdade, as notas dele não são absurdamente baixas. Elas apenas destoam da bondade dos demais julgadores. De qualquer forma, ficou esquisito, pois as notas prejudicaram várias escolas. Beija-Flor foi a única que cravou 40 pontos, seguida por Mocidade e Grande Rio com 39,7. Porto da Pedra levou a menor nota no somatório do quesito, apenas 38 pontos.

Enredo - Voltando para um momento mais tranqüilo na apuração. Embora poucos enredos fossem interessantes, a menor nota foi 9,6. Enredos simples ganharam as maiores notas- Salgueiro e Portela levaram 40 pontos, e Tijuca 39,7. Já os enredos históricos não se deram tão bem. Nem mesmo o elogiado enredo da Imperatriz, que perdeu seis décimos. Os julgadores foram benevolentes com Beija-Flor e Grande Rio, pois os enredos dessas escolas eram de difícil compreensão, forçados pelo patrocínio e pouco interessantes na prática, entretanto perderam apenas 0,4 e 0,5 décimos, respectivamente, e mesmo assim foram mais bem avaliados do que Imperatriz e Mocidade…
Os jurados também devem ter achado graça no enredo subjetivo, pouco carnavalesco, de importância cultural altamente questionável e desenvolvido em torno de nomes “hollyoodianos” que atuavam em prol da realização de um grande mosaico de informações desconexas. Um enredo onde ao mesmo tempo tudo e nada eram possíveis, como, por exemplo, um setor sobre o cabelo deslocado na proposta do arrepio. O fato é que a dona deste enredo, Viradouro, perdeu escassos sete décimos.
A menor nota ficou para a família real da São Clemente, com 38,5.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira – Os jurados costumam pegar leve com os casais, talvez porque seja muita responsabilidade duas pessoas carregarem um quesito inteiro. Não à toa a menor nota foi 9,7. As surpresas do quesito ficaram por conta dos dois incomuns 9,8 que a consagrada Lucinha Nobre e seu parceiro Bira levaram, provocando, inclusive, a separação do casal. Mangueira e Beija-Flor ganharam nota máxima, enquanto Grande Rio, Imperatriz e Mocidade perderam apenas um décimo. O casal da São Clemente foi o pior do quesito, com 38,9.

Fantasia - Único quesito em que nenhuma escola ganhou os almejados 40 pontos. Nilópolis conquistou as maiores notas e acabou com 39,9 pontos. Já a Porto da Pedra, segundo os jurados, foi a pior, com 38,2. Diferente de mim, os jurados gostaram das fantasias da Viradouro, que ganhou 39,7. Está certo que elas estavam criativas, mas faltou bom acabamento e beleza. Algumas eram simples demais.

Evolução – nem em um quesito tão problemático surgiram notas muito baixas.
Beija-Flor e Salgueiro ganharam 40 pontos; Viradouro 39,9. Menor nota para o “saco de pancadas” São Clemente: 38,5. Vila Isabel abriu um clarão de quase dois setores, no entanto ganhou notas 9,9 e 9,8 nas primeiras cabines de jurados, aonde aconteceu o problema.

Bateria – foi o quesito com maior número de agremiações ganhando a nota máxima: Salgueiro, Viradouro, Imperatriz, Grande Rio e Beija-Flor faturaram 40 pontos. Resta saber se são as baterias que estão essa maravilha toda ou, como de costume, são os jurados que estão pouco exigentes. O positivo do quesito foi ver Imperatriz e Salgueiro voltando a ganhar nota máxima, depois de passarem bons anos perdendo pontos no referido quesito. A menor nota foi para a bateria de Mestre Louro da Porto da Pedra, com 39,2.

Alegoria – Eu não tive muita paciência de ler as justificativas dos jurados, mas os deste quesito eu fiz questão de ler para ver se compreendia as notas. Como já havia escrito no início, é um verdadeiro samba do crioulo doido. Alguns jurados observaram muitos erros, criticaram todo o conjunto alegórico e, no final, tiraram apenas 0,2. Outros se preocuparam mais com o detalhe de haver uma tesoura largada em um carro da Mangueira do que observar se o restante da alegoria apresentava-se de forma criativa e bem acabada. Lendo as justificativas se percebe o como os jurados são mal preparados, não tendo nenhuma noção da escala de notas que deve ser usada. De quebra, o espaço que há para eles justificarem, isso se eles realmente justificassem corretamente, é o suficiente para apontar as falhas de apenas uma alegoria. Apenas a Beija-Flor ganhou 40 pontos, enquanto São Clemente somou 38,4 pontos.

Conjunto – Interessante perceber que dois jurados de Conjunto acharam que oito escolas desfilaram perfeitas, merecendo a nota 10. Em um ano de desfiles predominantemente medianos, chega a ser patético. Sem maiores comentários. Maior nota para Beija-Flor e Salgueiro, cravando 40 pontos; menor nota para a São Clemente, com 38,8 pontos.

Comissão de Frente – O fato da comissão de frente da Mocidade, ganhadora de todos os prêmios e capas de jornal do ano, não ter levado nenhuma nota máxima faz cair por terra qualquer possibilidade de se levar a sério os julgadores deste quesito. Pelas justificativas apresentadas, apenas o último julgador apresentou motivos pertinentes para retirar dois décimos de Padre Miguel. O restante alegou que faltou impacto na apresentação. Um impacto que houve apenas na Grande Rio e na Viradouro, ambas com nota máxima. Faltou avisar aos jurados que eles ainda julgam um desfile de escola de samba, e não um espetáculo da Broadway. Os jurados também não gostaram da apresentação de Rogéria, pela São Clemente e dos japoneses na Porto da Pedra, que ganharam 39 e 38,9 pontos neste quesito.

No resultado final, foi quase tudo aceitável. A maior beneficiada do ano foi, mas uma vez, a Grande Rio. E a prejudicada foi a Mocidade, que merecia, ao menos, uma volta ao sábado das campeãs. No restante do resultado, certamente há algumas outras colocações que podem ser questionadas, mas nada que seja absurdo.

Uma resposta para “ E todo carnaval tem sua quarta-feira… Parte 4 ”

  1. juan rodriguez disse:

    concordo plenamente o comentario sobre a comissão de frente da mocidade… aquilo parecia um quadro de Debret, fabio de mello é simplesmente genial (claro, na minha opinião)

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