E todo carnaval tem sua quarta-feira…

Parte 2- Domingo

698242 9817 ga - 698242 9817 ga

Foi um dos domingos de carnaval mais esquisito que já se viu. Desfiles fracos, muito fracos. Desde o início, quando saiu o sorteio, já se esperava isso, e a chuva ainda piorou a situação. Era previsível que Porto da Pedra e São Clemente figurariam nas piores colocações. Depois disso, a noite seria chamada de “a noite da emoção”, pela impressionante seqüência de Salgueiro, Portela e Mangueira. E, para arrebatar o primeiro dia, Viradouro, e seu polêmico carnavalesco, que mal chegou e já é comparado com João Trinta.
Acontece que estrangeiro mal consegue citar o nomes das escolas, vai lá saber a importância delas para o carnaval. Fora os brasileiros, que preferiam se divertir nos camarotes ao som do “Crééééu”. Sendo assim, nem a emoção rolou como se esperava. Salgueiro com um samba apenas razoável, Viradouro com um samba horrível, e Mangueira em crise contribuíram para uma noite morna. Parece que somente a grande torcida da Portela conseguiu garantir um momento mais animado na primeira noite.

São Clemente abriu a noite de forma bem correta. Em outros anos, certamente mereceria continuar no Grupo Especial. Mas com o alto nível técnico das escolas, acabou faltando um pouco a mais para a agremiação de Botafogo se firmar no Especial. O chamado estilo “clean” do Mauro Quintaes acaba dando uma idéia de pobreza e de acabamento simples demais. Os delírios de D. Maria, a louca, foram bastante comportados, devido aos olhares vigilantes do prefeito César Maia. O que sobrou de São Clemente nessa história foi o refrão do samba, e o baile dos frangos em uma das alegorias. E só. Foi um desfile sem grandes problemas, mas que também não conseguiu nenhum grande destaque.

A Porto da Pedra melhorou sua apresentação, se comparado aos últimos dois anos. Para uma escola com dificuldade para competir de igual para igual com as grandes agremiações, tanto em termos de tradição, quanto financeiramente, ela se saiu bem. O carnavalesco Mario Borrielo fez um desfile acima da média que ele costuma fazer, reflexo direto da liberdade que ele teve na escolha e realização do enredo. Destaque para o carro representando o navio Kasato-Maru, todo em bambu. O samba foi um dos mais controversos do ano, alguns o consideraram um dos melhores do ano, outros um dos piores. Mas o fato é que ele foi o suficiente para a agremiação fazer um bom desfile, bem alegre. Destaque para o casal de mestre-sala e porta-bandeira importados do Império, Robson e a Estandarte de Ouro Ana Paula, além da bateria do guerreiro Louro, que mesmo passando mal conseguiu acompanhar a bateria até o fim do desfile, ganhando o Estandarte de Personalidade.

A competitividade começou a crescer quando o Salgueiro entrou na avenida. O enredo sobre o Rio de Janeiro gerou uma expectativa muito boa, pois ele poderia render um dos melhores momentos do ano. De fato, rendeu, mas ainda assim abaixo do esperado. Em outros tempos, este desfile poderia ser um verdadeiro sacode, hoje não mais. O samba morno chega a ser uma decepção, para um enredo tão maravilhoso. Cantar o Rio de Janeiro de uma forma tão leve e colorida é a cara do Salgueiro, e a cara do carnaval. Coisas do carnavalesco Renato Lage, sua companheira Márcia Lávia, e a perceptível sensibilidade deles ao construir os carnavais. Mesmo assim, desapontaram-me um pouco. Está certo que o Salgueiro não teve muita verba para este desfile, e o casal até operou alguns milagres. Mas o nível das alegorias oscilou bastante. A alegoria que representava o Maracanã - que poderia ser uma grande sensação – ficou sem graça, mal lembrava o Renato Lage do início dos anos 90 na Mocidade. A utilização de roupas comuns nos carros da favela e da praia também foi um descuido incomum no trabalho dos carnavalescos. O resto do visual foi agradável. Destaque também para a comissão de frente, muito boa. No final das contas, um bom desfile, que acabou levando um inesperado vice em um ano sem grandes apresentações.

A Portela honrou as expectativas de sua torcida e fez um bom carnaval. Deu uma melhorada na estética, sobretudo nas alegorias, e continuou mantendo a boa qualidade dos demais quesitos, como samba, bateria, harmonia, evolução. Foi um desfile com vários pequenos pontos falhos, que retiraram décimos aqui e ali, mas no final foi um saldo positivo, sobretudo para uma agremiação que estava há 10 anos fora do Sábado das Campeãs. Interessante é o nível crescente da escola, de 2006 pra cá, depois do tombo em 2005. Espera-se, portanto, que 2009 seja melhor ainda.

Quando a Mangueira entrou na avenida, as tradicionais bandeirinhas se agitaram, não dando a noção se seria um desfile apoteótico, ou se a escola iria em breve murchar na avenida. Minutos depois, deu pra perceber que estava mais para a segunda opção. A chuva só veio para “coroar” a má fase da Mangueira. A escola acabou sentindo mais do que se poderia prever a falta do enredo sobre Cartola. O enredo foi mal desenvolvido, o samba foi o pior da década apresentado pela agremiação, Max Lopes se mostrou repetitivo, Carlinhos de Jesus não conseguiu impressionar, além de que um dos componentes estava com um guarda-chuva normal. Faltou à escola mais dinheiro também, a mídia negativa certamente repercutiu na perda de uma parte do patrocínio. A saída de Ivo Meireles faltando poucos meses para o carnaval prejudicou o desempenho da bateria. A chuva prejudicou as fantasias, que ainda tiveram o erro de serem muito parecidas dentro de alguns setores, dando a sensação de haver apenas uma ala no setor inteiro. O que segurou a Mangueira foi a força da escola mesmo, a tradição e a raça de alguns componentes. Que a décima colocação seja o suficiente para a escola acordar. Será necessário renovar, e ao mesmo tempo voltar a valorizar a tradição.

Viradouro terminou a noite de carnaval embalada pelas polêmicas do carnavalesco. Paulo Barros: ame-o ou o odeie. Entre erros e acertos, e opiniões das mais divergentes, foi um desfile que, na hora, prevaleceu a impressão de que “aconteceu”, mas que na apuração se mostrou verdadeiramente deficiente. O samba, o pior do ano, na avenida ficou até aceitável, ainda que bem longe dos 39,8 que recebeu. Mérito da bateria da Viradouro, do intérprete Nêgo, e do bom chão da escola. A comissão de frente seguiu a tendência de espetáculo, e nesse sentido funcionou muito bem, ainda que muita gente não tenha gostado. O enredo foi, em minha opinião, um dos piores do ano. É um tema muito subjetivo, e que permitiu momentos nada carnavalescos na avenida. As fantasias e alegorias variavam bastante. Algumas eram muito simples, e feias. A criatividade compensava, mas não o suficiente para merecer a nota máxima. E encher uma alegoria de seis mil bebês de plástico não tem nada de interessante. A verdade é que ou o Paulo Barros se ajusta ao regulamento, ou ele vai continuar dando murro em ponta de faca. O desfile que ele está fazendo não cabe no regulamento. Como que se analisa a alegoria censurada?

Desfile acabando 05:30 horas é tão esquisito. Passa rápido demais. Sinto falta da sétima escola, desfilando ao amanhecer…

Deixe uma resposta.