A disputa vai ser acirrada!!
Então, foram-se os ensaios técnicos, e o que as escolas tinham para acertar e melhorar também. Agora é segurar a ansiedade e aguardar o desfile.
Depois que todas as escolas fizeram seus ensaios, dá para ter uma noção de como elas vão se portar, e quais as chances que tem. O dito popular fala que treino é treino, jogo é jogo. Mas não acredito que haverá grandes surpresas no resultado final, se nada sair errado. Acidentes acontecem e mudam o rumo da história.
Este ano, sem dúvida, é um dos anos mais concorridos, e arriscar um campeão seria loucura. Algumas se sobressaíram mais que outras, mas por muito pouco. As escolas estão cada vez mais organizadas e o resultado final agora é quem errar menos, leva. Baseado no que vimos, segue abaixo as impressões de cada escola:
- SÃO CLEMENTE
A simpática escola da Zona Sul mostrou em seus dois ensaios que não estava preparada para subir para o Grupo Especial. Faltam diretores de harmonia capazes de conter as alas, que se misturaram nos ensaios, canto fraco e samba idem. Não funcionou na avenida durante os ensaios e dificilmente irá acontecer. Em um enredo histórico, colocar gíria na letra do samba é dispensável, visto que a língua portuguesa é riquíssima e alternativa não falta. Tem na bateria seu ponto forte, mas só ela não resolve.
Tem a dura e incômoda missão de abrir os desfiles no domingo, e terá que se superar, esquecer os erros dos ensaios e fazer uma apresentação digna de quem está no grupo de elite do carnaval carioca.
- UNIDOS DO VIRADOURO
A escola de Niterói é uma incógnita para este carnaval. Com um enredo polêmico e subjetivo, o carnavalesco Paulo Barros pode com este desfile ir aos céus tão rápido quanto ir ao inferno. Fez um dos melhores ensaios da temporada, tem um chão excelente e uma bateria segura.
Mas esta mesma bateria está à procura de uma coisa que perdeu nos últimos anos que foi a unanimidade. Não obtém quatro notas dez há algum tempo e está em cheque. Como diz o regular samba da escola, o show da bateria alucina, sim, mas não os jurados. Então seria melhor dar show e obter a nota máxima.
Quanto ao enredo, é interessante, mas como disse, é muito subjetivo. O que te causa arrepio pode nem fazer cócegas em mim. E falar de holocausto em carnaval não me parece uma boa idéia. Em vez de causar arrepio, pode causar indignação. Mexer com uma tragédia tão recente na história é reviver um episódio que todos querem esquecer. Havia e há muitas outras coisas que causam arrepio.
Depois de passar por alguns problemas internos, como a saída de Dominguinhos do Estácio e do compositor com mais vitórias na história da escola, Gusttavo Clarão, e, mais recentemente ter seu presidente baleado, a escola parece ter assimilado bem e vem para tentar ficar entre os seis primeiros colocados.
- PORTELA
Não será surpresa nenhuma se a escola de Oswaldo Cruz e Madureira finalmente voltar ao grupo de elite das escolas de samba do grupo especial. Depois de carnavais sofríveis nos últimos anos, a Portela parece que desta vez vai fazer jus ao nome que tem na história do carnaval carioca.
Os ensaios foram corretíssimos, alegres e com cara de Portela. Tem, de longe, o melhor samba desta safra, com uma letra e melodia perfeita, além do enredo pertinente e atual.
A bateria de mestre Nilo Sérgio está dando aula de ritmo. Cadenciada e segura, com bossas e paradinhas de tirar o chapéu. Nilo confessou que está à procura de prêmios e obviamente de notas máximas, e parece que está no caminho certo.
Se a escola vir com o contingente que informou, ou seja, 4500 componentes, ela fará um bom desfile. O barracão da escola está bonito e as fantasias bem coloridas. Enfim, virá para tentar ficar entre as seis.
- MANGUEIRA
A escola mais querida do Rio de Janeiro, e não do planeta, como diz o intérprete Luizito, vem atraindo as atenções mais pelos negativos acontecimentos do que propriamente o carnaval. As confusões começaram já no desfile de 2007, com a estapafúrdia e incorreta decisão de negar que Beth Carvalho desfilasse pela escola. Seria o mesmo que negar que Dona Zica desfilasse pela escola há 20 anos, por exemplo. Depois desse, vários outros problemas surgiram inclusive policiais, e a escola perdeu o rumo da situação por um momento. Isso ficou claro nos dois primeiros ensaios técnicos, onde a escola se mostrou nitidamente sem direção. Mas conseguiu se levantar no terceiro ensaio e mostrar que tinha assimilado o golpe e deu a volta por cima.
Essa é a Mangueira que todos nós queremos ver. Valente, guerreira e imponente. Tem em sua comunidade seu ponto forte, além de sua bateria com seus surdos sem resposta. O samba, é verdade, não é nenhuma maravilha, tem um refrão de gosto duvidoso, mas levanta a avenida e funcionou no último ensaio. É isso que importa. Se os componentes estão cantando é meio caminho andado. O barracão está belíssimo e as fantasias um pouco pesadas a meu ver. Na apresentação das mesmas, cheguei a comentar com um companheiro que estava ao meu lado que tinha resplendores com quase 1,30 metros de largura. Então, temo que as alas tenham dificuldade em evoluir. Mas a composição geral está belíssima, na há duvida.
A Mangueira quando entra na avenida é capaz de mudar seu próprio rumo e nunca podemos dizer que ela não vem para disputar. Nestes últimos dias o astral na escola melhorou muito e pode ser um sinal de que podemos ter surpresas.
- SALGUEIRO
O Rio de Janeiro continua sendo. E o Salgueiro também. Depois de um injusto sétimo lugar no ano passado, a escola é outra que tenta voltar às primeiras colocações.
Fez bons ensaios, mas o canto só melhorou no último. A bateria está num ritmo muito acelerado e volto a questionar por que mestre Marcão colocou a ala de tamborins na cozinha, no final da bateria. O som fica abafado.
Tem um bom samba, com a cara da escola e um intérprete que não é uma unanimidade, que ainda apresenta problemas de dicção, mas sem dúvida, anima e levanta qualquer samba e quem estiver na avenida com seus cacos e sua agitação costumeira.
A escola investiu em mais alas da comunidade para melhorar o desempenho, já que é conhecida pelas alas comerciais que nada cantam e nada sabem. Não é uma crítica, mas uma constatação de quem já desfilou na escola por dois anos.
Com um bonito barracão e fantasias luxuosas, com mais alas de comunidade, deve fazer bonito no domingo de carnaval.
- PORTO DA PEDRA
A escola de São Gonçalo vai tentar mostrar pra todo mundo que está mais madura. Vem amargando colocações baixas, e em 2006 só não caiu por milagre. Em 2007 fez outro desfile sofrível e ficou na décima colocação.
Mas os ensaios mostraram que a escola ainda tem problemas quase que crônicos. Conjunto e evolução são os que mais preocupam. Em alguns momentos a escola se arrasta na avenida. O samba é bom, mas o canto da escola não se mostrou a contento nos ensaios. Além do canto regular, os componentes insistiram em bater palmas no refrão, recurso dispensável e que os jurados não vêem com bons olhos. Esta manifestação deve vir do público. O barracão está bonito, e conta bem o enredo sobre os 100 anos da imigração japonesa.
Acredito que fará um bom desfile, mas não me pareceu com espírito de brigar pelo título.
- MOCIDADE INDEPENDENTE
A verde e branca da Zona Oeste vem para tentar dar uma virada na sua história recente. Com carnavais sofríveis, vem amargando as últimas colocações ou intermediárias, que não retratam nem de longe a Mocidade dos anos 80 e 90.
Para isso, investiu na comunidade, chamou-a de volta e está em evidência novamente. A quadra vive lotada como há muito tempo não acontecia, e os ensaios de rua chegaram a atrair uma multidão de quase quinze mil pessoas. Os ensaios técnicos foram bons, mas apresentaram problemas de evolução e harmonia, além do canto que só melhorou no último.
Outra coisa que pareceu não estar bem encaixada é a paradinha que a bateria está fazendo no segundo refrão. Depois da palavra Guerreira, ela volta com tudo e o som embola um pouco. Talvez fosse melhor entrar como de costume, atrasando os tamborins e os chocalhos. É só uma opinião.
O samba, que está sendo considerado um dos melhores da safra, a meu ver é inconsistente principalmente em sua primeira parte. Sem dúvida é bonito, mas é preciso que funcione. Para isso, a escola conta com o intérprete Bruno Ribas, que deu um tom mais alto a ele.
Tem um dos maiores barracões, com carros imensos e bem acabados, e fantasias bem resolvidas, formando um belo conjunto.
A escola está se reestruturando e fazendo um trabalho em médio prazo, e a intenção este ano é ficar entre as seis.
- BEIJA-FLOR
Última campeã do carnaval, a escola vem para tentar o bicampeonato.
Não começou muito bem, com um ensaio técnico muito aquém de suas tradições. Tanto que fizeram um trabalho na quadra para melhorar o canto e acertar os problemas de evolução que surgiram naquele primeiro ensaio. Já no segundo e último, se apresentou de forma consistente, mas sem a mesma garra que nos acostumamos a ver e algumas alas se misturaram.
Tem uma comunidade forte e um chão fantástico. É escola de chegada e tem o dom de fazer bons desfiles. Ocupa a pista de desfile como poucas e normalmente vem bem. Suas fantasias este ano estão belíssimas, mas dão a impressão de pesadas, assim como as da Mangueira, e está com um barracão bonito. A escola também tem a característica de trazer grandes alas coreografadas, deixando o desfile mais teatral. Há quem goste, mas não sou muito entusiasta desta visão. É bonito, mas acho que tira um pouco da graça do desfile.
O samba é bom, mas lembra demais o do ano passado, inclusive em sua melodia. Se conseguíssemos cantar os dois juntos veríamos mais claramente esta peculiaridade. Tem um refrão forte e deve contagiar a Sapucaí.
- IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE
Mais uma agremiação que anda meio apagada e tenta se reerguer neste carnaval, depois do fiasco que foi o carnaval de 2007, aquele, do bacalhau.
A escola está passando por algumas reformulações, principalmente no que diz respeito às alas comerciais. Cortou se não me falhe a memória seis ou sete alas e enxugou o número de componentes. Neste caso, é uma decisão sensata e é melhor sair com menos componentes do que ter um monte de gringos que nem abrem a boca.
Com isso tudo, ainda apresentou problemas de canto nos ensaios e evolução. No último, a bateria também oscilou, não mantendo o andamento de forma linear. Vale ressaltar aqui que mestre Marcone é o mais jovem mestre de bateria do Grupo Especial, e tem o mérito de ter devolvido a cadência e a identidade dela.
Realmente o samba é bonito, alegre, que junto com o da Mocidade, é considerado um dos melhores. Mas perde sua força ao longo da avenida. Os componentes se mostraram cansados chegando ao setor sete. No último ensaio, acompanhei a escola até a apoteose e esse problema ficou mais evidente. O barracão está bonito e dentro do enredo, com carros pertinentes. O tamanho deles é pequeno e já demos esta explicação lá nas matérias sobre os barracões, e em nada diminui o trabalho.
Que vai fazer um desfile melhor que o ano passado, não tenha dúvida. Mas acho que ganhar o carnaval é pouco provável.
- UNIDOS DA TIJUCA
Com boas colocações nos últimos carnavais, a escola está sonhando alto. E tem razão em pensar assim.
Nos ensaios técnicos, fez apresentações dignas de quem quer o título. Alegre, compacta, evoluindo e cantando muito, apesar de o último ensaio não ter sido tão bom quanto os outros. Tem na comunidade seu ponto forte, e investiu este ano em três mil fantasias, deixando apenas dez alas comerciais.
Tem um samba excelente, que rendeu muito bem na avenida e certamente vai levantar o público com seu belo refrão, e seu barracão está muito bonito. A bateria está imprimindo um bom ritmo, e o intérprete Wantuir está em um de seus melhores momentos.
A expectativa é grande em relação a este desfile. Se fosse apostar em quem vai ganhar o carnaval, a Tijuca seria uma das minhas opções. Mas carnaval só se ganha na avenida. É preciso que a escola mostre tudo o que fez nos ensaios no dia oficial, para então termos a certeza de que definitivamente é uma escola de chegada.
- UNIDOS DE VILA ISABEL
Assim como a Tijuca, está sonhando alto e também tem razão.
Seus ensaios técnicos foram acima da média, e os da 28 de setembro têm atraído multidões. É uma das escolas que mais investe na sua comunidade e praticamente veste toda a escola. E cobra por isso. Cobra no sentido de que quem for desfilar tem a obrigação de ir aos ensaios de quadra e da 28, faz lista de chamada e não abre mão disso. Mostra com isso que cresceu e os componentes assimilam isso com naturalidade. Afinal, a maioria dos componentes é de Vila Isabel.
O samba, que foi duramente criticado por ser uma junção de dois sambas, conta bem o enredo e funcionou na avenida. O canto da Vila Isabel foi um dos melhores que vimos no ensaio, além de evolução e harmonia perfeitas. O barracão da Vila é outro que chama a atenção na Cidade do Samba. Carros imensos e bem acabados são um dos mais bonitos.
A bateria de mestre Mug, assim como a da Portela, é outra que dá aula de ritmo. A distribuição dos instrumentos permite que se ouçam perfeitamente cada um deles, sem exagero. Se você leitor, tiver oportunidade de ficar ao lado dela irá perceber a mesma coisa.
O intérprete Tinga é outro que está em um de seus melhores momentos. Firme e seguro, tem uma potente voz e levanta a escola.
- GRANDE RIO
A escola de Caxias e dos artistas está como diria na língua futebolística, batendo na trave. Este ano, mais uma vez, vem para brigar por título.
Tem um barracão com alegorias imponentes, apesar de parecer com informações demais. Mas, é a cara da escola.
Fez ensaios técnicos bons, e o último foi corretíssimo. Acertadamente, a escola deixou de trazer aquele camburão que chamam de carro de som e usou o oferecido pela Liga, e finalmente pode-se ouvir a potente voz do intérprete Wander Pires.
O samba não é divino, mas funciona, e os componentes cantam. Falando nisso, a Grande Rio também tem em sua comunidade um dos pontos altos. Eles são fiéis a escola e tem orgulho de dizer que são da Grande Rio, o que é louvável.
Mas, quem leva mesmo a escola nas costas é mestre Odilon e sua excepcional bateria. A gente percebe sua competência claramente porque há muito tempo a Grande Rio não tem um ótimo samba. Aparece cada “embrulho” difícil de abrir… Mas por vezes opera milagres. Está imprimindo um ritmo gostoso na casa das 72 bpm, e assim coloca a escola novamente entre as favoritas.
Estas foram a impressão que tive e nem de longe é uma previsão. Tirem suas próprias conclusões.
Posto isso, agora é aguardar. Como falei no início, o desfile desse ano é acirrado e tudo pode mudar de uma hora para outra.
Um bom carnaval a todos e que vença o melhor!!
31 de Janeiro de 2008 @ 23:20
Ao Ricardo,
gostaria de parabenizá-lo pela excelente análise (”A disputa vai ser acirrada”). Enfim uma análise que pareceu imparcial, sem querer denegrir ou favorecer as escolas de samba. Saiba que contribuiu muito para nós uma vez que vcs certamente são importantes formadores de opiniões. Um abraço e bom carnaval.