E No Meio da Guerra Fria…Um Spheniscidae
Silêncio.
O desfile começou. Sente o frio?
Depois das acusações de espionagem entre McLaren e Ferrari e dos grampos telefônicos da vida, chegou à vez do carnaval carioca entrar nessa tensão digna dos tempos mais aterrorizantes da Guerra Fria. Não sei se repararam, mas estou conversando assim baixinho com vocês porque esta é uma conversa particular e sigilosa, portanto, não contem a ninguém isso que estou a dizer.
Pois bem, parece que o carnaval do próximo ano será de uma frieza de arrepiar até os desprovidos de pelos e plumagens, e temo pela extinção da simpática população de pobres e desengonçados pingüins, já que a demanda pela ave cresce em escala geométrica entre as escolas. Este ano, a vedete do carnaval foram os faisões, que marcaram sua glamorosa presença nos figurinos das índias que não estão no mapa e também ornamentando a graciosidade de Selminha Sorrisoz. Entretanto, ao que tudo indica ano que vem será o pingüim, a ave não voadora da família dos Spheniscidae quem lançará tendência na Avenida.
Devo destacar que este pitoresco, porém simpaticíssimo, habitante dos pólos se sentirá em casa com o atual clima da Sapucaí. E não pensem que será uma mesmice ver tantos pingüins, pois há uma grande diversificação da ave como, por exemplo, o Pingüim de Magalhães, uma ave européia de plumagens com várias tonalidades de rosa; os Pingüins Africanos, que emitem sons em tom menor e possuem uma profunda relação de fidelidade com seu dono; os Pingüins Saltadores da Rocha, que executam coreografias belíssimas em cima do carro, digo, do rochedo.
Mas, como estava dizendo, a bruxa anda solta lá pelas bandas da Cidade do Samba e alguns carnavalescos e presidentes de escolas estão fazendo de tudo para esconder o arrepio, quer dizer, o jogo, digo, as coleções enfim, o clima de tensão parece ser a única coisa realmente quente neste folhetim, cujo capítulo mais recente teve as ilustres participações do Magnífico Nilo, do descendente mais próximo de D. João Fernando Horta e, claro, de Paulo Barros, o descobridor da pólvora. Todos em busca de patentear a posse, os direitos e os Royalties, do discretíssimo amigo pingüim, que é avesso a badalações.
Há alguns dias falávamos sobre a polêmica criada em torno do carnavalesco Paulo Barros, que na ocasião deu declarações afirmando que não faria festa de protótipos sob a alegação de que isso tiraria o ineditismo de seus arrepiantes planos e projetos. Logicamente que cada profissional tem o livre-arbítrio para desenvolver seu trabalho da forma que entende ser a mais adequada, entretanto percebo haver certo grau de exagero em algumas atitudes, uma vez que o resultado final de um desfile de escola de samba é composto por inúmeros fatores e não serão atitudes como esta as responsáveis por mudanças de conceitos pré-existentes, que sabemos muito bem que imperam. Ademais, as alas comerciais e a comunidade necessitam conhecer de antemão os trabalhos desenvolvidos pelas escolas para o carnaval, pois, no primeiro caso, o produto precisa ser posto na prateleira para seus consumidores e, no segundo e mais importante caso, a festa de apresentação de protótipos é um fator que motiva as comunidades, que são a verdadeira essência de uma escola de samba e que precisam receber e sentir seu valor, sua importância dentro da escola. Qualquer componente de qualquer grêmio gosta de ver como sua escola virá para a avenida e isso parece estar sendo esquecido em alguns casos. Acredito que precisamos aprender com os pingüins a viver em comunidade.
Que venham os Pingüins!