No Ritmo do Desperdício
Todo ano, quando chega o cd de sambas-enredo para o próximo carnaval, não escuto outra coisa. Mas o cd encontrou um adversário à altura: o meu cd não-oficial dos sambas que não irão para a avenida.
Para o próximo carnaval, o samba que mais gosto de escutar já foi eliminado na disputa do Salgueiro: Trata-se da parceria de Kleber Rodrigues, Dhiego Moura, Thiago Gomes e Lair. Outro grande samba, a parceria de Gustavo Clarão, Dominguinhos do Estácio e cia, não entrará na avenida com a Viradouro. E há escolas com muitas boas opções. Na Mocidade, por exemplo, há pelo menos uns quatro sambas muito bons. Um vai para o cd lançado pela Liesa, outros três irão para meu cd não-oficial.
Meu cd não-oficial tem outra vantagem: eu que escolho o repertório, não preciso ficar pulando nenhuma faixa, diferentemente do oficial, em que sempre saem uns dois sambas chatos, no mínimo.
Sabemos que os bons sambas que não vão pra avenida acabam sendo desperdiçados. A grande “massa” nunca irá ouvir estes sambas, alguns deles em condição de ganhar o Estandarte de Ouro.
E quem está também desperdiçando, mas agora uma boa oportunidade de ganhar uma boa “grana”, são as gravadoras. Para os padrões atuais, o cd de sambas de enredo vende satisfatoriamente. Garanto que se lançassem um cd com os sambas que não irão para a avenida, ele venderá mais do que o cd de muito artista brasileiro “consagrado”.
Por último, o desperdício dos ótimos sambas que vão para a Avenida, mas não ganham a divulgação merecida, e acabam caindo rapidamente no esquecimento. O gênero samba-enredo acabou-se tornando temporário, servindo apenas como instrumento funcional para a passagem de uma escola de samba no Sambódromo. Isso é fruto do descaso da Liesa, que poderia exigir uma divulgação decente do cd, escolhendo os melhores sambas para tocar nas rádios, como faz qualquer cantor para divulgar um trabalho.