Andamento das baterias e suas contradições: Marcha, frevo, música eletrônica ou samba?

Salve amigos!

Se você, caro leitor, estiver na faixa dos 25 anos, vai ter um pouco de dificuldade de entender o texto abaixo, pelo simples fato de não ter vivido esta época. Até porque eram apenas crianças, que estavam mais próximos do parque de diversões do que para a Marquês de Sapucaí.

Longe de ser saudosista, o que descrevo são contradições do que hoje chamam de bateria de escola de samba, que ao meu ver está muito longe de ser a realidade. Obviamente, sou uma pessoa que acompanha a evolução, muito pela minha sede de informação, mas também pelo trabalho, que me exige estar sempre atualizado.

O que me motiva a escrever, os torno explícito, e com conhecimento de causa. Incomoda-me o andamento das baterias de hoje. Para exemplificar, tomei como base a bateria da Unidos de Vila Isabel que, na minha opinião, é uma das melhores.

Na década de 70 e início de 80, as baterias tinham um andamento que todos que sabem sambar, e eu não me incluo nisso, podiam evoluir de forma graciosa. E a da Vila Isabel não era diferente. Girava em torno de sessenta batidas por minuto. Para entender esta conta, toma-se como base o surdo de primeira, que dita o ritmo. Neste exemplo, então, tínhamos uma batida por segundo. Este foi o andamento dela no desfile de 1980, no inesquecível “Sonho de um Sonho”. O grande Cartola deixou de desfilar na sua querida Mangueira, nesta época. Um dos motivos? O andamento da bateria. Dizia ele que aquilo não era samba.

Já na metade dos anos 80, com a entrada firme da televisão, o tempo de desfile diminuiu para tornar financeiramente viável a transmissão e, na cabeça dos “mestres” de bateria e dos diretores de escolas, no andamento que estava não daria para completar o desfile com o mesmo. Uma das soluções então, foi acelerar a bateria. Já naquela época, nas boas transmissões da Rede Manchete, o comentarista Fernando Pamplona era enfático: “Marchinha, marchinha, marchinha…” dizia ele, enfurecido. Pudera. O andamento pulou de sessenta para impensáveis 68 batidas por minuto. Novamente, a Vila Isabel é o exemplo, no memorável “Kizomba – Festa da Raça”.

Neste mesmo caminho, trilharam todas as outras, com raras exceções. Uma delas foi a Unidos da Ponte, que se manteve no grupo de elite entre 1983 e 1989. Além da competência, o andamento imprimido chamava a atenção. Com uma marcação forte e virada precisas, a escola ganhou a simpatia do público. Até Aroldo Melodia andou por lá. E, conforme os anos foram se passando, o andamento foi acelerando. Já em 1993, a bateria do Salgueiro, no inesquecível “Peguei um Ita no Norte”, imprimiu um ritmo de 72 batidas por minuto.

Pulando para 2007 e voltando a bateria da Vila, a mesma imprimiu, acreditem, 78 batidas por minuto (os ritmistas do Bola Preta, o mais famoso bloco do Rio de Janeiro, faz a multidão pular com 80 batidas por minuto no carnaval, mesmo ritmo do frevo). Com isso, a ala de tamborins é uma das mais sacrificadas com este andamento, pelos movimentos das mãos que tem que fazer. É comum ver em ensaios e até mesmo em desfiles, integrantes destas alas pararem de tocar por alguns minutos. Certamente os músculos não agüentam. A ala de passistas então, nem se fala. Pobres passistas. “Sambam” como se estivessem levando choques. Na contramão deste samba-frevo-marchinha, hoje, está a Grande Rio. Esta escola, além de abrigar celebridades, tem em sua bateria seu ponto forte. Tenho que aqui reverenciar Mestre Odilon. É um sábio na arte do ritmo. A escola imprime um andamento na casa das 68 batidas por minuto, mesmo andamento de 20 anos atrás, e abocanhou dois vice-campeonatos seguidos. Então, porque que a Grande Rio consegue e as outras não? A escola tem o mesmo número de alegorias e um contingente na mesma proporção, o tempo de desfile é o mesmo, enfim. Vejo hoje que as baterias das escolas de samba perderam suas identidades, sob o pretexto de não conseguirem fazer com que a escola passe no tempo permitido.

As escolas e seus mestres de bateria precisam repensar este quesito. Não é possível que não enxerguem este problema. O samba perde sua graça. Torço para que isso aconteça, senão, abaixem as luzes do sambódromo, coloquem estroboscópios espalhados e vamos todos para a balada!!

Ate a próxima!

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10 respostas para “ Andamento das baterias e suas contradições: Marcha, frevo, música eletrônica ou samba? ”

  1. Gustavo Monteiro disse:

    Concordo plenamente Ricardo.

  2. Leandro Rangel disse:

    Muito bom texto, concordo com tudo que você disse, quando será que as escolas e diretores de bateria vão acordar para isso.

  3. Raphael disse:

    Concordo que as baterias estejam mesmo aceleradas. Mas falar de trinta anos de bateria sem pegar a mais tradicional de todas eu achei um erro. Você poderia pegar como exeplo a bateria da Mocidade Independente, ou de alguma escola mais tradicional, para que pessoas que não são tão entendidas de bateria pudessem tentar compreender melhor sua ideia. Nada pessoal contra a Vila.
    Grande Abraço
    Raphael Oliveira

  4. Ricardo Almeida disse:

    Raphael,

    A Vila foi só um exemplo, mas poderia perfeitamente ser a da Mocidade que, ao meu ver, ainda mantém suas características. Mas bateria da Mocidade coincidentemente será tema de minha próxima abordagem. Mas citei a do Salgueiro também, não foi mesmo? E ela é tão tradicional quanto à da Mocidade. Mas acho que o comentário vale para todas, sem exceção.
    Abs!!

  5. Paulo Sergio disse:

    Abordagem muito interessante sobre o que chamo de Osquestra Afro popular.
    Porém penso que as causas dos andamentos acelerados se devem ao ritmo de vida da sociedade que também passou a ser mais apressado. Ou seja, uma das causas deste fator seria reflexo da correria da vida da pessoas atualmente. Era digital, computadores, enfim a questçao é social também.
    Grande abração paz e inspiração.
    Viva o samba !

  6. Paulo Sergio disse:

    Abordagem muito interessante sobre o que chamo de Osquestra Afro popular.
    Porém penso que as causas dos andamentos acelerados se devem ao ritmo de vida da sociedade que também passou a ser mais apressado. Ou seja, uma das causas deste fator seria reflexo da correria da vida da pessoas atualmente. Era digital, computadores, enfim a questao é social também.
    Grande abraço paz e inspiração.
    Viva o samba !

  7. Paulo Freire thomaz disse:

    Concordo com o comentário toda via, todas as baterias passaram a ter um ritimo mais acelerado… com certeza dificulta e muito o desenho que o passista pretende realiozar na avenida … rever o tempo do ritimo pelos Diretores e Mestres de bateria é necessario e de carater emergencial … Cadencia é fundamental .. abraços

  8. Antonio Clery disse:

    Brilhante artigo! sintetizou como poucos poderiam o dilema das escola de samba , sem falar da saudade que dá das transmissões da extinta Manchete. Que saudade dos comentários do Pamplona e como é chato ter que aceitar a exclusividade e a transmissão hermética da Globo.

  9. Cláudio Rodrigues Espíndola disse:

    Excelente artigo. Uma ressalva: as baterias de São Paulo e de Porto Alegre são ainda mais aceleradas…
    Quem quer sambar simplesmente não consegue.
    Abraços a todos.
    Cláudio/RS
    Graduando em Música, ritmista e prof. de percussão

  10. Junior Capixaba disse:

    Primorosa matéria.

    Me preocupa, e os mais prejudicados são os ritmistas e passistas, que “pecam” por “indução” do andamento aplicado às baterias ( motivados pelo cansaço ), deixando de mostrar toda a beleza, sutileza e graciosidade que há no samba.
    Homens é o que somos e não màquinas de manipulação humana.
    Será que no futuro teremos baterias virtuais e robôs nos lugares de nosso ritmistas e passistas?
    E o que será dos Mestres de baterias?

    Um abraço!!!

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