Para tudo não se acabar na quarta-feira- Sábado de Carnaval- parte 2
18 de Abril de 2010 @ 04:36 por Rafael RezendeDando sequência à postagem anterior, segue abaixo os comentários acerca da segunda metade dos desfiles do Grupo de Acesso A em 2010:
07-CAPRICHOSOS DE PILARES
- Foi certamente o desfile mais pobre em estética e mais rico em animação da noite. Um verdadeiro carnaval.
- Após um desfile fracassado em 2009, a Caprichosos precisava de uma maneira de se reerguer apenas através da garra de seus componentes, uma vez que novamente teria um orçamento inferior. Por isso a reedição de seu samba mais famoso, “E por falar em saudade”, foi um acerto para escola. Mais do que isso, foi um suspiro. Afinal, sem o popular samba, a escola corria sério risco de estar disputando o rebaixamento novamente.
- Uma curiosidade desta reedição foi que os mesmos carnavalescos responsáveis pelo desfile de 1985 voltaram para fazer também a reedição estética. Luiz Fernando Reis e Flávio Tavares mesclaram o conteúdo original do enredo com algumas atualizações. As críticas às polêmicas recentes na política de Brasília, por exemplo, rendeu uma alegoria (mostrada na foto acima) bem humorada e bastante aplaudida pelo público. Talvez a saudade maior que este desfile resgatou foi de ver a Caprichosos alegre e irreverente novamente.
- Estava tão visível o limite no orçamento deste carnaval, que nem dá para fazer maior comentários acerca de erros e acertos da dupla de carnavalescos. O que eles fizeram foi criar fantasias leves e simples que permitissem que o componente assumisse a responsabilidade de protagonista do desfile e carregasse a escola nas escolas. Sem dúvidas, um acerto.
- Falando no componente, certamente o folião da escola de Pilares foi um dos mais felizes do carnaval. Esbaldou-se. As alas passaram numa empolgação poucas vezes vista nos últimos anos, contagiando também as arquibancadas.
- “Tem bumbum de fora pra chuchu/Qualquer dia é todo mundo nu”. Esses foram os versos marcados na memória coletiva. Considerando isso, senti falta de maior espaço no desfile para os bumbuns de fora. Apenas na última alegoria apareceram algumas mulheres para representar esse trecho do samba, mas ainda assim elas estavam relativamente comportadas em seus biquínis. Isso para não falar de duas outras que estavam agarradas aos seus “paus de Santo Antônio”, rezando para não despencarem do “queijo” que não parava de balançar.
- A comissão de frente da Caprichosos apresentou uma coreografia interessante, mas cometeram falhas na coreografia, montando os rostos dos personagens homenageados errado. Já a bateria da escola apresentou várias paradinhas e sustentou bem o samba.
- A maior falha no som do Sambódromo da noite ocorreu durante o desfile da Caprichosos. Por bons segundos, público e componentes tentaram manter o canto do samba, embora infelizmente neste momento ele tenha atravessado.
- A Caprichosos comprovou, mais uma vez, que sempre é bom ouvir novamente na avenida alguns sambas. As reedições ajudam as escolas em momentos de crise e proporcionam momentos de empolgação nas arquibancadas. Foi um desfile divertido e extremamente alegre que, considerando os detalhes técnicos dos demais quesitos, mereceu a posição intermediária que teve.
08- SÃO CLEMENTE
- Difícil falar da São Clemente. É um desfile que me desagrada em vários aspectos e que não vi nada de muito brilhante. Por outro lado, é um desfile sem falhas graves, tecnicamente dentro da disputa pelo título. Embora até ache que outras escolas poderiam merecer a vaga ao Especial, o título da São Clemente não chega a ser injusto.
- Mauro Quintaes fez um trabalho correto. Nas alegorias, chamou atenção a imensa escultura de um gato e a luta de boxe entre duas rainhas de bateria. Entre as fantasias, gostei do efeito das baianas. Nem tudo estava tão bonito, como a escultura do Max Lopes e seus braços desproporcionais (que, aliás, parece ter sido reaproveitado de outra escultura do carnaval passado). Particularmente, acho que a riqueza do tema merecia um enredo melhor desenvolvido e ainda mais criatividade e crítica do que se viu.
- O samba pode ser considerado “funcional”, mas não era dos mais belos. A comissão de frente também não apresentava uma coreografia de grande destaque, mas estava com um figurino que chamava a atenção. Entre esses meio-acertos a escola foi fazendo seu desfile e fisgando o primeiro lugar.
- São Clemente é uma escola que sabe desfilar. No grupo de acesso é sempre uma favorita ao Especial, mas no Especial é sempre uma favorita ao Acesso. Com o cerco fechado que a Liesa criou de 12 escolas, é sempre muito difícil conseguir abrir uma brecha e não cair novamente. Ilha ficou, mas várias questões contaram a favor para que isso acontecesse. Uma das armas da escola para se manter no Especial é a contratação do talentoso carnavalesco Fábio Ricardo.
09- SANTA CRUZ
- Escola constante no Acesso A, Santa Cruz é outra escola que sabe desfilar bem neste grupo, frequentemente terminando em posições intermediárias. Em 2010 não foi diferente.
- O enredo “Nos passos do compasso”, sobre a música e a dança, gerou um samba agradável. No entanto, achei o seu desenvolvimento confuso, de difícil leitura. O desfile, desenvolvido por uma comissão de carnaval, apresentou um visual correto.
- Assim como Inocentes, considero o desfile da Santa Cruz mediano, morno, sem grandes acertos nem falhas, de forma que o 4º lugar também me pareceu bondade dos julgadores.
10- ROCINHA
- Quem viu a Rocinha terminar em 10º lugar após um desfile tão belo, que aparentemente a colocaria na disputa do título, levou um susto. De fato, os jurados foram estranhamente rigorosos com a escola, que nem de longe merecia estar entre as últimas. Mas, tirando a estética, a Rocinha foi uma escola fraca, que não merecia também as primeiras colocações.
- Fábio Ricardo mostrou mais uma vez ser um dos melhores carnavalescos da atualidade. Disse ainda fazer o carnaval com uma verba mais limitada, mas não importa. Sem novidades tecnológicas, super efeitos especiais, coreografias mirabolantes ou surpresas impactantes, ele faz seu carnaval com uma genialidade que chega a ser humilde. Isso porque tudo é muito bem feito e concebido, ainda que pareça tão discreto. Se alguém estava cansado de ver índio na avenida, com certeza se surpreendeu com os índios de Fábio, porque esses nunca passaram pela avenida. Os formatos indígenas nas alegorias, os desenhos das fantasias, tudo original e de grande beleza. O maravilhoso conjunto cromático, com abuso de verde e rosa (saudade dos tempos de Mangueira?), tornava prazeroso assistir ao desfile, não só observando cada desenho e alegoria em sua particularidade, mas também o interessante jogo de cores que se formava ao ver o desfile de cima. Os desfiles de Fábio possuem uma linguagem artística única.
- Infelizmente, para por ai as maravilhas do desfile da Rocinha. A escola ainda tem muito a crescer nos quesitos básicos à concepção de escola de samba. Faltou bom samba, harmonia, evolução e bateria. Aliás, acho que faltou também um intérprete que berrasse menos. Quanto à evolução, não bastasse a falta de empolgação dos componentes, a escola ainda teve que acelerar no final para encerrar seu desfile a tempo.
- Maurício Mattos (dinheiro e organização) e Fábio Ricardo (talento). Sem dúvidas são os dois nomes que sustentaram o desfile da Rocinha. A saída dos dois é uma preocupação, uma vez que Mauricio mais um bom carnavalesco (Alex de Souza ou Fábio) foram os pilares da escola nos últimos anos. A Rocinha é uma escola nova, com dificuldade de mobilizar sua comunidade em torno do seu carnaval, e precisará agora reforçar sua ala de compositores, sua bateria e seu chão para se manter bem no Acesso A.
11- ESTÁCIO DE SÁ
- Estácio sempre é uma escola que gera grande expectativa. Falando de sua própria história, ainda se tornou mais aguardada. No entanto, contra a essa espera do público estava o fato de já ter passado 10 agremiações naquela noite, o cansaço era grande. Talvez isso tenha ajudado a não tornar o desfile tão empolgante quanto poderia ser. Mas lá se foi o forte leão para avenida.
- A escola contava com um bom samba, que tinha entre seus autores o renomado Gusttavo Clarão. Aliás, o grupo de acesso serviu de desafogo para grandes compositores como Clarão, Claudio Russo e Diego Nicolau, pois eles não conseguiram vitória em suas disputas no Grupo Especial. O samba foi embalado por uma bateria aceleradíssima. Por mais que essa seja a característica da escola, talvez não houvesse a necessidade de acelerar tanto.
- A escola passou bem, apesar de ter acelerado um pouco para encerrar seu desfile dentro do tempo de 58 minutos. Apresentou uma das melhores comissões de frente da noite, com os leões se transformando em sambistas. Às vezes idéias simples alcançam grande impacto, dispensando tripés e efeitos tecnológicos que muitas vezes mais atrapalham do que ajudam.
- O enredo era um dos mais interessantes da noite. Toda escola que se homenageia já gera boa expectativa. O enredo do Estácio tinha a peculiaridade da história da escola se misturar com a história do surgimento das escolas de samba. Com isso, o seu desenvolvimento foi bem mais amplo, abordando um momento muito importante de surgimento do samba, sua relação com os morros, a lembrança de nomes ilustres da escola, como Ismael Silva, Dominguinhos do Estácio e Luiz Melodia, e só depois que foi relembrado os grandes carnavais da escola. Certamente este desenvolvimento ajudou os compositores do samba, pois eles não tiveram que se limitar a fazer uma costura mal feita dos desfiles passados, coisa que se percebe nos famosos sambas da Mocidade em 90 (Vira, Virou a Mocidade Chegou) e Salgueiro em 2003 (Salgueiro, Minha Paixão, Minha Raiz - 50 Anos de Glória). Convenhamos, é uma tarefa difícil para o compositor condensar todos os desfiles famosos que serão relembrados. O resultado geralmente é vários temas desconexos aglomerados, como nas obras acima citadas:
“Com as benções do divino aconteceu
O descobrimento do Brasil
Quem não se lembra do lindo cantar do uirapuru
Quando gorjeava parecia que falava
Como era verde o meu Xingu”
“Porto pro navio negreiro
Viajou com Debret pelo Brasil
Quilombo, exaltou o orgulho negro
Xica da Silva já te seduziu
História em carnaval, bênçãos da Bahia
Rei Negro e Rei de França
Coroaram a Academia
Da magia fascinante à brilhante sedução
Das minas do Rei Salomão”
- Chico Spinosa e Gebran Smera prepararam um visual razoável para a escola. Não posso dizer muito do segundo carnavalesco, mas Chico apresenta com frequência carnavais irregulares, com o uso de cores e materiais nem sempre produzindo um resultado dos melhores. Por outro lado, ele sempre mostra algumas idéias interessantes. Considerando o excelente conjunto artístico que Cid Carvalho apresentou em 2009 (que, aliás, Cid também não conseguiu repetir na Mocidade este ano), a Estácio caiu um pouco de qualidade nos quesitos estéticos. No entanto, para a média do acesso em 2010, a escola não saiu tão comprometida na busca pelo título.
- Após o excelente desfile de 2009 e contando com um enredo de força sentimental para todos os sambistas e apaixonados pela agremiação, o desfile do Estácio poderia ter rendido mais. Infelizmente faltou explosão, talvez pelo cansaço do horário. Apesar de não ter sido um desfile arrebatador, a escola passou bem e se credenciou ao primeiro lugar, e não seria injusto se tivesse conseguido.
12- CUBANGO
- Mal saiu do Grupo B e já havia muito barulho em torno da Cubango. Grandes aquisições, como Mestre Jonas e Milton Cunha, um forte orçamento, e até alguns boatos davam conta de que a escola já havia comprado a vaga do Grupo Especial. Nem tanto, nem tanto…
- Milton Cunha, craque em pesquisa e desenvolvimento de enredo, mais uma vez acertou. Na estética, o carnavalesco também foi melhor do que muitos de seus outros carnavais. No entanto, houve repetição no estilo das alegorias, pois parte delas se resumia a um grande caixote com acabamento feito por um mesmo tipo de pano e uma ou outra escultura pra fazer um diferencial.
- O samba da escola tinha uma letra elaborada, o que atrapalhou que caísse na boca do povo. Mas é um samba muito bem elaborado, que transmite o enredo com alegria e inspiração. Também merece estar na lista dos melhores do Acesso.
- Cubango foi outra escola que teve que acelerar para encerrar seu desfile. Considerando o apertado tempo de 58 minutos, até que a noite foi relativamente tranqüila em termos de evolução. Boa parte das escolas conseguiu se programar bem e sair sem muita correria. Parece que as escolas do Grupo Especial tiveram mais problemas com o horário…
- Grandes expectativas tendem a frustrar, e acabou que o desfile da Cubango soou estranho. Era o fim de uma noite interessante, mas muito cansativa. Aliás, penso que nove escolas já é o suficiente para o público se divertir e cansar. 12 escolas em uma mesma noite tornam o espetáculo cansativo e prejudica as primeiras e últimas escolas. De volta à Cubango e tirando o peso dos boatos e expectativas, a escola se saiu muito bem, se analisarmos que foi a última a desfilar e tinha acabado de subir de grupo. O protesto do presidente da escola durante o julgamento se justifica, pois merecia uma colocação melhor, na metade de cima da tabela.




















